
Em meio ao centro de Pelotas, uma experiência gastronômica intimista vem ganhando espaço entre apreciadores de cozinha autoral e menus exclusivos. Instalado em uma casa de dois pisos, o restaurante Tako funciona no modelo omakase e atende no máximo oito pessoas por noite, transformando cada jantar em uma vivência personalizada conduzida integralmente pelo chef Weverton Freitas Benigno, de 27 anos.
Em japonês, omakase significa “confiar ao chef”. É exatamente isso que acontece ali: não há cardápio fixo, e cada etapa depende do que o chef seleciona no dia, dos ingredientes disponíveis e das harmonias que deseja criar. A experiência dura entre uma hora e meia e duas horas e segue uma lógica narrativa que começa com pratos mais tradicionais, evolui para criações autorais e termina com uma iguaria.
O ambiente lembra mais a casa de alguém do que um restaurante convencional, e essa é justamente a intenção.
— É como se os clientes viessem jantar na casa do chef — explica Weverton.
O nome Tako, que remete ao polvo e às suas oito patas, simboliza os oito lugares do balcão, todos conduzidos simultaneamente pelo cozinheiro, que prepara, finaliza e serve cada prato diante dos clientes.
De Rondônia a Buenos Aires, até chegar a Pelotas
Nascido em Ariquemes (RO) e criado em cidades do Norte do país, Weverton se aproximou da gastronomia ainda jovem. Formou-se em Porto Velho e, aos 18 anos, mudou-se para Buenos Aires, onde passou longos períodos apenas cozinhando arroz ou cortando vegetais até atingir o padrão exigido pela cozinha japonesa.

De volta ao Brasil, veio para Pelotas em 2022. Abriu o restaurante em setembro daquele ano e, desde então, trabalha praticamente sozinho, em jornadas que chegam a 16 horas diárias entre preparo, serviço e limpeza.
— Começo às nove da manhã e termino por volta das onze da noite quando a casa está cheia — conta.
Peixes maturados, técnicas internacionais e ingredientes locais
O Tako combina técnicas japonesas com influências árabes, italianas e francesas, reflexo da formação do chef em gastronomia internacional. Não existe repetição de menu: toda semana os pratos mudam.
Todos os peixes e frutos do mar vêm frescos de Santa Catarina, enviados no dia da pesca. Verduras, cogumelos, flores comestíveis e parte da produção agrícola são adquiridos em Pelotas e região, incluindo um arroz japonês cultivado no município.
O jantar custa R$ 180 por pessoa, valor considerado acessível para esse tipo de serviço, já que menus similares em grandes capitais chegam a R$ 800 ou até R$ 1,2 mil.
— É possível manter esse valor porque trabalho praticamente sem desperdício: produzo apenas o que está reservado para aquela noite — afirma.
Reservas disputadas e menus que nunca se repetem
A casa abre de terça a sábado, sempre mediante reserva. Como são apenas oito lugares, algumas datas lotam com meses de antecedência. Há clientes que retornam mensalmente e famílias que se deslocam de outras cidades exclusivamente para jantar ali.
Weverton também realiza eventos externos, adaptando o omakase para almoços e jantares privados de 8 a 20 pessoas. Nesses casos, o número de etapas diminui, mas a proposta autoral permanece.
O que provamos no omakase do Tako
O jantar segue a divisão de etapas, com combinações que misturam técnica japonesa, ingredientes locais e influências internacionais. Na noite da visita de GZH Zona Sul, o menu incluiu:
1. Crocante de massa filo com cogumelos
Massa filo crocante recheada com cogumelo shiitake salteado em manteiga de alho assado e servida com emulsão de limão japonês (yuzu). Acompanha chá de marcela.
2. Gyoza de barriga de atum
Recheada com barriga de atum selada na manteiga, servida com molho quente de ostra, gengibre e alho.
3. Sushi de atum maturado com ovas
Kosomaki com atum maturado por cinco dias, finalizado com ovas de peixe-voador.
4. Risoto cítrico com langostim
Preparado com arroz produzido em Pelotas e finalizado com três cítricos, acompanhado de langostim grelhado.
5. Mousseline de batata-baroa com atum e maracujá
Mousseline cremosa servida com atum maturado e selado, redução de maracujá e tuile de amêndoas.
6. Nigiri de vieira canadense com brie
Vieiras grelhadas rapidamente, servidas sobre arroz de sushi, e cobertas com queijo brie.
7. Sorvete de banana com doce de leite quente
Sobremesa autoral sem lactose, servida com calda quente de doce de leite de Santa Vitória do Palmar.
Planos: campeonato mundial de sushi
Para 2026, o chef pretende disputar um torneio mundial de sushi, objetivo que considera um marco na sua trajetória.
— É um desafio enorme, mas é algo que quero viver — afirma.
Enquanto isso, segue no endereço que escolheu para chamar de casa, literalmente, já que mora no andar superior do restaurante. Ali, entre chás de marcela servidos à vontade, cortes precisos de peixe e combinações de sabores que misturam Japão, Brasil e outras influências, Weverton constrói uma das experiências gastronômicas mais singulares de Pelotas.

