O município de Rio Grande, o mais antigo do Rio Grande do Sul, completa 289 anos nesta quinta-feira (19). Fundado em 19 de fevereiro de 1737 pelo brigadeiro José da Silva Paes, nasceu de uma decisão estratégica do Império Português em meio às disputas territoriais com a Espanha.
Ao longo de quase três séculos, Rio Grande construiu sua identidade a partir do mar, do porto e de sucessivos ciclos econômicos que impulsionaram períodos de crescimento, mas também deixaram marcas profundas na organização urbana e social do município.
Localizada na margem sul do estuário da Lagoa dos Patos, o único acesso marítimo do Rio Grande do Sul ao Oceano Atlântico, Rio Grande ocupa uma posição singular no território brasileiro. Essa condição geográfica foi decisiva para que a região se tornasse ponto-chave na consolidação da presença portuguesa no extremo sul do continente.
— O contexto que vai levar à criação da cidade é justamente o das disputas em território colonial, das disputas entre impérios, especialmente entre o Império Português e o Império Espanhol, que buscavam consolidar seu domínio nessa região estratégica do sul da América — explica Ticiano Duarte Pedroso, historiador e professor.
Conforme ele, no século 18, o sul da América Portuguesa era um espaço de fronteiras instáveis. Embora o Tratado de Tordesilhas tivesse sido assinado ainda no século 15, ele já não refletia a realidade da ocupação territorial. Na prática, portugueses e espanhóis avançavam sobre áreas estratégicas, buscando garantir controle político, militar e econômico.
— Esse tratado não era cumprido. Algumas regiões eram ocupadas tanto por Portugal quanto pela Espanha. Portugal mantinha a Colônia do Sacramento, no atual Uruguai, e precisava assegurar sua presença no sul do continente para sustentar essa ocupação — contextualiza.
Fundada em 1680 na margem do estuário do Prata, a Colônia do Sacramento era um ponto avançado da presença portuguesa em território reivindicado pela Espanha. Para sustentá-la, Portugal precisava de uma estrutura logística e militar ao longo da costa sul brasileira.
— Portugal precisava de um porto intermediário entre Laguna e a Colônia do Sacramento. É dentro dessa lógica estratégica que surge a cidade de Rio Grande — afirma o pesquisador.
Fundação militar
Em 19 de fevereiro de 1737, o brigadeiro José da Silva Paes chegou à região liderando uma expedição militar formada por homens de mar e de guerra. A missão era assegurar a posse portuguesa das terras do Sul, frequentemente ameaçadas por investidas espanholas.
No local considerado mais adequado para operações portuárias, foi instalado um presídio militar, classificado como Estabelecimento Militar, batizado de Jesus, Maria e José. Pouco depois, foi construído um forte para proteger a retaguarda do presídio, entre as águas do Canal do Rio Grande e do Saco da Mangueira.
— Primeiro se consolida um presídio, depois um forte. Os primeiros habitantes da cidade vão ser justamente militares e funcionários do governo, responsáveis pela ocupação e defesa do território — comenta Ticiano.
Com as instalações, teve início o processo oficial de colonização da região, reforçado pela criação da Freguesia de São Pedro, em 1736, que abrangia todo o território do Continente de São Pedro.
Navegação difícil e vocação marítima
Apesar da posição estratégica, a navegação até o porto de Rio Grande era extremamente complexa no período colonial. A barra apresentava fortes correntes, bancos de areia móveis e ilhas que tornavam o acesso perigoso, resultando em inúmeros naufrágios.
— A barra da cidade era muito difícil de entrar. Não existiam os molhes, havia ilhas no meio do caminho e o processo de navegação era bastante complexo e arriscado — relata o historiador.
O porto da época localizava-se no centro da cidade, exigindo que as embarcações percorressem um longo trajeto interno até atracar.
— O navio entrava pela barra, fazia todo o percurso interno, passava pela região do Porto Novo, contornava o Regatas e só então chegava ao porto. Era um processo lento e perigoso — explica.
Nesse contexto, surgiram os práticos, profissionais especializados em conduzir embarcações com segurança até o interior do estuário.
