
O Café Aquários, no centro de Pelotas, foi declarado de relevante interesse cultural do Rio Grande do Sul por lei sancionada pelo governador Eduardo Leite. A norma entrou em vigor com a publicação no Diário Oficial do Estado nesta semana.
Mas muito antes de ser declarado oficialmente, o Café Aquários já era patrimônio afetivo da cidade. Quem ajudou a construir essa trajetória foi Ramiro Rodrigues, imigrante português que assumiu o estabelecimento na década de 1970 e acompanhou, do balcão, décadas de transformações da cidade.
— Isso aqui começou em 1947 ou 1948. Naquele tempo, nem se chamava Café Aquários. Era Café Nacional — relembra Ramiro, hoje com 80 anos.
Localizado na esquina das ruas 15 de Novembro e 7 de Setembro, o estabelecimento nasceu junto com a inauguração do Palácio do Comércio, sede da Associação Comercial de Pelotas. A ideia, à época, era simples: levar movimento para o coração econômico da cidade. Funcionou.
— O café era praticamente o escritório deles. Quem comprava e vendia terras, gado, tudo se resolvia ali, com um aperto de mão, e depois iam direto ao cartório — conta.

De Café Nacional a Aquários
Quando Ramiro chegou ao Brasil, em 1963, o espaço já havia passado por outras mãos e também por outro nome. Em determinado período, pertenceu à Torrefadora Café 35, ligada à família do governador Eduardo Leite. Pouco depois, o negócio mudou novamente de dono, até que Ramiro e o irmão Joaquim entraram em cena.
— Compramos o café em junho de 1970. Desde então, ele ficou conosco. Estamos ali há 55 anos — resume.
O nome Aquários surgiu quase por acaso, inspirado nas grandes vitrines do local.
— Um advogado brincava dizendo que aquilo parecia mais um aquário do que um café, de tanta gente olhando para dentro. E o nome pegou — relembra, sorrindo.
Com o passar do tempo, o café deixou de ser frequentado apenas pela elite econômica e passou a refletir a diversidade da cidade: estudantes, aposentados, políticos, turistas e curiosos dividindo mesas e conversas.
Mudança de hábitos, permanência do símbolo
Ramiro acompanhou, do balcão do café, as transformações de Pelotas e do modo de viver.
— Quando surgiu o Nescafé, mudou tudo. As pessoas passaram a fazer café em casa, nos escritórios. Antes, desciam só para tomar um cafezinho e conversar — recorda.
Mesmo com a mudança de hábitos e o avanço da vida moderna, o Aquários resistiu. Durante a pandemia, chegou a ficar três meses fechado, mas conseguiu reabrir.
— Se não fosse um lastro financeiro que a gente tinha, tinha sucumbido. Muita empresa não conseguiu — afirma.
Hoje, o café segue sendo espaço de permanência. É comum ver grupos de idosos conversando por horas, tanto nas mesas internas quanto na frente do estabelecimento, acompanhando o movimento da rua. Há também clientes assíduos que passam boa parte do dia no Aquários, alternando cafés, leituras e conversas, reforçando o papel do local como espaço de convivência urbana.
O ambiente é dividido em dois grandes salões, com balcões amplos e mesas pequenas distribuídas pelo espaço. O cardápio preserva a simplicidade que atravessa gerações: o tradicional cafezinho passado na hora, suco de laranja feito na hora — preparado ali mesmo, à vista dos clientes — e opções clássicas de café da manhã. Entre os pedidos mais recorrentes estão as torradas com ovo, sanduíches quentes e o pão francês na chapa, servido inteiro, com manteiga derretendo por dentro, uma marca do Aquários.
Ao longo das décadas, o Café Aquários se consolidou como uma parada quase obrigatória para quem visita Pelotas, especialmente autoridades, artistas, intelectuais e visitantes que circulam pelo Centro Histórico. A presença constante em roteiros informais da cidade reforçou o status do local como ponto de encontro e observatório privilegiado da vida urbana pelotense.
O café também ocupa lugar simbólico na cultura local. É citado em crônicas, livros e memórias afetivas sobre Pelotas e integra o imaginário evocado por artistas como Vitor Ramil, especialmente em Satolep, obra que recria a cidade a partir de seus espaços cotidianos. Da mesma forma, a música Pelotas, de Kleiton & Kledir, ajuda a eternizar lugares que fazem parte da identidade da cidade, entre eles o Aquários, reconhecido por gerações como ponto de passagem quase inevitável.
Hoje, quem toca o dia a dia do café é Carmino Rodrigues, filho de Ramiro, que trocou uma carreira fora do comércio para assumir o negócio da família.
— Eu já não trabalho mais para mim. Trabalho para ele. O futuro agora é dele e da minha filha — diz Ramiro.

Reconhecimento oficial
A trajetória ganhou, nesta semana, um novo capítulo. O Café Aquários foi oficialmente declarado de relevante interesse cultural do Rio Grande do Sul, por lei sancionada pelo governo do Estado.
Para Ramiro, o reconhecimento não muda a essência do lugar, mas confirma algo que os pelotenses sempre souberam.
— É uma coisa tradicional. Quantas gerações já passaram por ali? O Aquários faz parte da vida da cidade — resume.
O reconhecimento não implica tombamento, mas formaliza o valor histórico e simbólico do espaço como parte da memória urbana de Pelotas, construída não apenas por paredes e mesas, mas pelas histórias que atravessaram décadas, sempre acompanhadas de um café passado na hora.



