
Em média, um caso de estupro de vulnerável foi registrado a cada três dias em Pelotas nos primeiros 42 dias de 2026. Segundo a delegada titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Lisiane Mattarredona, o número de denúncias tem aumentado nos últimos anos, principalmente envolvendo pessoas próximas das vítimas.
— Ultimamente a gente tem visto que a maioria das denúncias envolvendo o crime de estupro de vulnerável está aumentando. Mas o que eu vejo é que muitas vezes as pessoas estão tendo acesso a essas prisões e sentem uma confiança maior no trabalho da Justiça como um todo — disse a delegada.
Nos últimos dias, casos recentes chamaram atenção pela proximidade familiar. No dia 4 de fevereiro, um homem de 59 anos foi preso preventivamente sob suspeita de estuprar a própria filha de 13 anos. Menos de uma semana depois, no dia 10, outro homem de 57 anos foi preso suspeito de abusar da filha quando ela tinha entre 11 e 14 anos. Nesta quarta-feira (11), a mãe de uma adolescente de 14 anos denunciou que a menor foi estuprada pelo padrasto.
— São pessoas muito próximas, acontece no ambiente de intimidade daquelas vítimas. A maioria das vítimas tem entre 9 a 13 anos de idade, é quando começa a acontecer com mais frequência esse tipo de violência, pelo menos é a nossa constatação aqui de Pelotas — explica Mattarredona.
A delegada ressalta que mudanças de comportamento costumam ser um dos principais sinais observados nas vítimas. O sentimento de culpa é recorrente e pode desencadear problemas de saúde mental, incluindo tentativas de suicídio.
Embora grande parte das denúncias parta do ambiente familiar, outros setores também têm contribuído para o aumento dos registros.
— Cada vez mais tem aumentado o número de denúncias por parte das escolas e por parte do serviço de saúde também — conta.
Como funciona a investigação
O atendimento às vítimas, crianças de até 13 anos, não ocorre em delegacias comuns. Em Pelotas, os casos são encaminhados ao Centro de Referência Infanto Juvenil (Crai), onde é realizado o acolhimento, a escuta especializada e, quando necessário, a perícia.
— Muitas vezes esses crimes deixam vestígios, então é necessário que o perito vá até a unidade do Crai — diz.
Após essa etapa, a polícia recebe o relatório do centro, ouve testemunhas e realiza o interrogatório do suspeito.
— Interrogamos o acusado e, muitas vezes, pedimos medidas de proteção para essa criança. Se a gente tem subsídios e elementos para isso, a gente representa pela prisão preventiva desse suspeito. Muitas vezes esses casos ofendem fortemente a ordem pública, porque são casos chocantes, casos que ultrapassam a normalidade — conta a delegada.
A delegada também destacou a importância da rede de apoio existente no município, que envolve serviços de saúde, educação, Ministério Público e Poder Judiciário.
— Temos uma integração muito forte com o município, através do serviço do Crai. Temos uma integração muito forte com a Secretaria de Educação e de Saúde, além de um apoio grande do Ministério Público e do Poder Judiciário. Nós temos muito uma vara especializada para isso aqui em Pelotas — afirma.
Segundo ela, esse atendimento humanizado facilita a revelação dos casos, que muitas vezes ocorrem em ambientes de intimidação.
— Isso é muito importante, porque a gente consegue colher mais detalhes, as pessoas acabam se abrindo mais. Então essa acolhida é fundamental, porque esses crimes acontecem às escondidas. Muitas vezes é a palavra da vítima e a palavra do abusador que a gente tem — relata.
Vítimas mais encorajadas a denunciar
Apesar da alta nos índices, Pelotas também registra aumento nas denúncias, o que pode ser explicado pelo maior encorajamento das vítimas, motivado por diversos fatores.
Mattarredona explica que, ao terem acesso a notícias sobre prisões e verificarem a efetividade do trabalho policial e judicial, as famílias se sentem mais seguras para buscar a polícia e relatar os crimes.
Segundo ela, a divulgação de reportagens sobre o tema também encoraja, inclusive aquelas pessoas que sofreram abusos há muitos anos e decidem denunciar seus agressores ao perceberem que não estão sozinhas.
— Muitas pessoas nos procuram e dizem: "Olha, eu vi a reportagem, lembrei que eu também fui vítima e também quero denunciar". A gente vê o quanto isso mexe com eles. Eu acho que isso é uma coisa que sempre existiu, mas que hoje está se tornando cada vez mais exposta — conclui.
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