
"Hoje é muito mais grave um adolescente sem supervisão nas redes sociais do que sair sozinho à noite." O alerta é da promotora de Justiça Gabriela dos Santos Lusquiños, que esteve em Pelotas nesta segunda-feira (9) para uma palestra na Escola Mario Quintana.
Integrante do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e com mais de duas décadas de atuação na área da infância e juventude, a promotora falou sobre o crescimento de casos de violência envolvendo crianças e adolescentes, especialmente aqueles relacionados ao ambiente digital.
Antes do evento, ela conversou com a reportagem de GZH e explicou que a iniciativa busca ampliar o debate sobre as causas da violência e estimular ações preventivas nas escolas e nas famílias.
— Além de atuar nos processos e nas audiências, eu entendi que precisava contribuir de outra forma, levando essas informações para a comunidade. É importante que famílias, escolas e gestores públicos compreendam a violência que tem atingido nossas crianças e adolescentes — afirmou.
Protocolo busca prevenir situações de violência
Durante a atividade em Pelotas, Gabriela apresentou o Protocolo Eu Te Vejo, iniciativa voltada à prevenção de situações de violência envolvendo jovens.
Segundo a promotora, a proposta surgiu após mudanças percebidas nos casos que passaram a chegar às varas da infância nos últimos anos.
— Antigamente, o que mais aparecia eram furtos, roubos ou tráfico. A partir de 2018, e principalmente depois da pandemia, começamos a receber situações de violência muito mais extremas dentro do ambiente escolar — explicou.
O protocolo envolve palestras e ações educativas voltadas a diferentes públicos, como estudantes a partir do sexto ano, pais, responsáveis, professores e equipes de gestão escolar.
— Cada grupo precisa entender qual é o seu papel para mudar essa realidade — disse.
Crescimento de casos ligados às redes sociais
Outro ponto destacado pela promotora é o impacto das redes sociais na ampliação de comportamentos violentos entre adolescentes.
Segundo ela, casos relacionados a misoginia e violência digital tiveram crescimento significativo nos últimos anos.
— Nos últimos dois anos houve um aumento de mais de 200% nos casos envolvendo misoginia. Muitas dessas situações estão ligadas ao uso das redes sociais — afirmou.
De acordo com Lusquiños, o Ministério Público recebe semanalmente diversos registros envolvendo comportamentos agressivos no ambiente virtual.
— O que chama a atenção é que os atos estão cada vez mais graves — alerta.
“Não é só brincadeira”
Durante as palestras, a promotora também busca mostrar aos adolescentes que atitudes consideradas por eles como “brincadeira” podem trazer consequências legais.
— Quando chegam ao Ministério Público, muitos dizem: “era só uma brincadeira”. Quando mostramos que a lei não trata aquilo como brincadeira e que pode trazer consequências sérias, inclusive a perda da liberdade, o silêncio toma conta da sala — relatou.
Segundo ela, compartilhar casos reais ajuda os jovens a compreender o impacto das próprias atitudes.
— São histórias de famílias que ficam devastadas e de adolescentes que perdem a liberdade justamente no momento em que estão fazendo planos para o futuro — ressalta.
Desafio para pais e responsáveis
Para a promotora, um dos principais desafios é a dificuldade de pais e responsáveis em compreender os riscos presentes no ambiente digital.
— Antigamente, muitas dessas situações estavam na chamada deep web. Hoje estão na superfície da internet, nos mesmos aplicativos que todos usam — disse.
Ela afirma que existe uma falsa sensação de segurança quando os jovens estão em casa utilizando o celular ou o computador.
— Muitos pais acreditam que o filho está seguro no quarto. Mas, quando ele acessa o celular ou o computador, é como se abrisse uma porta para qualquer pessoa entrar — exemplifica.
Para a promotora, ampliar o diálogo entre famílias, escolas e estudantes é fundamental para reduzir os episódios de violência.
— A mudança precisa envolver toda a comunidade - conclui.
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