A previsão de um possível El Niño de forte intensidade no segundo semestre de 2026 já começou a alterar a rotina de produtores rurais do sul do Estado. Em áreas historicamente atingidas por enchentes, agricultores têm antecipado medidas para evitar repetir os prejuízos registrados durante as cheias de 2024.
Na Ilha dos Marinheiros, em Rio Grande, o produtor agrícola Flávio de Jesus Gonçalves Carvalho, 64 anos, decidiu transferir parte da produção para áreas mais altas da propriedade. Hortaliças como alface, cebola, rúcula, couve e brócolis já começaram a ser plantadas em terrenos mais secos, mesmo com aumento dos custos de irrigação.
— A gente já tem uma alternativa, que é plantar em um lugar mais alto para fugir da água no segundo semestre. Estou tendo mais despesa porque preciso regar, mas estou me prevendo para o futuro — afirma.
Memória que motiva prevenção
Flávio conhece de perto os efeitos de uma enchente. Em 2024, perdeu toda a produção após o avanço da água sobre a ilha.
— Tudo que eu tinha plantado alagou. Perdi tudo. Tinha uns 10, 15 mil pés de produto — relembra.
Segundo ele, em alguns pontos da comunidade a água chegou perto da cintura.
— Ao invés de passar carro, passava barquinho a motor. A gente acompanhava as notícias de Porto Alegre e Pelotas e sabia que aquela água ia chegar aqui — conta.
O produtor afirma que conseguiu atravessar aquele período graças a uma reserva financeira acumulada ao longo dos anos.
— Isso vem dos meus pais. Agricultor tem que ter sempre uma reserva. Foi ela que manteve a gente. Só que agora essa reserva não existe mais e por isso preciso me prevenir — relata.

Alerta climático acende sinal no campo
O cenário atual tem como base a Nota Técnica 3, divulgada pelo Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), vinculado à Furg. O documento aponta a possibilidade de o El Niño atingir categoria “muito forte” a partir do segundo semestre deste ano.
O fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas acima da média no Rio Grande do Sul, especialmente durante a primavera, o que eleva o risco de alagamentos, enchentes e outros eventos extremos.
Dados da Emater mostram a dimensão dos impactos causados pelas enchentes de 2024 na região Sul. Municípios como Rio Grande, Pelotas, São José do Norte, Arroio Grande, Capão do Leão, Turuçu e Santa Vitória do Palmar registraram prejuízos severos na agricultura. As perdas estimadas ultrapassaram R$ 1,9 bilhão em diferentes cadeias produtivas.
Segundo o chefe do escritório municipal da Emater em Rio Grande, Rogério Soares da Silveira, a principal orientação neste momento é tentar deslocar os cultivos para locais menos suscetíveis.
— A recomendação é tentar cultivar em áreas mais altas. Mas, se ocorrer uma enchente como a de 2024, naquela região não tem muito o que fazer. A água invade praticamente toda a ilha — afirma.
A Emater prepara para a próxima semana um material técnico com orientações detalhadas aos produtores sobre planejamento preventivo diante da previsão climática.

Entre a seca e o excesso de chuva
A mudança de área, porém, traz novos desafios. Em alguns pontos da propriedade de Flavio, o solo arenoso exige irrigação constante.
— Aqui é mais seco. Para fazer o canteiro, tive que regar antes porque a areia desmancha — explica.
O agricultor diz viver hoje uma rotina marcada pelos extremos climáticos: períodos de estiagem de um lado e risco de enchentes de outro.
Mesmo com o aumento dos custos, ele prefere investir agora do que correr o risco de perder novamente toda a safra.
— Tem coisa que não dá para esperar. A semente da cebola é cara. Se perder o ciclo, depois não adianta plantar de novo — justifica.
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