Há 30 anos, o Refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste, localizado na Lagoa dos Patos, em São José do Norte, recebe um trabalho contínuo de monitoramento de leões-marinhos-do-sul (Otaria flavescens) e lobos-marinhos-do-sul.
A atividade, realizada pelo Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Nema), por meio do projeto Pinípedes do Sul, acompanha a presença dos animais na região.
Os monitoramentos registram padrões migratórios, condições de saúde e comportamento, além de formar um banco de dados público utilizado em pesquisas acadêmicas e ações educativas.
O acompanhamento ocorre desde 1993 e, atualmente, é realizado duas vezes por mês. As equipes partem do canal de Rio Grande em direção ao Molhe Leste, utilizando embarcações de pescadores locais. As saídas ocorrem sempre no período da manhã, quando há maior concentração de animais no local.
— A equipe sai do canal de Rio Grande, com destino ao Molhe Leste. Os monitoramentos ocorrem quinzenalmente, duas vezes por mês, com três pesquisadores. Estamos estudando a possibilidade do monitoramento por meio de drone também — comenta Sérgio Estima, coordenador do projeto.
Durante as visitas, os técnicos registram o número total de animais avistados, sexo, classe etária, comportamento e atividades humanas na área. A observação é feita a olho nu, com auxílio de binóculos, câmeras fotográficas e drones.
Média diária de 49 animais nos últimos 10 anos

No Molhe Leste, predomina a presença de leões-marinhos-do-sul, enquanto os registros de lobos-marinhos-do-sul são ocasionais. Segundo a equipe técnica, o perfil mais comum dos animais avistados é de machos adultos, embora eventualmente também sejam observadas fêmeas.
Conforme o técnico Pedro Henrique Ulguim Amaral, existe variação ao longo do ano no número de indivíduos presentes no refúgio.
— A maior ocorrência se dá no outono, quando os animais estão se deslocando das colônias reprodutivas do Uruguai para o Brasil, em busca de alimento e descanso, e na primavera, quando preparam seu retorno para as colônias reprodutivas — comenta.
Entre dezembro e fevereiro, os animais permanecem nas colônias reprodutivas uruguaias, como Cabo Polônio e Isla de Lobos. A partir de março, iniciam a migração em direção ao litoral gaúcho, tendo o Molhe Leste como primeiro ponto de chegada.
Segundo a técnica integrante da equipe, Catarina Pinho, nos últimos dez anos a média diária de ocupação no refúgio foi de 49 leões-marinhos-do-sul. O maior registro ocorreu em 2019, quando 155 animais foram contabilizados em um único monitoramento.
Ela explica que, em sua maioria, os animais chegam saudáveis ao local. Em alguns casos, porém, são identificados indivíduos com marcas e ferimentos provocados por interação humana ou disputas naturais entre os próprios animais, especialmente no período reprodutivo.
Conforme o Nema, o leão-marinho-do-sul apresenta diferenças visíveis entre macho e fêmea. O macho adulto possui juba avermelhada, pode atingir 2,5 metros de comprimento e cerca de 300 quilos, alimentando-se principalmente de corvina, pescada e enchova. A fêmea é menor e tem coloração amarelada.
Outro habitante do refúgio é o lobo-marinho, espécie menor que o leão-marinho. Ele pode ser identificado pelo focinho pontudo e pelas orelhas bem visíveis. No Rio Grande do Sul, a ocorrência mais comum é de filhotes durante os meses de inverno.
Refúgio surgiu após casos de agressão aos animais

A criação do Refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste ocorreu em maio de 1996, por meio da Lei Municipal de São José do Norte. O espaço possui 1.030 metros de comprimento e 296 metros de largura, equivalente a cerca de dez campos de futebol enfileirados.
A iniciativa para transformar em Unidade de Conservação reuniu esforços do Nema, Marinha do Brasil e a prefeitura de São José do Norte, responsável por administrar o local.
Conforme Estima, a principal motivação foi a constatação de agressões aos leões-marinhos que ocupavam o Molhe Leste nos anos de 1986 e 1987.
— Provavelmente o número de animais ocupando o Molhe Leste não teria aumentado ao longo dos anos e eles não seriam o símbolo dos Molhes da Barra e do município do Rio Grande. Temos que comemorar os 30 anos do Refúgio de Vida Silvestre do Molhe Leste — ressalta.
Banco de dados abastece estudos e salas de aula
Todos os dados coletados em campo são registrados em planilhas específicas e posteriormente inseridos no banco de dados da instituição. O material acumulado ao longo de três décadas vem sendo utilizado como base para trabalhos acadêmicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado e atividades em salas de aula.
Além disso, o monitoramento também integra as exigências de operação do Porto do Rio Grande, concedida pelo Ibama. A partir da parceria entre a Portos RS e o Nema, relatórios são elaborados e encaminhados ao órgão federal para o monitoramento da vida marinha da região.
— Essa licença tem uma série de condicionantes que acompanham as correntes, sedimentos, qualidade da água, do ar, ruídos, por exemplo. Além dos fatores físicos e químicos, a biodiversidade também é monitorada, incluindo aves, camarões, botos, peixes. Os leões e lobos-marinhos são monitorados através dessa parceria com o Nema — explica Henrique Ilha, diretor de Meio Ambiente da Portos RS.
Segundo ele, o banco de dados também subsidia relatórios técnicos enviados ao Ibama e auxilia na avaliação da saúde desses animais diante dos usos da área e de eventos como enchentes e gripe aviária.
— O banco de dados vem servindo para gerar diversos trabalhos acadêmicos, mestrados e doutorados, além de uso nas salas de aula — complementa.
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