— Esses práticos eram fundamentais. Eram eles que conheciam os caminhos e conseguiam conduzir os navios até dentro da cidade — acrescenta Ticiano.
Povos originários e ocupação anterior
Antes da chegada dos colonizadores europeus, a região já era habitada por povos indígenas que mantinham uma relação direta com os cursos d’água e com os recursos naturais. Vestígios dessa ocupação ainda podem ser encontrados em sítios arqueológicos espalhados pelo município, inclusive em áreas urbanizadas.
— A região do Saco da Mangueira era habitada por tribos indígenas que costumavam viver próximas aos cursos de água. Existem vestígios arqueológicos na praia e em outras áreas da cidade. O nome Arroio Vieira, por exemplo, remete à tradição de uma tribo indígena que vivia nessa região — afirma o historiador.
De freguesia à cidade
A ocupação civil se intensificou a partir da década de 1750, com a chegada de colonos açorianos e madeirenses. Em 1751, o local foi elevado à condição de Vila do Rio Grande de São Pedro e, em 1760, tornou-se capital da Capitania do Rio Grande de São Pedro.
Os conflitos com a Espanha, no entanto, persistiram. Ainda em 1751, a vila foi tomada pelos espanhóis, permanecendo sob domínio estrangeiro por 13 anos, até ser reconquistada em 1776 pelo sargento-mor Rafael Pinto Bandeira.
Somente em 1835, a vila foi elevada à condição de cidade. No mesmo ano, com a eclosão da Revolução Farroupilha, Rio Grande voltou a desempenhar papel estratégico ao sediar temporariamente a capital da Província.
O ciclo da industrialização
Desde os primórdios, o porto marítimo foi o principal eixo estruturante da economia local. Foi em torno do antigo Porto Velho que se consolidou uma elite comercial e industrial responsável por grande parte da renda regional no século 19.
— O porto sempre foi o grande vetor econômico da cidade. Não há como compreender Rio Grande sem olhar para o porto — destaca o historiador.
A partir da segunda metade do século 19, Rio Grande passou a viver um novo e decisivo ciclo de desenvolvimento: o da industrialização.
Esse processo ocorreu de forma gradual e articulada às transformações econômicas e tecnológicas que atingiam o Brasil e o mundo, a partir de 1870, período associado à chamada Segunda Revolução Industrial.
— A industrialização de Rio Grande é resultado de um processo gradual, que vai se desenhando a partir da segunda metade do século 19, em diálogo com transformações muito mais amplas do capitalismo e da modernização tecnológica — explica a historiadora Olivia Nery, professora da UFRGS e coordenadora do Projeto Caminho Fabril: patrimônio industrial da cidade do Rio Grande.
Embora o Brasil ainda fosse predominantemente agrário naquele período, o município rio-grandino reunia condições específicas que favoreciam a instalação de indústrias, sobretudo, devido ao porto.
— Rio Grande já vinha crescendo por causa do comércio, especialmente do charque produzido em Pelotas, e pela intensa circulação de mercadorias e pessoas pelo porto. Isso permitiu o acúmulo de capital por grupos locais e criou um ambiente favorável ao investimento industrial — destaca.
O marco inicial da industrialização rio-grandina ocorreu em 1873, com a instalação da Fábrica de Panos e Tecidos Rheingantz, considerada a primeira grande indústria do município e do Estado.
A escolha pelo setor têxtil segue uma lógica histórica, já que essas indústrias estiveram na base dos processos de industrialização desde a primeira Revolução Industrial.
— Para que alguém investisse em uma indústria, era necessário ter fatores minimamente estáveis e confiáveis. Isso envolvia transporte. Sem o porto e sem a ferrovia, seria praticamente impossível desenvolver uma indústria em Rio Grande naquele momento — ressalta a historiadora.
Nas primeiras décadas, o parque fabril se expandiu rapidamente. Além da Rheingantz, instalaram-se indústrias como a Companhia Ítalo-Brasileira, Leal Santos, fábricas de charutos, cervejarias, fábricas de fósforo, calçados, móveis e grandes frigoríficos, como o Swift e o Anselmi.
— Em 1922, há registros de mais de 30 fábricas em funcionamento em Rio Grande. No auge desse primeiro ciclo, a cidade chegou a ter mais de 50 fábricas ativas, de diferentes tamanhos e setores — afirma Olivia.
