
No Dia Mundial da Bicicleta, celebrado nesta quarta-feira (3), os olhares sobre a mobilidade urbana de Pelotas se dividem entre os planos técnicos da prefeitura e a prática de quem depende do pedal para trabalhar, fazer compras e viver. Com uma malha cicloviária considerada expressiva para o porte do município — estimada em cerca de 75 quilômetros —, a cidade tem o desafio de garantir que a estrutura acompanhe a rotina de seus milhares de usuários.
Para a ciclista, Roselene Gonçalves Ávila, a bicicleta é sinônimo de autonomia e economia de tempo. Usuária diária do veículo de duas rodas, ela utiliza as faixas exclusivas para se deslocar de casa para o trabalho e encontrou no modal a saída para driblar os gargalos do transporte coletivo.
— O ônibus agora demora muito, às vezes meia hora. De bicicleta, além de ser mais rápido, eu já faço um exercício. Para tudo eu uso a bicicleta. Faço mercado, vou a tudo que é canto com ela. Como não sei dirigir [carro], a bicicleta é essencial na minha vida — conta Roselene.

O sentimento de necessidade e bem-estar é compartilhado por Ivanilda da Silva, que realizava suas pedaladas na Avenida Domingos de Almeida.
— Amo andar de bicicleta. É o único exercício que faço. Se eu paro, parece que sinto falta de alguma coisa. Na ciclovia é mais seguro, por isso acho que o que falta para o ciclista em Pelotas é ter mais ciclovias estruturadas — cobra Ivanilda, lembrando que a convivência com os carros ainda exige atenção redobrada.
O desafio da conectividade e da manutenção
A forte cultura cicloviária de Pelotas é impulsionada pela topografia plana da cidade, característica que atrai o perfil de operários, estudantes e trabalhadores logo no início da manhã. No entanto, quem está na rua, aponta que em alguns pontos, a qualidade do pavimento e as transições entre as vias ainda geram insegurança.

O próprio poder público reconhece os nós estruturais. O secretário de Urbanismo Otávio Peres pontua que o foco atual da gestão não está na expansão quantitativa da malha, mas em resolver gargalos crônicos de conectividade e manutenção.
As principais frentes que demandam atenção hoje na cidade são:
- Deformações no pavimento: Vias importantes e bem consolidadas, como a ciclovia da Avenida Domingos de Almeida, sofrem com rachaduras e ondulações provocadas pelas raízes das árvores do canteiro central.
- Sinalização defasada: Trechos que ligam polos estudantis e centrais, como as ruas Félix da Cunha e Gomes Carneiro (vias de acesso ao Campus Anglo da UFPel), sofrem com a perda de tachões e desgaste da pintura horizontal.
- Transições inseguras: Cruzamentos críticos onde as ciclovias terminam abruptamente — como o entroncamento da Avenida Fernando Osório com a Dom Joaquim — muitas vezes "jogam" o ciclista diretamente no fluxo pesado dos carros.
Para mitigar a escassez de recursos das secretarias de Obras e de Trânsito para a zeladoria viária, o Urbanismo tem utilizado contrapartidas financeiras de grandes empreendimentos privados instalados na cidade para custear insumos como tintas e sinalizadores.
Futuro projeta integração com ônibus e cooperação internacional
Para modernizar o sistema, a prefeitura trabalha internamente em duas diretrizes: a integração modal, permitindo que o morador pedale até eixos principais e deixe a bicicleta em um local seguro para seguir de ônibus, e a criação de rotas compartilhadas no Centro, reduzindo a velocidade dos carros, em vez de ciclofaixas estreitas, como por exemplo a rua Félix da Cunha.
Além disso, Pelotas busca respostas técnicas fora do país. O município foi convidado pela Embaixada do Brasil em Buenos Aires para integrar um projeto de cooperação internacional capitaneado pelo Itamaraty.
O estudo une o corpo técnico pelotense ao da cidade de Montes Claros (MG) e da região autônoma de Buenos Aires, na Argentina, para trocar experiências de planejamento cicloviário entre cidades de relevo plano.
— É uma iniciativa do ponto de vista do planejamento, não de construção efetiva. É para levar e receber as experiências de Pelotas com essas outras cidades — explica o secretário Otávio Peres.
Saúde e equidade social
Os relatos das ciclistas pelotenses ecoam os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial da Bicicleta. Segundo a entidade, o investimento em transporte ativo é uma das ferramentas mais eficazes para promover a equidade em saúde nas cidades médias.
Para as populações urbanas que dependem do deslocamento diário, a bicicleta funciona como um redutor de riscos de doenças crônicas e uma alternativa viável de mobilidade que desvincula o crescimento da cidade do aumento da poluição do ar.
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