Por Marcelo Dutra da Silva, ecólogo, doutor em Ciências e professor da Furg
A ideia de desenvolvimento com foco na sustentabilidade — economia limpa (de baixo carbono), produção responsável e consumo consciente dos recursos — vem sendo utilizada como promotora de um novo projeto de sociedade, mais eficiente e responsável, capaz de garantir, no presente e no futuro, as mesmas chances de crescimento, porém dentro de novas oportunidades de exploração econômica, sem comprometer a manutenção dos serviços prestados pela natureza. Exatamente o que estamos prestes a vivenciar por aqui.
O Rio Grande do Sul vem experimentando eventos climáticos extremos de toda ordem, desde secas recorrentes até chuvas volumosas, seguidas de granizo e ventos intensos. Um cenário assustador, de prejuízos e perdas incalculáveis, que somente poderá ser revertido a partir de um novo modelo de desenvolvimento econômico, verde e sustentável.
Na Zona Sul, projetam-se iniciativas que devem mudar nossa realidade econômica a partir do próximo ano: investimentos bilionários em logística, energia e indústria, especialmente na indústria naval e em atividades relacionadas à cadeia produtiva do agronegócio. São iniciativas que nos conectam diretamente à corrida global pela descarbonização das atividades econômicas.
A conversão da Refinaria Riograndense, em Rio Grande, na primeira biorrefinaria do país é o melhor exemplo dessa mudança. Trata-se de um investimento de US$ 1 bilhão, com impacto direto na cadeia produtiva de grãos oleaginosos. Um projeto inovador que abre novas oportunidades no campo, seja pela necessidade de adoção de práticas mais sustentáveis de manejo e conservação do solo e da água — impulsionadas pelas exigências de certificação e de acesso ao mercado internacional —, seja pela qualificação da cadeia de insumos, dos serviços, da rede de cerealistas e das esmagadoras de grãos, responsáveis pela produção de óleos estabilizados destinados à fabricação de combustíveis verdes: gasolina, diesel, solventes, gás e o SAF (Sustainable Aviation Fuel — combustível sustentável de aviação), considerado o mais valioso dos combustíveis e a principal medida de descarbonização do setor aéreo para a redução de emissões e o combate às mudanças climáticas.
Outra grande oportunidade que se avizinha é a geração eólica offshore — energia gerada pelo vento no oceano —, que deverá nos apresentar uma oferta de energia nunca vista, muito além da nossa demanda atual. Esse cenário certamente atrairá novos investimentos para a região: indústrias e novas cadeias de negócios que ainda irão nos descobrir a partir da oferta abundante de energia e da posição logística estratégica, com conexões com o interior do país e com o mundo. Uma perspectiva que, aos poucos, vem sendo confirmada pelos investimentos já anunciados e por outros que devem chegar em breve.
A partir da geração offshore, será possível avançar na produção de hidrogênio verde, incluindo o desenvolvimento da indústria do oxigênio. Com hidrogênio disponível, limpo e em abundância, o céu é o limite: abrem-se oportunidades para a produção de fertilizantes verdes, essenciais na cadeia de insumos de baixo carbono para a produção de combustíveis verdes. E, já que ao final do esmagamento de grãos oleaginosos o que sobra é uma grande quantidade de resíduos (farelo de alto poder proteico e sustentável), estes servem de base para dietas humanas (livres de proteína animal) ou para a produção de ração destinada ao gado confinado.
A pecuária gaúcha, que sempre esteve em destaque no cenário nacional, pode estar próxima de viver uma nova realidade, juntamente com outras fontes de proteína animal, como frango e suínos, ainda pouco desenvolvidas na região: uma vantagem estratégica de reposicionamento no mercado como carne verde, produzida em sistemas de baixa emissão de gases de efeito estufa (GEE), com maior valor agregado e voltada a um público consumidor exigente, especialmente o mercado internacional futuro.
Por outro lado, não será preciso esperar tanto, pois já existe um forte interesse em investir aqui, certamente guiado pela nossa vantagem logística e pelo potencial de geração de energia: o investimento do grupo espanhol Cobra Brasil, de cerca de R$ 6 bilhões, em uma unidade de geração termelétrica, que deverá consumir 5,5 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia e gerar 1.200 megawatts de energia. O gás natural, apesar de ser uma fonte fóssil, é menos poluente e essencial como combustível de transição, atuando como ponte para fontes mais limpas e sustentáveis; o investimento de R$ 1,5 bilhão da joint venture entre CMPC Celulose e Neltume Ports para a implantação de um novo terminal portuário. O projeto prevê a construção de dois berços de atracação para navios, dois berços para barcaças e um armazém com capacidade para armazenar 190 mil toneladas de celulose; o investimento de R$ 110 milhões anunciado pela Fontes Verdes, empresa paulista que atua há 15 anos no mercado de hidrogênio e amônia verdes, que avalia o início de suas operações no segundo semestre de 2026; o anúncio do Governo Federal da construção de cinco navios gaseiros no Estaleiro Rio Grande e da passagem seca para São José do Norte…
Um ano que promete ser marcado por boas notícias e novidades, como a produção de etanol de arroz, possivelmente a única alternativa capaz de oferecer a esse tradicional e importante ativo agrícola uma nova rota de utilização, agregando valor, propósito e sustentabilidade à cadeia de negócios.
Vamos trabalhar muito. Feliz Ano Novo!


