
O fenômeno El Niño deve se consolidar ao longo do segundo semestre de 2026, com impacto direto no aumento da chuva no sul do Rio Grande do Sul, segundo análise divulgada pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg), por meio do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex).
De acordo com a nota técnica, a transição após o fim do La Niña já está em curso e ocorre de forma acelerada. A probabilidade de o El Niño estar ativo entre agosto e outubro chega a cerca de 90%, podendo alcançar 93% no último trimestre do ano.
Para o sul do Estado, esse período coincide com aumento expressivo da chuva, com episódios mais volumosos e persistentes, além de maior risco de cheias de rios, alagamentos e impactos diretos em áreas urbanas e rurais da região.
A análise do Ciex também indica as chances de formação de um evento de categoria forte no último trimestre do ano são superiores a 50%.
Segundo o meteorologista Ricardo Gotuzzo, do Ciex e do Instituto de Oceanografia da Furg, o fenômeno está diretamente ligado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico e às mudanças na circulação atmosférica global.
— Para entender o El Niño precisamos olhar para o Oceano Pacífico, que funciona como um regulador térmico do planeta. O fenômeno ocorre quando as águas ficam mais quentes do que a média por um período prolongado — explica.
Esse aquecimento, segundo ele, não afeta apenas o oceano, mas altera também o comportamento da atmosfera e o deslocamento da umidade.
— Não é apenas o oceano que aquece; a atmosfera reage. No Rio Grande do Sul, isso muda o caminho da chuva. A umidade que normalmente ficaria na Amazônia é transportada para o Sul, servindo de combustível para sistemas de precipitação mais frequentes e volumosos — detalha.
Outro fator que contribui para esse cenário é o transporte intensificado de umidade da Amazônia para o sul do Estado, favorecendo longos períodos de instabilidade e acumulados elevados de chuva.
Formação segue dentro do esperado
Apesar do avanço rápido da transição, Gotuzzo alerta que não há indicativos de antecipação do fenômeno em relação ao calendário climático previsto.
— Não há evidências de que o El Niño começará antes. A maior probabilidade de consolidação segue sendo na primavera, com aumento significativo das chances entre agosto e outubro — afirma.
Ele ressalta ainda que a intensidade do fenômeno segue em análise e depende de fatores que ainda serão observados nos próximos meses.
Risco hidrológico e necessidade de prevenção
Segundo o Ciex, o principal impacto esperado para cidades do sul do Estado é o aumento da vulnerabilidade hidrológica, com maior probabilidade de chuvas intensas e persistentes, capazes de saturar o solo e provocar inundações.
Diante do cenário, a recomendação é que órgãos públicos, Defesa Civil e setores produtivos da região — como Rio Grande, Pelotas, São Lourenço do Sul e São José do Norte — adotem medidas antecipadas de planejamento e prevenção.
Para Gotuzzo, mais do que preocupação, o momento exige organização.
— Preferimos falar em planejamento. O El Niño não é, por si só, um desastre, mas um sinal de mudança no padrão climático — destaca.
No nível individual, ele orienta que medidas simples podem reduzir impactos.
— A manutenção básica, como limpeza de calhas, telhados e sistemas de drenagem, é fundamental. Também é importante acompanhar informações de órgãos oficiais e seguir as orientações da Defesa Civil. O nível atual de probabilidade já é suficiente para orientar ações de contingência e reduzir riscos — conclui.
Fique informado sobre o que acontece na região sul do Estado! Siga @gzhzonasul no Instagram e no Facebook, e inscreva-se no canal do WhatsApp para receber notícias em seu celular: gzh.rs/canalgzhzs.




