
No fim da Rua Almirante Tamandaré, no bairro Navegantes, em Rio Grande, uma estrutura feita com concreto e cascotes virou a principal barreira dos moradores contra o avanço da água. A contenção foi construída pela própria comunidade para tentar evitar que a elevação do nível da Lagoa dos Patos chegue às casas.
No início desta semana, a preocupação voltou a crescer. Na noite de terça-feira (11), a água avançou pela rua e chegou perto de uma escola, segundo o morador Alex Lima Lopes, que vive no bairro há pouco mais de seis anos.
— Desde as 15h até umas 19h30min, a água chegou lá perto do colégio. Só não foi pior porque a gente teve a felicidade de ter um morador aqui que fez essa contenção — relata.
A estrutura é uma solução improvisada. Depois da enchente de 2024, os moradores chegaram a fazer uma contenção em melhores condições, com aterro limpo. Mas, conforme Alex, a estrutura acabou destruída com novos episódios de elevação da água.
— Foi feita uma contenção paliativa, com cascote, com sobras de concreto, e foi pelos próprios moradores. Após a enchente foi feita uma contenção em boas condições, com tudo certinho, com aterro limpo. Só que aí vem outra subida de maré, outra enchente e destruiu tudo — conta.
"A gente continua na luta"

O morador afirma que a comunidade busca uma solução definitiva desde a enchente de 2024. Segundo ele, os moradores chegaram a criar uma associação neste ano para tentar organizar as demandas e buscar apoio do poder público.
Enquanto isso, algumas famílias tentam se adaptar como podem. Alex conta que muitos moradores mantêm móveis em locais mais altos desde a enchente, mas que nem todas as casas estão preparadas para novos avanços da água.
— A grande maioria já tem os móveis a uma certa altura. Mas outros não estão preparados. Porque, além disso, a água também avança pelas tubulações da direto no banheiro quando sobe o nível da maré — afirma.
Para ele, a estrutura construída pelos próprios moradores tem evitado que a situação seja ainda pior.
— As autoridades vem aqui prometem coisas e vão embora. Passam 30, 60, 90 dias e está como está. O que tem aqui foi feito pelos moradores, se não a situação estaria pior.
Nível da lagoa pode voltar a superar cota de inundação
O avanço registrado nesta semana ocorre em um momento de oscilação do nível da Lagoa dos Patos. Dados do monitoramento da Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos da Universidade Federal do Rio Grande (Ciex/Furg) mostram que, na noite de quarta-feira, o nível chegou a 1,06 metro, às 21h, no ponto de monitoramento em Rio Grande. A cota de inundação utilizada como referência é de 80 centímetros.
Na madrugada desta quinta-feira (13), o nível recuou. Às 6h30min, estava em 70,7 centímetros.
A previsão do Ciex, porém, indica novas oscilações nos próximos dias, com o nível podendo ficar novamente acima da cota de inundação. Para sexta-feira (14) e sábado (15), a projeção aponta níveis próximos ou acima de 80 centímetros em boa parte do período, com picos estimados entre 90 e 98 centímetros.
Isso significa que, mesmo com o recuo registrado nesta manhã, os moradores seguem sujeitos a novos avanços da água.
Prefeitura prevê obra para toda a região
A prefeitura de Rio Grande afirma que existe um projeto maior para enfrentar os alagamentos e as inundações na região. A proposta faz parte da recuperação da Orla Dom Bosquinho e inclui áreas dos bairros Dom Bosquinho, Navegantes e Lar Gaúcho.
O projeto foi selecionado pelo governo federal em junho de 2025, dentro do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC Seleções), com R$ 42,4 milhões liberados para a primeira fase.
A intervenção prevista é maior do que uma contenção na Rua Almirante Tamandaré. Segundo a prefeitura, o projeto contempla cerca de 243 mil metros quadrados, com 1,242 quilômetro de orla, entre a Avenida Major Carlos Pinto e a Refinaria Rio-Grandense.
Entre as obras previstas estão a construção de um dique, duas casas de bombas e ações de macrodrenagem, além de intervenções de reurbanização e recuperação ambiental. A proposta também prevê adequações no espaço urbano e a realocação de algumas famílias.
A prefeitura afirma que os recursos já disponíveis não são suficientes para executar todo o projeto e que ainda busca a liberação de outras verbas. Por isso, ainda não há previsão para o início das obras.
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