
Duas investigações paralelas vão tentar explicar as circunstâncias que levaram policiais militares a matar um agricultor no interior de Pelotas, na madrugada desta quinta-feira (15). Marcos Nörnberg, 48 anos, foi baleado durante uma ação da Brigada Militar (BM) na propriedade dele, por volta das 3h.
O produtor e feirante, que se dedicava ao cultivo de morangos, pensou que sua casa estava sendo assaltada e empunhou uma arma. Os policiais seguiam uma pista falsa sobre um suposto depósito de drogas e veículos roubados.
As apurações em andamento são da Corregedoria-Geral da BM e da Delegacia de Homicídios de Pelotas. O comandante-geral da Brigada Militar, coronel Cláudio dos Santos Feoli, explicou, em entrevista à Rádio Gaúcha, a diferença entre os dois inquéritos:
— A nossa parte visa à verificação de eventuais erros de procedimento, transgressões da disciplina e, eventualmente, cometimento de crimes militares, enquanto a Polícia Civil averigua efetivamente a questão da morte.
Segundo Feoli, uma equipe da Corregedoria está em Pelotas e tomou, ainda na quinta-feira, os depoimentos dos policiais envolvidos na ação. Os 18 brigadianos que foram à propriedade na madrugada estão afastados, cautelarmente, das atividades de policiamento. Também serão ouvidos, informou o comandante, todos os policiais envolvidos na ocorrência, ainda que indiretamente, "mesmo aquele que recebeu a informação e repassou para a execução da averiguação".
A investigação da Polícia Civil vai ouvir na próxima segunda-feira (19) familiares de Nörnberg — a esposa, a filha e o pai da vítima. Na terça-feira (20), serão ouvidos os 18 policiais militares que participaram da ação.
A investigação também deve ouvir oficiais responsáveis pelo 5º Batalhão de Choque e do 4º Batalhão de Polícia Militar de Pelotas para saber se e quem tinha ciência, além de mais informações a respeito da existência de um possível depósito de carros roubados e drogas na região.
A Polícia Civil ainda vai analisar imagens de câmeras de segurança da propriedade rural, entregues pela família nesta quinta.
O que já se sabe sobre o que aconteceu
Seis viaturas, com 18 policiais militares, entraram na propriedade da família Nörnberg por volta das 3h desta quinta. Segundo relato de Raquel, esposa do homem morto, as sirenes e sinais luminosos dos veículos estavam desligados. Os brigadianos teriam batido nas janelas e se identificado como policiais, mas o casal não acreditou e pensou que estava diante de um assalto.
Marcos pegou a arma e, em seguida, de acordo com Raquel, os policiais arrombaram a porta e houve tiros. O morador foi baleado. A BM afirma que o agricultor disparou e atingiu um escudo usado pelos policiais para se aproximar da porta da residência.
Após a morte de Marcos, a polícia verificou que não havia qualquer atividade criminosa na propriedade.
— Tudo o que foi informado por aqueles delinquentes, que foi então repassado às nossas guarnições, não se confirmou — destacou o coronel Feoli, sobre a pista falsa dada por suspeitos presos.

Como a polícia chegou à propriedade?
A Brigada Militar buscava por envolvidos em outro crime, o sequestro de um caseiro, ocorrido no interior de Pelotas, na terça-feira (13). O homem teria ficado por 36 horas em cárcere privado, mantido por quatro criminosos.
Depois, os sequestradores fugiram levando três carros. Um suspeito foi preso no centro de Pelotas. O caseiro disse a policiais que os demais bandidos estavam fugindo rumo ao Paraguai. A Polícia Militar do Paraná foi acionada para monitorar a possível movimentação dos suspeitos.
Um dos carros roubados foi interceptado. Nele estavam dois suspeitos, que teriam feito aos policiais uma descrição minuciosa de um suposto depósito de drogas e carros roubados, guardado por homens armados. Eles forneceram a localização exata, inclusive com informações de georreferenciamento, da propriedade dos Nörnberg.
"Derrubaram a porta e começaram a atirar", diz esposa da vítima

Esposa da vítima, Raquel Nornberg relatou que o casal foi acordado pelo barulho dos cachorros e por movimentação ao redor da casa:
— De repente, tinha vários homens na janela mandando abrir a porta. A gente achou que era bandido.
Diante da situação, o produtor pegou uma arma que tinha em casa. Raquel contou que, logo depois, a porta foi arrombada e os disparos começaram.
— Derrubaram a porta e começaram a atirar. Eu me deitei no chão. Meu marido ainda falou "eles me atingiram" e caiu.
A moradora acrescentou:
— Foi uma surpresa quando eu vi que era uma ação policial, porque não era o que parecia — afirma.
A arma do agricultor era regular?
Sim. Segundo apurado pela reportagem de GZH Zona Sul, Nornberg tinha autorização para possuir a arma, que estava devidamente registrada.
O que aconteceu aos policiais envolvidos?
Os 18 brigadianos foram afastados das atividades de policiamento até a conclusão das investigações.
