
Dez dias após o acidente entre uma carreta e um ônibus intermunicipal que matou 11 pessoas no quilômetro 491 da BR-116, em Pelotas, a dor e a saudade continuam a marcar o cotidiano das famílias das vítimas. Enquanto as investigações aguardam os laudos periciais, os familiares tentam lidar com a ausência repentina.
Em São Lourenço do Sul, a rotina de Arlete Brodt Blank mudou completamente. Seu lar ficou vazio com a morte do filho Carlos Roberto Blank, de 34 anos, que conduzia o ônibus da empresa Santa Silvana no trajeto entre Pelotas e São Lourenço do Sul. Mãe e filho moravam juntos.
— Dói muito essa ausência do meu filho. O meu filho era tudo para mim, eu precisava dele para tudo. Agora eu tenho que lidar com essa ausência e está muito difícil — relata Arlete.
A notícia da morte de Carlos chegou cerca de 30 minutos após o acidente, que ocorreu às 11h20. Arlete comenta que havia conversado com o filho por volta das 10h, antes dele deixar a rodoviária de Pelotas, e esperava recebê-lo para o almoço.
Quando Carlos não respondeu às mensagens enviadas por volta do meio-dia, a preocupação de Arlete aumentou e, dessa forma, foi buscar informações nas redes sociais, onde encontrou registros do acidente.
— Eu sabia todos os horários do meu filho. No dia, ele tinha pedido bifes, então conversei com ele por mensagem e fui cozinhar. Por volta de 12h05, o almoço já estava pronto e ele não aparecia. Abri o Facebook e vi fotos do ônibus, mas tentei não acreditar. Não havia informações claras sobre o acidente, então acompanhei as notícias até perceber que o ônibus havia se chocado com uma carreta. Só então comecei a ter certeza de que era ele — conta.
Arlete também descreve o momento como um turbilhão de incertezas: inicialmente tentava não acreditar nas imagens do ônibus batido, mas, aos poucos, percebeu que seu filho estava envolvido. A confirmação só veio quando percebeu que o celular de Carlos permanecia sem sinal e não havia troca de mensagens.
— Ele foi ao óbito na hora, pelo que eu vi, porque ele tinha mateira com chimarrão. Era uma mateira e uma térmica bem fortes e ficaram completamente amassadas. O chimarrão estava sempre com ele, no lado do banco do motorista. A gente foi atrás pra ver. Foi só o que vi, já que o velório foi com o caixão lacrado — conta.
Carlos era motorista na empresa há cerca de oito anos e, segundo a mãe, um profissional experiente.
— Ele começou a trabalhar como motorista aos 22 anos, na empresa eu não sei precisar, mas deveria estar há uns oito anos. Ele sempre fez seu trabalho com cuidado. Tenho certeza de que fez tudo para evitar o acidente, mas a imprudência do outro motorista contribuiu para a tragédia — afirma Arlete.
Investigação em andamento

A Polícia Civil investiga o caso, inicialmente, como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Para a investigação ter seguimento, o inquérito depende dos laudos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Instituto-Geral de Perícias (IGP), que ainda não foram entregues.
— Nosso laudo está em fase de homologação, uma auditoria interna, para depois ser reportado à Polícia Civil — disse Daniel Pitrez, chefe da PRF.
Dados preliminares indicam que a carreta trafegava acima da velocidade permitida no trecho. O tacógrafo do veículo registrou mais de 70 km/h em um ponto onde o limite é de 40 km/h, mas a velocidade exata só será confirmada após a perícia técnica.
Para os familiares, é essencial que o caso seja investigado e que eventuais responsáveis sejam punidos.
— Para quem causa o acidente, muitas vezes não acontece nada. Faz o acidente, e os outros que morrem e sofrem. Acho que deve haver investigação minuciosa, porque é muita imprudência assumir uma direção sem responsabilidade — destaca Arlete.
Conforme o delegado César Nogueira, responsável pelo caso, inquérito tem prazo de 30 dias para conclusão. Além da análise técnica, depoimentos de sobreviventes, testemunhas e envolvidos devem compor o processo para esclarecer a dinâmica do acidente e possíveis responsabilidades criminais.
O acidente
O ônibus intermunicipal da empresa Santa Silvana partiu da rodoviária de Pelotas às 10h30, com destino a São Lourenço do Sul, a cerca de 75 km de distância.
Por volta das 11h20, uma carreta, que trafegava no sentido Capital-Interior, desviou para a contramão ao se deparar com um congestionamento, colidindo com o ônibus.
O acidente ocorreu em um trecho duplicado, que vinha operando em pista simples há alguns meses devido às obras na ponte do arroio Corrientes. No momento da colisão, o local estava devidamente sinalizado, segundo a Ecovias Sul.
Vítimas
Todas as 11 vítimas fatais estavam no ônibus. Entre elas estava Carlos Roberto Blank, de 34 anos, e Luiz Anselmo da Silva, de 57 anos, também funcionário da empresa de transporte.
Dos 12 sobreviventes, apenas uma mulher permanece internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sem detalhes sobre seu estado de saúde.
As vítimas fatais identificadas são:
- Carlos Roberto Blank, 34 anos — São Lourenço do Sul
- Luiz Anselmo da Silva, 57 anos — São Lourenço do Sul
- Luís Fernando Pinto Ramson, 47 anos — São Lourenço do Sul
- Paulo Lages da Silva, 61 anos — São Lourenço do Sul
- Dalvino Frank, 73 anos — Pelotas
- Neisa Jovelina Fernandes Ribeiro, 77 anos — Bagé
- Galileu da Silva Ribeiro, 70 anos — Candiota
- Jaqueline dos Santos Duarte, 47 anos — Oriximiná (PA)
- Aida Weber, 72 anos — Pelotas
- Daizi Moraes Jalil Isa, 85 anos — Pelotas
- Vera Regina Foster de Souza, 52 anos — São Lourenço do Sul


