A Estação de Apoio Antártico em Rio Grande (Esantar-RG), instalada há mais de quatro décadas no campus da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), foi retirada da instituição após o encerramento do convênio com a Marinha do Brasil. Apesar da mudança, operações continuam em Rio Grande.
A base funcionava na universidade desde 2 de dezembro de 1983, a partir de um acordo firmado entre a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm) e a Furg. À época, Rio Grande foi escolhida pela vocação marítima da universidade e por sediar o último porto brasileiro na rota para o Sul, antes do continente antártico.
A estrutura era responsável pela guarda, controle, manutenção e distribuição de materiais enviados às missões na Antártica. Entre os itens armazenados estavam vestimentas especiais, equipamentos de alpinismo e acampamento, veículos de neve, além de alimentos, medicamentos e outros insumos usados por pesquisadores e equipes técnicas.
Além da logística, pesquisadores da Furg também prestavam, anualmente, apoio técnico e operacional às expedições, a partir de Rio Grande. O suporte atendia não apenas equipes da universidade, mas também pesquisadores de outras instituições do Estado, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Convênio expirou em 2025
Em 2020, a parceria entre a Furg e a Marinha havia sido renovada por mais três anos. O convênio previa repasses de até R$ 6,29 milhões para a manutenção das atividades logísticas do Programa Antártico Brasileiro.
No entanto, o acordo não teve novo aditamento e foi encerrado em outubro de 2025, conforme o prazo contratual. Em nota, a Furg informou que o convênio foi concluído “de forma integral” e destacou que os recursos eram destinados exclusivamente ao apoio antártico, sem repasse direto ao orçamento da universidade.
Em nota, a Marinha afirmou que a sede da Esantar-RG foi será transferida para a Estação Naval de Rio Grande por razões logísticas. A nova estrutura fica a 500 metros do Porto de Rio Grande, o que facilita o apoio aos navios que participam das Operações Antárticas.
Segundo a Marinha, a sede tem mais capacidade de armazenamento e todas as ações do programa continuam em Rio Grande, incluindo a participação de pesquisas da Furg. Confira a nota da Marinha abaixo.
Contexto institucional
Em nota, a Furg menciona ainda que, em 2024, a criação de uma Comissão Interna da Verdade para revisar homenagens concedidas a nomes citados no relatório nacional da Comissão da Verdade gerou desgastes institucionais e junto à Marinha.
A referência diz respeito à cassação dos títulos de Doutor Honoris Causa concedidos pela universidade, durante o período da ditadura, aos militares Emiliano Garrastazu Médici, Maximiano da Fonseca e Golbery do Couto e Silva. Os títulos haviam sido outorgados nas décadas de 1970 e 1980 e a retirada foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consun).
À época, a Marinha enviou uma carta oficial à Furg, classificando a decisão como injusta.
A retirada da estação da universidade encerra um ciclo de mais de 40 anos de participação direta de Rio Grande na logística do Programa Antártico Brasileiro, com impacto na presença científica e operacional do Estado no continente gelado.
Confira a nota da Furg na íntegra:
"O convênio entre a FURG, Fundação de Apoio à Universidade Federal do Rio Grande (FAURG) e Marinha do Brasil – Secirm, que tratava do centro logístico de Apoio às Operações no Continente Antártico, assinado em 2020, encerrou seu prazo de vigência em outubro de 2025 conforme previsto em contrato. A participação de ambas as partes foi cumprida de forma integral, no que se refere ao pactuado no acordo de cooperação mútua.
É preciso ressaltar que o projeto não trazia recursos para financiamento das atividades da Universidade, ao longo dos cinco anos de vigência do último convênio, a Marinha do Brasil aportou cerca de R$ 11,8 milhões para a logística do apoio antártico, ou seja, o montante, administrado pela FURG e pela FAURG, foi utilizado, em conjunto com a Secirm, para compra e manutenção de equipamentos, contratação de pessoal, aquisição de material de consumo e gêneros alimentícios, por exemplo. Na prática, o valor nunca foi investido na Universidade, mas sim no funcionamento do projeto.
Vale destacar, que o convênio não contemplava o pagamento de bolsas para estudantes ou pesquisadores. Portanto, com o encerramento das atividades, não há o prejuízo de nenhuma pesquisa em andamento e tampouco perda de investimentos.
Em nível municipal, é importante registrar que Rio Grande permanece um ponto estratégico de operações da Marinha do Brasil, e continua sediando a Esantar-RG, que agora passa a operar junto à Estação Naval de Rio Grande.
No mais, FURG e Marinha do Brasil mantêm uma excelente e longínqua relação institucional, com o desenvolvimento de uma série de outros projetos, e, dessa forma, todos os pesquisadores que já atuavam junto à Marinha seguem desenvolvendo seus estudos e pesquisas normalmente, inclusive no apoio antártico.
A FURG e a Marinha do Brasil se respeitam e seguem trabalhando conjuntamente pelo desenvolvimento do nosso território."
Nota da Marinha:
"Prezado jornalista,
Em atenção ao seu questionamento, a Marinha do Brasil esclarece que a mudança da sede da ESANTAR−RG para a Estação Naval de Rio Grande
(ENRG) se deu por razões de cunho logístico, o que representou um grande avanço, uma vez que a nova estrutura está localizada a 500 metros do Porto de Rio Grande, facilitando o apoio aos Navios que participam das Operações Antárticas (OPERANTAR). A nova estrutura também permitiu uma ampliação na capacidade de armazenamento, com uma área de cerca de 1.600 m2, concentrando em um único espaço todos os equipamentos de acampamento, vestimentas antárticas e as viaturas que prestam apoio ao Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). Todas as ações do Programa que eram desenvolvidas pela FAUR permanecem na cidade de Rio Grande.
A Universidade Federal do Rio Grande (FURG) participa normalmente do PROANTAR com os seguintes projetos:
⁃ BALEIAS – o projeto estuda a diversidade, ecologia espacial e uso do habitat por cetáceos no oceano austral no contexto das mudanças climáticas - Prof. Luciano Dalla Rosa;
⁃ IMPACTANT - o projeto estuda o impacto das mudanças climáticas na biodiversidade e resiliência dos ecossistemas marinhos na região da Península Antártica – Prof Eduardo Secchi; e
⁃ PROSAMBA - o projeto estuda os processos oceanográficos em hotspots climáticos do oceano austral - Prof. Rodrigo Kerr."
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