Enquanto aguardava um guincho ao lado do carro parado em um trecho alagado da Avenida Bento Gonçalves, em Pelotas, o motorista de aplicativo Paulo Ricardo Reis da Silva tentava calcular o prejuízo provocado pelo temporal que atingiu o sul do Estado entre a noite de quinta-feira (27) e a manhã de sexta-feira (28).
— Vou ficar no prejuízo. Vou ver o que aconteceu. Tomara que não tenha entrado água no motor. Vou levar para a oficina para ver qual é o diagnóstico do mecânico — afirmou.
A situação enfrentada por Silva resume os impactos deixados pela chuva intensa que atingiu a região. O evento climático com queda de granizo e fortes rajadas de vento provocou alagamentos, danos à infraestrutura, interrupções no fornecimento de energia elétrica e deixou famílias fora de casa.
De acordo com dados da Defesa Civil Estadual, alguns dos maiores acumulados de chuva em 12 horas foram registrados em Pelotas (56 milímetros), Pedro Osório (25 mm), Arambaré (92 mm), Cerrito (26,2 mm), Canguçu (61,8 mm), São Lourenço do Sul (77 mm) e Rio Grande (0,4 mm).

Além de Pelotas, também houve registro de granizo em municípios como Rio Grande, São José do Norte, São Lourenço do Sul, Pedro Osório, Herval, Cerrito e Capão do Leão.
Pelotas concentra o maior número de atingidos

Um dos municípios mais afetados foi Pelotas, onde a combinação entre granizo e chuva intensa provocou danos em centenas de imóveis. Nas últimas 24 horas, a precipitação registrada foi de 169,4 milímetros.
Um levantamento da Defesa Civil aponta que mais de 400 residências foram atingidas, principalmente no Balneário dos Prazeres (Barro Duro) e na Colônia de Pescadores Z3. O número, porém, ainda pode aumentar conforme avançam as vistorias.
Até o início da tarde, 14 pessoas de cinco famílias já haviam sido encaminhadas para acolhimento público pelo município. Além disso, outras pessoas deixaram suas residências e buscaram abrigo na casa de familiares.
Segundo o secretário municipal de Defesa Civil, Milton Martins, o cenário ainda está em atualização.
— Nós estamos começando já a encaminhar para a casa de passagem — afirmou.
A Defesa Civil já distribuiu 22 rolos de lona de 100 metros cada para moradores que tiveram os telhados danificados. Outros 15 rolos são aguardados para reforçar o atendimento.

No Barro Duro, a casa de Evaldir Sausen teve o telhado quebrado pelas pedras de granizo.
— Parecia que ia terminar o mundo. Eu, com 72 anos, nunca ouvi e nunca vi uma tragédia igual essa — conta.
Ele mora no local há cerca de 50 anos e já planeja a reconstrução do telhado quando a chuva passar.
A prefeitura também anunciou a compra de cinco mil telhas para auxiliar na recuperação dos imóveis atingidos.
Para Martins, a cidade enfrenta um mês especialmente desafiador.
— É muita intensidade de emergência climática sobre a cidade no mês de agosto. É o terceiro evento severo e a gente está resistindo — afirmou.
Apesar dos prejuízos, não houve registro de feridos ou mortes.
Comunidades ficaram isoladas em Pinheiro Machado
No interior de Pinheiro Machado, os impactos mais significativos ocorreram em estradas e pontes.
Segundo o prefeito Ronaldo Madruga, várias comunidades ficaram isoladas após a elevação do nível dos cursos d'água.
— Nós estamos com o nosso interior, muitas famílias ilhadas, as pontes estão submersas — disse o chefe do Executivo.
O município acumulou 65,4mm de chuva em 12 horas, conforme dados da Defesa Civil.
Além dos problemas nas vias rurais, a água atingiu aproximadamente 20 residências, uma escola, um teatro e a sede da prefeitura.
A principal preocupação está nas estruturas localizadas na divisa com Piratini.
— Só temos a certeza que o prejuízo é grande, principalmente nas pontes. Então, estamos unindo forças junto com o município de Piratini, que tem pontes que dividem os municípios e estão totalmente colapsadas com essas chuvas intensas — detalha.
O município ainda não divulgou um balanço consolidado dos danos.
Moradores relatam sensação de isolamento
Em bairros próximos aos canais de Pelotas, a preocupação fez parte da rotina durante toda a madrugada.
A comerciante Daiane Camargo acompanhou a elevação do nível da água e relatou a apreensão enfrentada pelos moradores.

— A gente sempre fica bem apreensiva conforme vêm esses inúmeros dias de chuva, né? Mais uma vez estamos aí meio que ilhados — relatou.
Segundo ela, a situação costuma se repetir em períodos de precipitação persistente.
Em Santa Vitória do Palmar, uma árvore caiu sobre a Estrada da Hermana e interrompeu o trânsito temporariamente. Já em Cerrito e Herval, houve registros de granizo sem danos relevantes.
Instabilidade afetou fornecimento de energia
A tempestade também provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica em diferentes municípios da região.
No final da tarde desta sexta-feira, mais de 1,9 mil consumidores ainda estavam sem luz. Os principais registros foram observados em Rio Grande e Jaguarão, além de ocorrências em Arroio Grande, Chuí, Pelotas, Herval, e São José do Norte.
Levantamento dos prejuízos continua
Embora os maiores núcleos de instabilidade tenham perdido força ao longo desta sexta-feira, as equipes seguem contabilizando os impactos.
Em Pelotas, moradores ainda tentam proteger imóveis atingidos pelo granizo. Em Pinheiro Machado, comunidades aguardam a normalização dos acessos interrompidos pela cheia. Já em Rio Grande, o alto volume de chuva voltou a testar o sistema de drenagem urbana.
Fique informado sobre o que acontece na região sul do Estado! Siga @gzhzonasul no Instagram e no Facebook, e inscreva-se no canal do WhatsApp para receber notícias em seu celular: gzh.rs/canalgzhzs.










