
Nem sempre o conhecimento sobre o comportamento das águas ou as técnicas da pesca artesanal está registrado em livros. Em muitos casos, ele é transmitido pela observação cotidiana e pelo repasse entre gerações. Com o objetivo de valorizar esse patrimônio cultural, a Universidade Federal do Rio Grande (Furg) encerra nesta sexta-feira (26) um projeto piloto voltado à reconexão de jovens com a cultura pesqueira em Pelotas.
A iniciativa foi desenvolvida pelo Laboratório MARéSS/Furg e atuou, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, em três frentes principais: formação de jovens, regularização sanitária de agroindústrias familiares e criação de um inventário participativo da cultura da pesca artesanal nas comunidades da Colônia Z3 e do Pontal da Barra.
O despertar de uma nova geração
Segundo o coordenador técnico do projeto, Ederson Silva, oriundo da Colônia Z3, o principal resultado foi o processo de autorreconhecimento dos participantes. Cerca de 20 estudantes do Ensino Médio, filhos de pescadores, participaram de encontros quinzenais que abordaram temas como identidade territorial, mudanças climáticas e valorização do pescado.
— Muitos jovens viam o pai pescar ou o avô remando, mas não davam valor porque aquilo fazia parte do cotidiano. No processo, passaram a se reconhecer como pescadores e a valorizar esse modo de vida — afirma.
O projeto também ampliou horizontes fora da região. Três participantes integraram uma comitiva em Brasília, onde trocaram experiências com comunidades pesqueiras de diferentes regiões do país.

Protagonismo feminino e valorização do pós-captura
Outro eixo da iniciativa buscou dar visibilidade a uma etapa frequentemente invisibilizada da cadeia produtiva: o beneficiamento do pescado, realizado majoritariamente por mulheres.
Utilizando metodologia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), foi elaborado um inventário dos saberes tradicionais das pescadoras, responsáveis pela limpeza e preparação de peixe, camarão e siri.
Além do resgate cultural, o projeto avançou em soluções econômicas. Em parceria com a prefeitura de Pelotas, foi articulada a regularização sanitária de uma agroindústria familiar, permitindo que o pescado artesanal possa ser comercializado formalmente, inclusive para a alimentação escolar da rede municipal.
— A alimentação escolar é a força motriz. Regularizando, o pescador consegue entrar no mercado formal — explica Silva.
Continuidade com o Projeto Rebojo
Mesmo com o encerramento do ciclo atual, a iniciativa terá continuidade por meio de novas emendas parlamentares. A próxima etapa recebeu o nome de Projeto Rebojo, referência aos ventos que alteram a dinâmica das águas da Lagoa dos Patos.
A proposta prevê a realização de um encontro regional de jovens, voltado ao debate sobre o futuro da pesca artesanal diante de conflitos ambientais e dos impactos da crise climática.
— É uma semente plantada. O jovem não precisa necessariamente ser pescador de rede; ele pode se formar e contribuir defendendo o território e a cultura de onde veio — conclui o coordenador.
Fique informado sobre o que acontece na região sul do Estado! Siga @gzhzonasul no Instagram e no Facebook, e inscreva-se no canal do WhatsApp para receber notícias em seu celular: gzh.rs/canalgzhzs.