— É natural, em cada ocorrência que nós temos o resultado morte, o afastamento dos policiais envolvidos diretamente — explicou o comandante-geral da BM.
Há imagens de câmeras?
Sim. A propriedade possuía sistema de videomonitoramento e as imagens já foram entregues à Polícia Civil.
Os policiais militares ainda não utilizam câmeras nas fardas no interior do RS. O equipamento só está disponível para parte do efetivo da Capital.
Quem era a vítima
Marcos Nörnberg, 48 anos, era produtor rural, feirante e pai de família, conhecido pela dedicação ao trabalho no campo e pelo vínculo estreito com os familiares na zona rural de Pelotas. Há mais de 20 anos, os Nörnberg mantinham a produção agrícola na região, inicialmente conduzida pelo pai de Marcos, que cultivava morangos de forma tradicional.
Para além da rotina no campo, Marcos era descrito como um pai presente, amigo e figura de confiança. Segundo a família, Marcos vivia um momento de estabilidade e investimento, com planos de permanecer em Pelotas a longo prazo.
O velório de Marcos Nörnberg ocorreu na quinta no Cemitério São Francisco de Paula, em Pelotas. O sepultamento está marcado para a manhã desta sexta-feira (16).
O que diz a Brigada Militar
O comandante-geral da Brigada Militar pregou "responsabilidade" diante de "uma gama de lacunas que devem ser preenchidas" pela investigação da Corregedoria-Geral sobre o fato.
— Nos parece preliminarmente, e aí, claro, nós temos uma investigação pela frente para verificar todas as circunstâncias que, de fato, envolvem esta ocorrência, que nós tivemos um grande mal-entendido com desfecho trágico — comentou o coronel Cláudio dos Santos Feoli, em primeira manifestação oficial sobre o caso, durante entrevista ao programa Gaúcha+.
A título de manifestação oficial, a Brigada Militar também divulgou à imprensa nesta tarde uma nota sobre o caso (confira, mais abaixo, a íntegra do comunicado).
A Polícia Civil participou da ação?
Não. Segundo o delegado César Nogueira, titular da 2ª Delegacia de Polícia de Pelotas e que responde interinamente pela DP de Homicídios, a Polícia Civil não recebeu informação prévia sobre a ação, o que ele classificou como "incomum", diante da quantidade de policiais e viaturas mobilizada. No entanto, Nogueira destacou que é papel da Brigada Militar verificar informações sobre possíveis crimes em andamento, como seria o caso.
Questionado em entrevista ao programa Gaúcha+ sobre a possibilidade de colaboração da Polícia Civil na abordagem, por exemplo, com uma verificação prévia da propriedade ou dos moradores, o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Cláudio Feoli, afirmou:
— Na prática, nós tínhamos a prisão de dois delinquentes. No dia seguinte, eventual grupo criminoso que envolve esses dois criminosos já alteraria, com a informação da prisão desses dois, o local de veículos roubados, de droga. Essa é a dinâmica criminosa que nós vivenciamos hoje. Então, não havia maior tempo para se deixar de averiguar um informe desse nível.
O que diz o governo do RS
Questionado sobre o caso, o governador Eduardo Leite defendeu "a mais rigorosa apuração" do ocorrido e disse que o Executivo vai acompanhar de perto o procedimento.
— A Brigada Militar é uma polícia bem preparada, mas não é imune a erros — comentou Leite.
Nota da Brigada Militar:
A respeito da intervenção policial ocorrida na cidade de Pelotas, a Brigada Militar esclarece que, na madrugada desta quarta-feira (15/01), ao realizar buscas na área rural de Pelotas, após uma ocorrência de roubo a residência registrada na terça-feira (13/01), onde um caseiro foi feito refém por 36 horas, tendo três veículos e um reboque roubados, advém da seguinte dinâmica:
Na quarta-feira (14/01),na cidade de Guaíra no estado do Paraná, a polícia militar local, prendeu dois suspeitos do roubo, residentes em Pelotas, com idades de 20 e 21 anos, ambos com antecedentes por tráfico de drogas, roubo e adulteração de veículo, os quais estariam envolvidos no grave crime e na posse dos veículos roubados em Pelotas.
Em posse de informações recebidas da Polícia Militar do Paraná, a Brigada Militar planejou uma operação no local onde haveriam outros indivíduos envolvidos, com armas e veículos roubados. Durante a averiguação ao endereço os policiais militares se depararam com um homem portando uma arma de fogo, o qual não acolheu as ordens policiais, efetuando disparos contra a guarnição, estabelecendo confronto em que resultou na vitimada fatalmente.
O local foi imediatamente isolado e preservado para os trabalhos da perícia técnica. Com o indivíduo, foi apreendida uma arma de fogo, do tipo carabina semiautomática, além de aproximadamente R$ 27 mil em dinheiro e uma pequena quantia em dólar.
A Brigada Militar informa que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou inquérito policial militar para apurar e esclarecer as circunstâncias do fato.




