
O Aeroporto Gustavo Cramer, em Rio Grande, administrado pela Secretaria de Logística e Transportes (Selt), não recebe voos comerciais desde 2020, mas segue operacional, despertando questionamentos sobre seu futuro.
Atualmente, o aeroporto recebe cerca de 20 voos mensais, todos de caráter executivo, além de operações da Marinha do Brasil e da Brigada Militar, que não são contabilizadas oficialmente pela Selt.
Durante visita ao município, em setembro, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, afirmou que pretende transformar a unidade em um hub de cargas, aproveitando sua localização estratégica próxima ao Porto de Rio Grande.
— O Aeroporto de Rio Grande precisa ser um hub de cargas. Isso seria fundamental para as operações logísticas da região e do Estado — declarou o ministro, na época da visita.
Apesar disso, a Selt informa que não há projeções de transporte de cargas para os próximos meses.
— Recentemente, isso aconteceu no aeroporto de Navegantes, em Santa Catarina, devido a uma demanda expressiva da região. Uma operação similar em Rio Grande precisará ser muito bem planejada e fundamentada — afirma Marcelo Canossa, diretor do Departamento Aeroportuário da Selt.
Aeroporto já contou com voos comerciais

A estrutura já teve movimentação comercial significativa. Nos anos 2000, companhias como a Rio-Sul operavam voos diários na região. Entre 2018 e 2019, a Two Flex — empresa comprada pela Azul — realizou voos sazonais com capacidade para nove passageiros.
O último voo comercial ocorreu em 2020. Desde então, as empresas passaram a centralizar suas operações no Aeroporto de Pelotas, localizado a menos de 50 quilômetros, evitando competição entre as duas estruturas.
— No plano aeroviário nacional, o aeroporto de Rio Grande tem papel complementar. O aeroporto de referência na região é o de Pelotas, que concentra as operações. No modal aéreo, deve haver sinergia, não competição entre infraestruturas tão próximas — explica Canossa.
Além da proximidade com Pelotas, a estrutura do Gustavo Cramer suporta aeronaves de pequeno porte, mas não permite ampliação da pista. O aeroporto possui um pátio de cerca de 23 mil metros quadrados, com capacidade para operar até oito aeronaves simultaneamente.
As companhias aéreas atuais utilizam modelos maiores, que enfrentariam restrições de capacidade, o que inviabiliza o retorno dos voos comerciais por enquanto.
O que dizem as companhias aéreas?
No caso específico da Azul, a última operar na estrutura, a empresa destaca que tem concentrado suas operações no Aeroporto de Pelotas, que oferece condições mais adequadas para aeronaves de maior porte e possui demanda consolidada na região.
"A operação mencionada foi realizada pela empresa Two Flex, antes de sua incorporação pela Azul, em 2020. Como empresa competitiva, a Companhia avalia constantemente as possibilidades de incremento de sua malha, porém, neste momento não há previsão de operação na cidade", afirma a nota da empresa.
Infraestrutura para operações de emergência e da Marinha
Durante a enchente de maio de 2024, o aeroporto passou por obras de restauração da pista, com investimento de aproximadamente R$ 2,5 milhões do governo estadual.
A estrutura foi temporariamente fechada, mas permitiu operações de emergência, incluindo resgates realizados pela Defesa Civil e pela Marinha.
Agora, segundo Canossa, o Estado está firmando um convênio com a Marinha para criar uma base expedicionária que dará suporte em operações.
— Há investimentos previstos no acordo, incluindo reforma de um hangar e do terminal de passageiros. E estamos alinhando detalhes com a Marinha para assinar o acordo de cooperação — afirma.
Além disso, um plano multimodal regional, com resultados previstos para março de 2026, deverá indicar investimentos futuros e definir a melhor forma de utilizar a infraestrutura dentro do contexto regional e nacional.
Até o momento, não há definições concretas sobre o total de investimentos ou cronograma.
Em 2012, o governo federal havia apontado o Aeroporto de Rio Grande como prioridade para receber investimentos devido à sua posição estratégica, mas o plano nunca foi concretizado. Nos anos seguintes, a estrutura começou a ser vista como complementar na região.
— O fato de o aeroporto não ter voos comerciais é uma decisão exclusiva das aéreas. O Estado está para prover a infraestrutura atendendo as demandas das aéreas, da sociedade, mas num contexto estratégico da rede — finaliza o diretor do Departamento Aeroportuário da Selt.
Procurada pela reportagem, a Marinha do Brasil ainda não se manifestou sobre o possível acordo com a secretaria de Logística e Transportes.



