Por Marcelo Dutra da Silva, ecólogo, doutor em Ciências e professor da Furg
As relações econômicas estão mudando, e os ventos que sopram em nossa direção trazem transformações sociais profundas relacionadas ao uso racional dos recursos e às responsabilidades compartilhadas em relação ao futuro — ao que vamos construir daqui para frente e deixar para as próximas gerações. São mudanças carregadas de significado, sintetizadas em uma pequena sigla que vem revolucionando o ambiente de negócios.
O ESG, do inglês Environmental, Social and Corporate Governance, remete às boas práticas de responsabilidade socioambiental e às metas de sustentabilidade que empresas — e também organizações públicas — adotam para reduzir riscos. O conceito surgiu como uma proposta de fortalecimento do ambiente de negócios em 2004, na publicação do Pacto Global da ONU, em parceria com o Banco Mundial, intitulada Who Cares Wins (Quem se importa vence, em tradução livre). Na ocasião, o então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, lançou um desafio a 50 CEOs de grandes instituições financeiras: integrar fatores sociais, ambientais e de governança ao mercado de capitais até 2030.
O termo não ganhou força imediatamente e levou anos para entrar na agenda corporativa e ser reconhecido como estratégia de perenidade e proteção dos investimentos por grandes corporações. Com o tempo, tornou-se uma marca global do mercado responsável, deixando de ser um tema exclusivo das grandes empresas e passando a ganhar relevância também entre organizações de menor porte. Isso ocorre porque a estratégia das boas práticas ESG só faz sentido quando se propaga ao longo de toda a cadeia de valor, formada por empresas de diferentes tamanhos, que precisam se alinhar aos mesmos princípios.
A estratégia de boas práticas ESG está baseada no tripé da sustentabilidade, no qual são considerados componentes essenciais da prosperidade: o sucesso econômico, o bem-estar social e a proteção do meio ambiente. Nenhum desses elementos é capaz de substituir a importância do outro; na verdade, só fazem sentido quando alcançados de forma conjunta, pois são interdependentes e complementares. Por isso, a sustentabilidade no ambiente de negócios só se concretiza quando as atenções do mercado estão voltadas aos riscos financeiros sob a perspectiva dos fatores que podem afetar a integridade de toda a cadeia produtiva: eventos extremos (risco climático), origem da matéria-prima (risco de procedência), segurança no ambiente de trabalho (riscos de acidentes, afastamentos e mortes), imagem e reputação (risco de escândalos), compliance (riscos de multas e embargos), além da adoção de certificações, selos e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU), utilizados por empresas e organizações para mitigar esses riscos.
Por outro lado, o mercado vem sinalizando um novo comportamento, orientado por diretrizes e normas que consideram as boas práticas de governança e de responsabilidade social e ambiental como critérios para financiamentos, empréstimos e seguros bancários. Isso tem exigido agilidade das empresas para se adaptarem aos novos tempos. Já é possível observar um aumento na demanda por profissionais qualificados, com formação técnica e acadêmica na área da sustentabilidade. As ofertas de empregos verdes se multiplicam diariamente, impulsionadas por investimentos bilionários da indústria e do setor de energia, fortemente conectados ao agronegócio e à produção de insumos, alimentos e biocombustíveis.