
Cor esverdeada da água e presença de material semelhante a algas na orla da praia do Laranjal, em Pelotas, podem ser explicadas pelo desenvolvimento de cianobactérias — o que alguns especialistas chamam de microalgas. A reportagem de GZH fez o registro desses organismos na orla do Balneário Valverde, próximo ao Trapiche, na manhã desta quinta-feira (5).
O professor Márcio de Souza, do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), confirma que se tratam de cianobactérias, embora ainda não seja possível identificar a espécie exata.
Ele destaca que, mesmo sem a confirmação do tipo específico, existe grande probabilidade de as cianobactérias serem tóxicas para seres humanos, por se tratar de um balneário de água doce. Por isso, a recomendação é de que moradores e turistas evitem qualquer contato com a água nessas condições.

Muitas espécies de cianobactérias podem causar reações alérgicas na pele, enquanto outras produzem toxinas mais potentes associadas a problemas gástricos e disenteria — infecção intestinal grave.
— A presença de cianobactérias no Laranjal aciona um sinal vermelho. Não é recomendável entrar na água, principalmente crianças e idosos. Não quer dizer que aquelas cianobactérias já estejam produzindo toxinas hoje, isso ainda precisa de estudo, o que se sabe é que elas precisam morrer para liberar as toxinas. Ali no Laranjal algumas células estão vivas ainda, mas à medida que for passando os dias, elas vão morrer — explica Souza.
O professor ressalta que o alerta é necessário porque o Laranjal, na Lagoa dos Patos, é um balneário de água doce. Diferentemente de muitas microalgas benéficas ao ambiente, as que se desenvolvem em água doce têm alto potencial de produzir substâncias nocivas.
— Aqui na região região da Lagoa dos Patos, principalmente na parte de água doce, tem um tipo de cianobactéria que aparece sempre, considerada quase dominante. É justamente esse gênero que pode produzir toxina — afirma.
Souza explica ainda que as cianobactérias são mais próximas das bactérias do que das microalgas tradicionais. Embora alguns pesquisadores usem "microalgas" como um rótulo genérico, "cianobactéria" é a classificação técnica correta.
Evento comum no verão
A presença desses organismos é um evento natural comum no verão, devido às altas temperaturas e à maior oferta de nutrientes. Elas se desenvolvem com facilidade em águas acima de 20°C, clima que prejudica outros organismos da Lagoa.
O crescimento desses organismos é ainda mais estimulado por efeitos humanos, como esgoto doméstico não tratado e excesso de nutrientes da agricultura, incluindo fertilizantes inorgânicos sintéticos que chegam ao litoral.
— É um evento cíclico. A poluição vinda das cidades pelo esgoto doméstico ou nutrientes da agricultura que chegam ao litoral estimulam esse crescimento excessivo — diz o professor.
Balneário é considerado próprio para banho pela Fepam

O último Boletim de Balneabilidade divulgado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), em 30 de janeiro, aponta que todos os pontos da Praia do Laranjal estão próprios para banho.
A análise leva em conta a presença de coliformes fecais, a partir da bactéria Escherichia coli, e de cianobactérias. Para o ponto ser considerado impróprio, contagem de cianobactérias deve estar acima de 50 mil células.
Quando o último levantamento foi divulgado, a água não estava esverdeada. Um novo boletim será apresentado pela Fepam nesta sexta-feira (6).
— A gente já vem observando que, quando há muitas cianobactérias em determinado momento, é muito baixa a quantidade de coliformes fecais — conclui o professor.
O que diz a prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Pelotas explica como os exames do Boletim Balneabilidade são realizados e que os resultados são divulgados semanalmente. Leia a íntegra abaixo:
As análises de balneabilidade são realizadas semanalmente, com coleta e análises de oito pontos da praia do Laranjal, entre o Trapiche e a Mata do Totó. Os estudos levam em conta os critérios determinantes, contidos nas Resoluções Conama nº 274, de 29 de novembro de 2000 e nº 357, de 17 de março de 2005. Pelo menos quatro devem estar dentro do limite estabelecido na legislação, que é de no máximo 800 da bactéria Escherichia coli, indicativo de contaminação fecal, por 100 mililitros. Além disso, outros fatores devem ser observados, como o pH e a presença de cianobactérias. Sendo assim, para um trecho das águas ser considerado próprio para banho não basta estar em condições adequadas na semana da análise. Também é necessário que ele não tenha sido identificado como impróprio mais de uma vez durante as cinco semanas anteriores de examinações.
O próximo boletim será divulgado nesta sexta-feira (6). É importante para a população acompanhar a divulgação, feita pela Fepam. O objetivo é proporcionar segurança e evitar que os veranistas sejam expostos a patógenos, como bactérias, vírus ou protozoários e prevenir doenças de veiculação hídrica, aproveitando o verão de forma segura.
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