
O som dos tambores, os cânticos ancestrais e as cores das matrizes africanas transformaram o Calçadão de Pelotas no começo tarde deste sábado (13). Centenas de fiéis, simpatizantes e lideranças religiosas participaram da 11ª Procissão ao Pai Bará do Mercado Central, ato que celebra a resistência, a fé e a história da cultura negra na Zona Sul do Estado.
O cortejo, que iniciou em 2015 a partir de um pequeno grupo de amigos, consolidou-se no calendário oficial do município como o Dia Municipal do Orixá Bará. A caminhada partiu por todo o Calçadão e seguiu em direção ao Mercado Público, local de profundo sincretismo e importância histórica para o batuque gaúcho.
O senhor do movimento e o progresso da cidade

Para os praticantes das religiões de matriz africana, a ligação do Bará com o Mercado Central vai muito além da tradição: o orixá é considerado o guardião do prédio.
— O Orixá Bará é o senhor dos cruzeiros, do movimento, do cosmos. Ele é o início. É o orixá mais ligado ao ser humano, quem faz a ligação com os deuses africanos. O mercado é movimento, e ele é o senhor dos mercados e das chaves. Quem seria o Bará hoje? Seria um grande chaveiro, aquele que abre todas as portas e nos ilumina — explica o babalorixá Juliano de Oxum, um dos organizadores do evento.
A força do assentamento do Bará na primeira entrada do Mercado — junto às peixarias — também é apontada como propulsora da revitalização econômica do espaço nos últimos anos. Carlos Alberto Pereira, coordenador do grupo Amigos da Umbanda da Princesa do Sul e há 57 anos na religião, recorda o papel do povo negro na construção do prédio histórico.
— A Princesa do Sul é resistência. Isso para nós é uma restauração da nossa religiosidade. O Pai Bará é a chave de união, da caridade e do desenvolvimento. Pedimos em nossas rezas que ele gere prosperidade e emprego na nossa região, para não perdermos nossos filhos para outros estados.
Combate ao racismo religioso e novos projetos turísticos

Além de um ato de fé, a procissão deste sábado foi marcada pela busca por visibilidade e pelo combate à intolerância.
— A nossa religião ainda é muito discriminada no Brasil. Antes, as coisas eram muito veladas, as pessoas se escondiam. Não temos que nos esconder, temos que mostrar à população o que somos e exigir respeito — desabafa a professora aposentada Sônia Maria Andrade Machado, pronta no candomblé há sete anos.
Para expandir o conhecimento sobre o patrimônio imaterial da cidade, o evento deste ano marcou o lançamento de um QR Code turístico junto ao adesivo demarcatório no Mercado Central. Desenvolvida em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, a ferramenta permite que moradores e visitantes acessem a história e o significado religioso do local.
Outro passo importante para a posteridade do culto foi anunciado durante o ato: o encaminhamento ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de um projeto para substituir o atual adesivo por um mosaico permanente instalado no piso do Mercado Central, nos moldes do que já existe no Mercado Público de Porto Alegre.
A programação cultural e de debates estende-se até a noite deste sábado, contando com rodas de conversa sobre racismo religioso, potencialização da Lei 10.639 (que prevê o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas) e o encerramento com o grande Terreirão do Samba no Centro Histórico.




