
O velório do agricultor e feirante Marcos Nörnberg, 48 anos, morto a tiros durante uma ação da Brigada Militar (BM) na madrugada de quinta-feira (15), em Pelotas, é marcado por comoção, silêncio e relatos de incredulidade de familiares, amigos e vizinhos. O corpo é velado no Cemitério São Francisco de Paula, em Pelotas, e o sepultamento ocorre na manhã desta sexta-feira (16).
Em razão dos ferimentos, o velório ocorre com caixão fechado. Ao longo da quinta-feira e da manhã desta sexta-feira, moradores da região rural onde Marcos vivia há mais de 20 anos se revezaram para prestar as últimas homenagens ao produtor rural, descrito como trabalhador incansável, pai dedicado e vizinho solidário.
— Era uma pessoa de família, extremamente trabalhador. Ele cuidava da lavoura praticamente sozinho, com ajuda da filha. Trabalhou a vida inteira, sábado, domingo, feriado. Não tem uma pessoa que fale algo negativo dele — afirmou o vizinho e amigo Enildo Kutter, 60 anos.
Gilvani Ludtke, 58 anos, destacou a rotina exaustiva do agricultor, que cultivava morangos e atuava como feirante.
— Quem é do interior não trabalha oito horas por dia. Trabalha quinze, dezoito horas. Ele fazia feira, acordava de madrugada, trabalhava sem parar. Era uma pessoa maravilhosa. O que aconteceu com ele é uma injustiça muito grande.
O que aconteceu?
Marcos Nörnberg foi morto por volta das 3h da madrugada de quinta-feira (16), quando seis viaturas da Brigada Militar, com 18 policiais, entraram na propriedade da família, no interior de Pelotas. Segundo relato da esposa, Raquel Nörnberg, o casal foi acordado pelo barulho dos cachorros e por movimentação ao redor da casa.

De acordo com ela, os policiais estavam com sirenes e sinais luminosos desligados. Homens bateram nas janelas e se identificaram como policiais, mas o casal acreditou estar diante de um assalto.
— A gente achou que era bandido. Derrubaram a porta e começaram a atirar. Eu me deitei no chão. Meu marido ainda falou “eles me atingiram” e caiu — relatou Raquel.
A Brigada Militar afirma que Marcos estava armado, não teria acatado ordens e efetuou um disparo que atingiu um escudo balístico usado pelos policiais, o que teria motivado o revide. A arma do agricultor era registrada e ele tinha autorização legal para possuí-la, conforme apuração da reportagem.
Após a ocorrência, a polícia confirmou que não havia qualquer atividade criminosa na propriedade.
Pista falsa e investigações
A operação foi desencadeada a partir de informações repassadas por suspeitos presos no Paraná, ligados ao sequestro de um caseiro ocorrido dois dias antes no interior de Pelotas. Os presos indicaram, de forma detalhada e com georreferenciamento, que a propriedade dos Nörnberg abrigaria um depósito de drogas e veículos roubados — informação que não se confirmou.
Duas investigações paralelas estão em andamento para apurar o caso. A Corregedoria-Geral da Brigada Militar instaurou um inquérito policial militar para apurar eventuais falhas de procedimento, enquanto a Delegacia de Homicídios da Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte.
Os 18 policiais envolvidos na ação foram afastados, de forma cautelar, das atividades de policiamento. Familiares da vítima devem ser ouvidos na próxima segunda-feira (19), e os policiais, na terça-feira (20). A Polícia Civil também analisa imagens de câmeras de segurança da propriedade, entregues pela família.
Quem era Marcos Nörnberg
Produtor rural, feirante e pai de família, Marcos Nörnberg era conhecido na comunidade pelo vínculo com a terra e pela dedicação à família. Há mais de 20 anos, a produção agrícola da família era mantida na região, inicialmente conduzida pelo pai de Marcos. Recentemente, ele havia investido em estufas e ampliado a lavoura de morangos, com apoio técnico de instituições como Emater e Embrapa.
— Ele tinha visão de futuro, investia no que fazia e pensava em ficar aqui por muito tempo — resumiu um dos vizinhos.
O que dizem as autoridades
O comandante-geral da Brigada Militar, coronel Cláudio dos Santos Feoli, classificou o caso como um “grande mal-entendido com desfecho trágico” e defendeu cautela até a conclusão das investigações. O governador Eduardo Leite afirmou que o governo do Estado acompanha o caso e defendeu “a mais rigorosa apuração”.
A Polícia Civil informou que não foi comunicada previamente sobre a operação, o que foi considerado incomum pelo delegado responsável, embora tenha ressaltado que a BM tem atribuição para averiguar denúncias de crimes em andamento.
Enquanto as investigações avançam, familiares e moradores da zona rural de Pelotas tentam lidar com a perda repentina de um homem descrito como simples, trabalhador e profundamente ligado à terra — morto dentro da própria casa, em uma madrugada que terminou em tragédia.