Esse crescimento provocou profundas transformações urbanas. Bairros operários, vilas de trabalhadores, linhas de bonde, sindicatos, armazéns e serviços passaram a se organizar em função das fábricas.
— As fábricas passam a guiar a cidade. Os horários, os deslocamentos, as linhas de bonde e até a localização dos bairros operários estavam diretamente vinculados a elas — destaca.
A população acompanhou esse crescimento. Em 1890, Rio Grande tinha cerca de 24.600 habitantes. Em 1920, esse número já ultrapassava 53.600.
A partir da década de 1930, esse primeiro ciclo começou a entrar em declínio, influenciado por fatores como a crise de 1929, a concentração da industrialização no Sudeste, a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, a substituição da malha ferroviária pelo transporte rodoviário.
— O que antes era barato e eficiente, transportar pelo porto e pela ferrovia passa a se tornar caro com a predominância das rodovias. Isso isola Rio Grande e compromete sua competitividade — analisa Olivia.
Nas décadas seguintes, muitas fábricas fecharam ou reduziram atividades. Ainda assim, a cidade viveu novos ciclos industriais, como o da indústria pesqueira entre os anos 1960 e 1980, o distrito industrial com fábricas de fertilizantes e, mais recentemente, o polo naval a partir dos anos 2000.
— A gente pode pensar a industrialização de Rio Grande em três grandes ciclos. Todos eles com características muito diferentes, mas igualmente fundamentais para entender a cidade, sua paisagem, sua economia e a vida de milhares de trabalhadores e trabalhadoras — conclui.
É essa memória que o projeto Caminho Fabril, coordenado pela historiadora, busca preservar, ao mapear mais de 160 pontos do passado industrial e operário da cidade, valorizando o patrimônio industrial como elemento central da identidade rio-grandina.
Biblioteca Rio‑Grandense

Localizada no Centro Histórico de Rio Grande e fundada em 1846, 11 anos depois de Rio Grande ser considerada cidade, a instituição preserva um acervo de cerca de 500 mil livros, documentos e obras raras.
Mantida até os dias atuais por sócios, reúne a história da cidade por meio de jornais antigos que eram publicados na época.
Segundo o diretor de acervo, Ronaldo Gerundo, uma curiosidade é que no século passado o aniversário da cidade não era celebrado pelo noticiário local no dia 19 de fevereiro. A primeira comemoração só ocorreu nos 200 anos do município.
— Há 100 anos, era um dia normal e nada era comemorado. Passou-se a comemorar nos 200 anos. Parece mentira, mas levaram 200 anos para se dar conta que era tínhamos um dia de aniversário. Assim, nos 200 anos, o foi feita uma edição especial no Echo do Sul — comenta.
Primeira Câmara de Vereadores
Logo após a elevação de Rio Grande à condição de vila em 1751, foi instalada ali, em 13 de dezembro daquele ano, a primeira Câmara de Vereadores do Rio Grande do Sul.
O local funcionou como o principal órgão governante local, pois na época ainda não existiam prefeituras. Apesar da interrupção causada pela invasão espanhola que transferiu o legislativo para outras cidades entre 1763 e 1776, esse feito simboliza o pioneirismo político da cidade no contexto colonial e imperial.
Câmara de Comércio mais antiga do RS
Outro marco histórico está na esfera econômica: Câmara de Comércio da Cidade do Rio Grande, fundada em 26 de setembro de 1844, é a mais antiga entidade representativa do setor empresarial no Estado.
O local desempenhou papel fundamental na articulação dos interesses comerciais e na promoção do desenvolvimento da cidade e da região, reunindo comerciantes e agentes econômicos em um espaço de diálogo, organização e influência, contribuindo para a modernização e projeção da economia portuária.

Ao longo de seus 289 anos, a cidade foi sendo moldada por decisões políticas, disputas territoriais, relações de trabalho e pela permanente relação com o mar.
Esta primeira reportagem inaugura uma série especial que se propõe a revisitar as histórias que ajudam a compreender a identidade rio-grandina e moldaram a cidade com o passar do tempo.
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