Quem esteve na região dos Molhes da Barra, na Praia do Cassino, em Rio Grande, durante o fim de semana encontrou uma cena curiosa: centenas de organismos marinhos espalhados pela faixa de areia chamaram a atenção de moradores e visitantes.
Apesar da aparência semelhante à de algas, tratam-se de animais coloniais conhecidos como briozoários, que vivem fixados no fundo do mar e acabam sendo levados até a praia pela força das ondas.
Segundo o professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Renato Nagata, o fenômeno já foi registrado em outras ocasiões, principalmente durante o inverno, mas desta vez ocorreu de forma mais localizada.
— Esses animais crescem no fundo do mar e nós temos visto que, principalmente no período do inverno, quando passa uma ondulação, uma frente fria ou até após a passagem de ciclones, eles acabam sendo depositados na praia. Pelas imagens que vimos desta vez, não foi um evento massivo. Parece que ficou concentrado na região dos molhes — explica.

De acordo com o pesquisador, a última ocorrência de grande proporção foi registrada em 2022, quando os organismos ficaram espalhados por praticamente toda a extensão da praia, desde os molhes até a região central do balneário.
— Pelos nossos registros, já fazia bastante tempo que eles não apareciam. A última vez em grande quantidade foi em 2022 — afirma.
Espécie ainda será identificada
Nagata explica que ainda não é possível confirmar qual espécie apareceu neste fim de semana. A identificação depende da análise dos organismos em laboratório.
— Tudo indica que seja a mesma espécie registrada em outras ocasiões, mas é preciso analisar o material no microscópio antes de confirmar. Nesta ocorrência nós não fizemos coleta, então ainda não posso afirmar com certeza qual é a espécie — diz.
Em 2022, pesquisadores da Furg identificaram os organismos encontrados no Cassino como Membraniporopsis tubigera, uma espécie exótica de briozoário originária da região do Golfo do México e registrada na costa brasileira desde os anos 2000.
Esses animais vivem aderidos ao fundo do mar, podendo formar grandes colônias sobre conchas, pedras e outras superfícies submersas. Quando ocorrem ressacas intensas, fortes ondulações ou tempestades, essas colônias podem se desprender do fundo e ser transportadas até a praia.
Fenômeno não oferece risco
Apesar do aspecto incomum, os pesquisadores ressaltam que os organismos não representam perigo para banhistas ou para quem circula pela praia.
Segundo Nagata, eles já chegam mortos à faixa de areia e tendem a permanecer no local por alguns dias, até serem removidos naturalmente pela ação das marés e das ondas.
O professor também afirma que, até o momento, não há evidências de que a espécie provoque desequilíbrios no ecossistema costeiro da região.
— Por enquanto, não existe nenhuma evidência de que essa espécie cause algum dano para outras espécies da região. É um animal suspensívoro, que se alimenta de pequenos organismos que ficam na coluna d'água, como microalgas e zooplâncton — explica.
Em outras partes do mundo, onde esses briozoários ocorrem em grandes quantidades, há registros de impactos sobre a atividade pesqueira, já que as colônias podem se prender às redes e dificultar a pesca. No entanto, segundo o pesquisador, esse tipo de situação ainda não foi observado no litoral do Rio Grande do Sul.
— Em outras regiões, esses encalhes chegam a atrapalhar os pescadores porque acabam entupindo as redes. Aqui, até hoje, eu não vi nenhum relato desse tipo envolvendo os pescadores da nossa região — afirma.
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