
A participação do transporte ferroviário na movimentação do Porto de Rio Grande sofreu uma queda de cerca de 66,7% nos últimos dois anos, passando de 6% em 2023 para apenas 2% em 2024.
Atualmente, o único trecho ferroviário em operação no Estado é a linha que liga Rio Grande a Cruz Alta, no noroeste gaúcho. Com 921 quilômetros de extensão, essa rota é fundamental para o escoamento de grãos, como milho, soja e trigo, até o porto.
No entanto, a precariedade da infraestrutura limita a operação. Devido a má conservação dos trilhos, os trens circulam a uma velocidade média de apenas 21 km/h, o que reduz a eficiência do sistema.
Segundo o presidente da Portos RS, Cristiano Klinger, a queda recente é coerente com uma perda mais ampla da relevância ferroviária no Estado. Entre 2006 e 2023, o transporte ferroviário total no Rio Grande do Sul recuou 51%.
— Sem metas de desempenho, tarifas compatíveis e obrigações de manutenção, o risco de novas perdas de mercado é alto — afirma.
Assembleia debate situação em Rio Grande

Na sexta-feira (20), a Comissão de Ferrovias da Assembleia Legislativa realizou uma audiência pública em Rio Grande para debater a situação dos estudos para os novos modelos da Malha Sul.
Na ocasião, estiveram presentes representantes da Portos RS, do governo federal e de empresas que integram o Distrito Industrial de Rio Grande, como Bianchini, Bunge e Termasa/Tergrasa.
No debate, o coordenador-geral de Outorgas do Ministério dos Transportes, Álvaro Neto, afirmou que a Rumo, concessionária responsável pelas ferrovias da Malha Sul, demonstrou interesse na prorrogação do contrato mas não apresentou uma proposta mais vantajosa.
— O Ministério analisou os estudos, criou grupo de trabalho e, diante dos resultados, segue com a modelagem para um novo leilão, que deverá ser submetido à audiência pública nos próximos meses — afirmou.
Redução do tráfego ferroviário aumenta demanda de transporte por caminhões
Nos últimos dez anos, o volume de grãos embarcados pelo Porto de Rio Grande aumentou 35%. Porém, enquanto a demanda cresce, o transporte por trilhos diminui.
Este cenário intensifica a dependência dos caminhões. Com mais cargas concentradas nas rodovias, aumenta o desgaste das pistas, o risco de congestionamentos e a ocorrência de acidentes, um cenário que pode se agravar com o fim da concessão da Ecovias Sul no Polo Rodoviário de Pelotas, responsável por administrar a BR-116 e a BR-392 em trechos fundamentais para o acesso ao porto.
— A diminuição da oferta de vagões transfere volume para o modal rodoviário, potencializando pressão sobre a infraestrutura viária e exigindo maior capacidade de recepção por caminhões. Em geral, isso apresenta custos unitários mais elevados, contribuindo para aumento dos custos logísticos das cargas — comenta Dawson Jr, vice-presidente dos Terminais Termasa/Tergrasa e especialista em logística.
Diariamente, cerca de 12.020 caminhões trafegam no sentido Pelotas - Rio Grande, conforme dados da concessionária. Embora o fluxo seja considerado alto, ele ainda é menor do que no ano de 2024, quando a média diária era de 12.164, representando uma queda de 1%.
— A menor oferta de produtos agrícolas atenuou a pressão sobre o sistema rodoviário, mascarando parcialmente os impactos estruturais decorrentes dos demais modais. No entanto, o Estado necessita de um modal ferroviário eficiente, com malha ferroviária robusta e com oferta adequada de ativos de tração e vagões — disse.
Defesa por modelo de concessão mais eficiente
Desde 1997, a malha ferroviária é operada pela empresa Rumo Logística, cujo contrato com o governo federal é válido até 2027. Recentemente, a companhia anunciou a intenção de renovar o contrato, enquanto oito leilões de ferrovias foram anunciados pelo governo.
Para a autoridade portuária, o quadro evidencia a urgência de investimentos na modernização da malha ferroviária. A ampliação da capacidade dos trilhos é vista como caminho essencial para reduzir custos e garantir mais competitividade ao Porto de Rio Grande nos próximos anos.
— Produtos agrícolas representam mais de 40% da economia exportadora do RS e são adequados ao modal ferroviário. A modernização ferroviária é central para alinhar o Porto do Rio Grande a cadeias globais de baixo carbono — ressalta Klinger.
De acordo com o estudo técnico elaborado para a Portos RS, o modelo de concessão mais eficiente para garantir a competitividade do Porto de Rio Grande é o de concessão integrada com metas de performance.
Isso significa que uma única empresa deveria assumir a construção, operação e manutenção da ferrovia.
— Se as metas são alcançadas, há bonificação; se não, há penalidades. O objetivo é garantir eficiência, serviço contínuo e expansão da malha ferroviária com menor custo público — explica.
O formato exigiria investimentos obrigatórios nos trechos subutilizados ou suspensos, que somam hoje 982 quilômetros no Estado, e criaria maior previsibilidade operacional para os fluxos ferroviários. Além disso, reduziria o risco de novas interrupções em ramais estratégicos, responsáveis por limitar o acesso ferroviário à área portuária nos últimos anos.
O diagnóstico também identifica os trechos que devem ser priorizados em um eventual novo contrato de concessão. Entre eles estão o corredor Cruz Alta – Santa Maria – Cacequi – Rio Grande, considerado o eixo estruturante do escoamento ao porto, e o trecho Passo Fundo – Cruz Alta, que atende a principal região produtora de grãos do estado.
Além disso, também aparecem como essenciais as ligações Santo Ângelo – Cruz Alta e Ijuí – Júlio de Castilhos, áreas de forte geração de granéis sólidos agrícolas, além do trecho Livramento – Cacequi, considerado um trecho fundamental para a logística com o Mercosul.
Segundo o estudo, esses segmentos reúnem os maiores potenciais de carga e representam os maiores volumes perdidos desde 2013, o que reforça a necessidade de investimentos imediatos e direcionados para recuperar a eficiência ferroviária no atendimento ao porto.
O que diz a empresa responsável pela malha ferroviária?
Em nota, a Rumo Logística afirma que, como operadora ferroviária de cargas, avalia estrategicamente os projetos da carteira de concessões apresentada pelo governo federal, sempre com base na viabilidade técnica, regulatória e econômica. Confira a nota na íntegra:
"A empresa informa que, como operadora ferroviária de cargas, por ofício avalia estrategicamente os projetos da carteira de concessões apresentada pelo Governo Federal, sempre com base na viabilidade técnica, regulatória e econômica.
O futuro da concessão da Malha Sul é discutido no Grupo de Trabalho liderado pelo Ministério dos Transportes, que como Poder Concedente, é responsável por definir, junto aos demais atores envolvidos, alternativas de racionalização e otimização da malha após os severos danos provocados pelas enchentes de 2024.
Vale destacar ainda, em consequência das mudanças na dinâmica econômica e nas fronteiras agrícolas ao longo das décadas, alguns trechos já estavam inoperantes ou apresentavam operação deficitária desde a gestão estatal pela RFFSA, com prejuízo diário ao erário. A empresa ressalta que permanece em diálogo com o Governo Federal."
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