
Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores da Coorte de Nascimentos de 1993, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), está relacionado ao peso corporal. Aos 30 anos, 66,5% dos participantes apresentavam excesso de peso, com maior presença de mulheres entre os casos de obesidade.
Os dados foram apresentados na sexta-feira (28), durante o evento que marcou os 30 anos do estudo. O levantamento também apontou crescimento nos sintomas relacionados a transtornos mentais comuns, principalmente ansiedade e depressão, além de revelar aspectos sobre trabalho, tabagismo, renda e qualidade de vida de uma geração inteira de pelotenses.
A pesquisa começou com praticamente todas as crianças nascidas em 1993 cujas mães moravam na zona urbana de Pelotas. Das 5.265 mulheres convidadas nas maternidades, 5.249 aceitaram participar. Desde então, foram realizados 14 acompanhamentos.
Na etapa mais recente, os pesquisadores conseguiram entrevistar 3.333 participantes. Desse total, quase 56% eram mulheres e 44% homens. A escolaridade média era de 10 anos completos de estudo, e aproximadamente 76% estavam trabalhando.
Sintomas de ansiedade e depressão cresceram
Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores está relacionado à saúde mental.
Segundo os dados apresentados, as mulheres relataram depressão em uma proporção 2,8 vezes maior do que os homens e também registraram mais relatos relacionados à ansiedade.
Os pesquisadores observam que as mulheres costumam procurar mais os serviços de saúde, o que pode contribuir para uma maior identificação desses problemas.
A comparação ao longo dos anos mostra uma mudança significativa. A proporção de participantes com sintomas de transtornos mentais comuns, predominantemente ansiedade e depressão, passou de 22% aos 22 anos para 38% aos 30 anos.
Tabagismo já afeta a função pulmonar na juventude
Outro estudo apresentado a partir dos dados da Coorte de 1993 investigou os efeitos do cigarro na saúde respiratória. O levantamento mostrou que 17,7% dos entrevistados eram fumantes aos 30 anos.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à prevenção de doenças crônicas e à promoção de hábitos saudáveis ao longo da vida.
A pesquisadora Larissa Picanço analisou a exposição acumulada ao tabagismo e comparou exames de função pulmonar realizados aos 22 e aos 30 anos.
Os resultados indicam que uma maior exposição ao cigarro já estava associada a alterações na função pulmonar aos 22 anos. Aos 30, o padrão permaneceu, com menores fluxos e volumes pulmonares entre os participantes expostos ao tabagismo.
— O impacto começa cedo. Quanto maior a exposição do tabagismo, maiores as diferenças na função pulmonar já aos 22 anos — explicou Larissa durante a apresentação.
Trabalho, estudo e família
A pesquisa também ajuda a traçar um retrato social da geração acompanhada.
Aos 30 anos, aproximadamente 76% dos participantes trabalhavam. Outros 23% estudavam, incluindo pessoas que conciliavam estudo e trabalho. Já 19,5% não estudavam nem trabalhavam.
Entre as mulheres que não exerciam atividade profissional, 41,4% apontaram o cuidado com os filhos como principal motivo. Entre os homens, apareceram com maior frequência a dificuldade para conseguir emprego e o afastamento das atividades por doença ou acidente.
Quando questionados sobre felicidade, 46,2% apontaram a família como um dos principais fatores, seguida pela saúde.
No sentido oposto, problemas de saúde e a ausência de vínculos familiares apareceram entre os fatores mais associados à infelicidade.
Um estudo que acompanha gerações
Além de produzir informações sobre uma geração inteira, a pesquisa acompanha individualmente seus participantes há mais de três décadas.
A pelotense Gabriela, nascida em outubro de 1993, cresceu participando da coorte e, anos depois, tornou-se doutora em Epidemiologia pela própria UFPel.
— Enquanto a gente estava crescendo, a coorte estava construindo uma história extremamente importante para a ciência e para a saúde pública — afirmou.
Atualmente, Pelotas mantém estudos com pessoas nascidas em 1982, 1993, 2004, 2015 e 2026. Conforme destacado durante o evento, a cidade chegou à quinta geração acompanhada pelas pesquisas.
Os estudos permitem comparar como saúde, renda, alimentação, comportamento e outros fatores se transformam ao longo da vida e entre diferentes gerações. Para os pesquisadores, esse acompanhamento contínuo produz evidências capazes de orientar políticas públicas.
Gabriela resume essa característica como uma espécie de “filme da nossa vida”, em que informações coletadas décadas antes continuam ajudando a compreender a trajetória de saúde dos participantes e da população.
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