
Quem passa pela Avenida Duque de Caxias, no bairro Fragata, em Pelotas, encontra um cenário de abandono na antiga sede da empresa de transportes Turf. A grama alta e a ferrugem nas grades contrastam com o movimento intenso que, por décadas, marcou a garagem da companhia responsável por atender uma das regiões mais populosas da cidade.
Neste mês de julho, completam-se 10 anos desde que os ônibus da Turf deixaram de circular. As operações foram encerradas em 31 de julho de 2016, quando entrou em funcionamento o Consórcio do Transporte Coletivo de Pelotas (CTCP). A falência deixou 262 trabalhadores sem emprego e sem receber as verbas rescisórias. Desde então, o processo segue na Justiça sem que nenhum pagamento tenha sido realizado.
O tamanho do espólio e a estrutura da garagem
O principal patrimônio remanescente da empresa é a antiga garagem localizada na Avenida Duque de Caxias. O imóvel reúne escritórios, oficinas, galpões, refeitórios, vestiários, banheiros e demais estruturas que faziam parte da operação da companhia.
Uma avaliação realizada em agosto de 2024 estimou o valor do complexo em R$ 4,7 milhões. O montante, porém, é insuficiente para quitar os créditos trabalhistas, estimados pela administradora da massa falida em cerca de R$ 6,5 milhões.
De acordo com o leiloeiro oficial responsável pelo processo, Rui Pinto, a venda do imóvel aguarda definição da Justiça.
— O que foi feito anteriormente foi uma tentativa de alienação direta. Obtivemos uma proposta que não restou homologada. Após, foi determinada por despacho uma sequência de atos de execução para o imóvel. Mas, em seguida, não foi dado andamento devido à mudança do processo para o Juizado Regional Empresarial da Comarca de Pelotas — explica.
O presidente do Sindicato dos Rodoviários de Pelotas, Claudiomiro do Amaral, afirma que a categoria acompanha o processo desde o início e cobra maior agilidade na venda do imóvel.
— Até o momento, ninguém recebeu nada (...) O pior de tudo é que muitas pessoas já faleceram nesses 10 anos sem ver a cor do dinheiro, deixando a espera para as famílias — afirma.
O que diz a massa falida
A administradora da massa falida da Turf, Maria Helena Paradeda, explica que o leilão do imóvel chegou a ser marcado no fim do ano passado, mas foi suspenso após a transferência dos processos empresariais da 2ª Vara Cível para o Juizado Regional Empresarial da Comarca de Pelotas.
Segundo ela, já houve reunião com o juiz responsável pelo caso para acelerar a definição de uma nova data para a venda do prédio.
— No momento em que se vender o prédio, esse valor vai ser dividido entre os credores — afirma.
Maria Helena informa que a dívida trabalhista gira em torno de R$ 6,5 milhões, distribuída entre 268 credores. Como o imóvel foi avaliado em R$ 4,7 milhões e ainda existem despesas, como honorários advocatícios e a comissão da administração judicial, os ex-funcionários deverão receber os valores de forma proporcional, e não integralmente.
"Quem trabalhou lá chamava de mãe Turf"

Fundada em 1959, a Turf completaria 67 anos em 2026. No encerramento das atividades, a empresa operava com uma frota de 58 ônibus e concentrava o atendimento aos bairros da região do Fragata, com linhas tradicionais como Guabiroba e Passo do Salso.
Para quem trabalhou na empresa, a lembrança vai além da rotina profissional.
André Luis Corrêa passou 28 anos na Turf. Entrou aos 16 anos como ajudante de borracheiro e encerrou a trajetória como chefe-geral da oficina.
— Quem trabalhou mais de 20 anos lá não chamava de empresa, chamava de "mãe Turf". O trauma de se ver desempregado do dia para a noite, sem receber nada, foi muito grande — recorda.
Segundo ele, dos mais de 260 funcionários que trabalhavam na empresa quando ocorreu a falência, menos de uma centena conseguiu emprego rapidamente em outras empresas de transporte coletivo durante a implantação do atual consórcio que opera o sistema.
Corrêa também relembra a mobilização organizada pelos antigos colegas nos primeiros anos após o fechamento da empresa para ajudar trabalhadores que enfrentavam dificuldades financeiras.
— A gente arrecadou centenas de quilos de alimentos para ajudar colegas que estavam passando necessidade ou enfrentando problemas de saúde — recorda.
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