
A passagem de um tornado pelo interior de Pedro Osório, na quinta-feira (6), chamou a atenção para a ocorrência desse tipo de fenômeno na Zona Sul. Formado durante uma tempestade severa, o tornado atingiu propriedades rurais nas proximidades da Vila Matarazzo, provocando danos em casas, galpões, postes e áreas de vegetação.
Segundo Eliton Lima de Figueiredo, pesquisador do Centro Integrado de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (Ciex) da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), um tornado é caracterizado por uma coluna de ar em rotação intensa que se estende de uma tempestade até a superfície.
— O tornado é uma coluna de ar rotativa muito intensa que atinge o solo, associada a uma tempestade. A maioria dos tornados se origina de tempestades rotativas, denominadas supercélulas — explica.
Nas supercélulas, a corrente de ar que se desloca para cima dentro da tempestade também apresenta movimento giratório. Quando essa rotação próxima à superfície começa a se intensificar e se organizar, pode ocorrer a formação de um tornado.
— Nesse tipo de tempestade, a presença de uma corrente ascendente rotativa próxima à superfície pode começar a se intensificar e se organizar, levando à formação de um tornado — detalha Figueiredo.
Frente fria favoreceu formação de tempestade
Segundo o pesquisador, o tornado registrado em Pedro Osório teve origem em uma supercélula formada antes da passagem da frente fria pela região. A aproximação do sistema ajudou a reunir os ingredientes atmosféricos necessários para o desenvolvimento da tempestade severa.
Antes da chegada da frente fria, uma massa de ar quente e úmido atuava sobre a Zona Sul. Essa condição tornou a atmosfera mais instável e aumentou o chamado cisalhamento do vento — variação da direção ou da velocidade do vento conforme a altitude.
— A massa de ar quente e úmido que antecedeu a chegada da frente fria criou condições atmosféricas termodinamicamente instáveis e com altos valores de cisalhamento do vento, inclusive próximo à superfície — explica.
O cisalhamento pode gerar uma rotação inicialmente horizontal na atmosfera. Ao encontrar a corrente de ar ascendente de uma tempestade, essa circulação pode ser inclinada, passando a girar verticalmente. Esse processo favorece a formação e a manutenção da corrente ascendente rotativa característica das supercélulas.
— O cisalhamento do vento gera uma rotação horizontal que pode ser inclinada pela corrente ascendente de uma tempestade e favorecer a formação ou a manutenção de correntes ascendentes rotativas — acrescenta o pesquisador.
O ciclone-bomba formado sobre o oceano não produziu diretamente o tornado, mas influenciou a organização do cenário meteorológico. Segundo Figueiredo, o rápido deslocamento da frente fria associado ao aprofundamento do ciclone pode ter contribuído para a formação da linha de instabilidade que atravessou a região.
— O fato de a frente fria ter se deslocado rapidamente devido ao ciclone-bomba pode ter favorecido a formação da linha de instabilidade — avalia.
Zona Sul não é a região com maior ocorrência no Estado
Embora a Zona Sul esteja sujeita à formação de tempestades severas e tornados, as condições necessárias para esses fenômenos aparecem com maior frequência em outras áreas do Rio Grande do Sul.
— Os ingredientes atmosféricos para a formação de tempestades severas são encontrados mais frequentemente, principalmente, nas regiões oeste, noroeste, norte e central do Estado — ressalta Figueiredo.
Na Zona Sul, a aproximação de massas de ar frio costuma aumentar a instabilidade. Antes da mudança do tempo, o vento de noroeste transporta ar quente e úmido para a região. Ao mesmo tempo, a chegada do sistema frontal amplia a variação dos ventos entre diferentes níveis da atmosfera.
— A aproximação da massa de ar frio geralmente organiza condições atmosféricas mais instáveis devido ao fluxo de vento de noroeste, com ar quente e úmido, juntamente com o aumento do cisalhamento do vento — explica.
Apesar de a região integrar uma área da América do Sul favorável à ocorrência de tempestades severas, não há indicação de que a Lagoa dos Patos ou a proximidade com o Oceano Atlântico sejam, isoladamente, responsáveis pela formação dos tornados.
O desenvolvimento do fenômeno depende da combinação de instabilidade, umidade, correntes ascendentes e cisalhamento do vento.
Danos ajudam a medir intensidade do tornado
A intensidade de um tornado pode ser estimada a partir dos danos observados ao longo da trajetória. Para isso, especialistas utilizam a Escala Fujita, desenvolvida pelo meteorologista Tetsuya Theodore Fujita em 1971.
— É possível estimar a intensidade usando a Escala Fujita, que classifica o tornado com base nos danos — informa o pesquisador.
A análise considera os efeitos do vento sobre construções, árvores, postes e outras estruturas. O padrão dos estragos também ajuda a reconstruir o caminho percorrido e a diferenciar um tornado de outros fenômenos de vento intenso.
A estimativa, no entanto, exige uma avaliação técnica detalhada. A velocidade não deve ser determinada somente pela rajada registrada em uma estação meteorológica próxima, já que o equipamento pode estar fora da trajetória do tornado e não captar o vento mais intenso.
Diferença entre tornado, vendaval e microexplosão
Embora tornados, vendavais e microexplosões possam provocar destelhamentos, quedas de árvores e danos à rede elétrica, o comportamento dos ventos é diferente.
No tornado, o ar apresenta uma rotação intensa e os estragos costumam formar uma faixa mais concentrada. Objetos podem ser torcidos, elevados ou lançados em diferentes direções.
Em vendavais e microexplosões, os danos tendem a seguir uma orientação mais linear, acompanhando a direção predominante do vento.
— O que diferencia o tornado do vendaval e da microexplosão é que o tornado é uma coluna de ar rotativa muito intensa, podendo causar ventos de mais de 300 quilômetros por hora. Os danos não são orientados em linha reta, como ocorre em um vendaval ou em uma microexplosão — esclarece Figueiredo.
A microexplosão acontece quando uma corrente de ar desce rapidamente de uma nuvem de tempestade e, ao atingir o solo, espalha-se horizontalmente. Já o vendaval corresponde a ventos fortes associados a diferentes sistemas meteorológicos, sem a coluna giratória concentrada que caracteriza o tornado.
Região teve ao menos quatro episódios documentados
Não existe uma série histórica oficial e completa que permita determinar com precisão quantos tornados já ocorreram na Zona Sul.
Conforme Figueiredo, há trabalhos acadêmicos produzidos por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sobre episódios registrados no Rio Grande do Sul, mas as bases disponíveis não contemplam necessariamente todos os fenômenos.
Levantamento feito a partir de casos confirmados e documentados aponta ao menos quatro episódios na Zona Sul desde 2014. Naquele ano, um tornado foi registrado entre Pedro Osório e Capão do Leão.
Em 2026, outros três episódios foram confirmados: em 12 de fevereiro, no bairro Fragata, em Pelotas; em 15 de fevereiro, na zona rural de Encruzilhada do Sul, próximo da divisa com Canguçu; e na quinta-feira, em Pedro Osório.
Ainda conforme o pesquisador, o número deve ser considerado mínimo, e não definitivo. Como os tornados duram pouco tempo e podem atravessar áreas rurais ou desabitadas, alguns casos não são filmados nem deixam informações suficientes para uma confirmação técnica.
Além disso, ocorrências antigas podem ter sido registradas apenas como vendavais.
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