
A história do Vinicius Bistrô, hoje um dos restaurantes mais procurados de Pelotas, começou muito antes do chef Vinícius Miller Kuhn abrir as portas da casa na praia do Laranjal. A trajetória, marcada por quedas, mudanças e recomeços, moldou a identidade de um estabelecimento que reúne gastronomia, memória e afeto e que se tornou o lugar da moda na cidade, recebendo celebridades, políticos e empresários.
Nascido em Pelotas e criado entre Turuçu e São Lourenço do Sul, Vinícius passou a infância nas cozinhas das avós, que preparavam conservas, chimias, pratos fartos e receitas que se tornariam referências afetivas. A primeira lembrança gastronômica é simples e simbólica: galinha com arroz e o “pão no bafo” preparado pela família.
As dificuldades começaram na juventude. A loja de som automotivo que ele mantinha quebrou, e Vinícius viveu o que descreve como o momento mais duro da vida: depressão profunda, dívidas, separação e a volta para a casa da mãe com um filho pequeno.
— Foi o fundo do poço do ser humano. Tu sentir que és incapaz — disse, lembrando a fase em que passou dias sem conseguir sair de um quarto.
O recomeço surgiu na cozinha. O desejo de transformar o hobby de cozinhar em profissão nasceu quando Vinícius passou a sonhar em trabalhar como cozinheiro em plataformas de petróleo. O irmão já atuava nesse ambiente, embora em outro setor, o que despertou nele a vontade de seguir esse caminho pela boa remuneração. Determinado a se qualificar, buscou uma bolsa de estudos para o curso de cozinheiro no Senac e convenceu um representante do Lions Clube a lhe dar uma chance, mesmo após ser informado de que a vaga já estava preenchida.
— Expliquei que eu precisava recomeçar. Pedi para ele pensar com carinho. No outro dia, me ligou abrindo a exceção e me dando a bolsa.
Sem dinheiro para o transporte diário entre São Lourenço e Pelotas, encontrou alternativas: organizou caronas em troca da passagem, dormiu algumas noites na rodoviária para economizar e acumulou trabalhos. Foi merendeiro no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Turuçu, cozinheiro em restaurantes, monitor no Senac e fazia plantões de madrugada. Nada o afastava da nova meta.
O primeiro bistrô e a chegada de Berê

O primeiro restaurante surgiu em São Lourenço do Sul, em 2015, às margens da Lagoa dos Patos. A casa era pequena, com cardápio centrado em frutos do mar, e rapidamente passou a atrair moradores da região e visitantes de Pelotas. A decoração com objetos antigos e memórias da família virou parte da identidade do espaço. Sem recursos para mobiliar o salão, Vinícius conseguiu as primeiras cadeiras trocando a própria bicicleta, em uma negociação feita com uma comerciante local.
As pizzas de domingo lotavam o salão, mas Vinícius tomou uma decisão arriscada e abandonou o formato para apostar no almoço, medida que ampliou o movimento do bistrô.
A consolidação também teve papel fundamental de Berê, sua parceira de vida e trabalho. Eles se conheceram em um restaurante: ela no salão, ele na cozinha. Berê largou o emprego para acompanhar os eventos, assumiu jornadas de madrugada ao lado de Vinícius e, mais tarde, tornou-se sócia da operação. Em Pelotas, permanece no atendimento como garçonete, sempre discreta, ouvindo críticas e elogios de quem chega ao restaurante.
Mudança para Pelotas e o impacto da pandemia
Após conquistar o público de São Lourenço, o casal decidiu dar um passo maior em Pelotas. O prédio escolhido era inusitado: uma antiga casa de festas que, por último, havia funcionado como um prostíbulo. O espaço estava abandonado e exigia reforma completa.
A obra avançava quando, em 2020, veio a pandemia. A inauguração marcada para abril daquele ano virou incerteza. Para sustentar a operação, Vinícius negociou com o proprietário meses de carência no aluguel, o que garantiu fôlego para continuar.
Com as portas fechadas, o bistrô apostou no take away, e o público aderiu. Filas de carros se formavam no pátio para retirar encomendas, garantindo a sobrevivência do negócio até a retomada do atendimento.
Gesto que virou símbolo da casa
A presença de Vinícius no salão é marca registrada. Ele cumprimenta clientes, conversa com mesas e acompanha o ritmo de cada turno.
— Pelo menos um "boa noite" eu tento dar para cada pessoa que vem jantar aqui — relata.
Além do atendimento, o bistrô também se notabiliza por ações solidárias. O chef doa marmitas ao Albergue Noturno com o mesmo padrão dos pratos servidos no salão.
Há alguns meses, um episódio emocionou a equipe. Uma mãe e dois filhos dividiam um prato simples. Os garçons perceberam que era um momento especial e pediram à cozinha atenção diferenciada. O restaurante enviou entradas e reforçou o prato principal. Depois, a filha foi convidada a ir à cozinha preparar sua própria sobremesa. Ela fez um crème brûlée com os cozinheiros.
Na volta à mesa, encontrou a mãe chorando. Era o aniversário de 15 anos da adolescente. O presente da família era jantar no Vinicius Bistrô.
Menu e identidade gastronômica
O cardápio do Vinicius Bistrô se destaca pela valorização dos ingredientes do sul do Estado. Os peixes e frutos do mar, como o linguado pescado em Rio Grande, o polvo e o siri, aparecem em diversas versões, com risotos artesanais aos pratos principais para duas pessoas.
A presença de frutos do mar nasceu de forma natural: o restaurante está próximo à Lagoa dos Patos, o que favorece o acesso diário a produtos frescos. As hortaliças de São Lourenço do Sul e Turuçu, presentes nas saladas e acompanhamentos, reforçam a conexão com a agricultura familiar. O cardápio também inclui sorvete artesanal produzido na sorveteria da família em São Lourenço, e o arroz dos risotos é de marca pelotense.
Entre eles, ganha destaque o Risoto Dona Romilda, preparado com ganso defumado de uma produtora de São Lourenço, em homenagem à própria Romilda. É um prato de sabor marcante e carregado de história afetiva.
Os preços não são baratos, mas seguem uma média compatível com a proposta da casa. As entradas variam entre R$ 27 e R$ 89. As saladas ficam entre R$ 32 e R$ 78. Os pratos individuais e risotos custam entre R$ 80 e R$ 94. Já os pratos principais para duas pessoas variam de R$ 185 a R$ 230. As sobremesas ficam entre R$ 21 e R$ 28.
A relação com Galvão Bueno

Entre os frequentadores célebres, o nome mais marcante é o de Galvão Bueno. O narrador frequenta o restaurante e mantém relação próxima com o chef. O carinho inspirou Vinícius a criar a Sala Galvão Bueno, espaço decorado com itens enviados pelo comunicador, como blazer utilizado em transmissões, bolas antigas, garrafas da Bueno Wines e camiseta da Copa de 1994 autografada.
— Tu imagina o Galvão Bueno esperando para entrar no restaurante pela primeira vez com 11 mesas na frente. E ele esperou, sentado no cantinho. Isso me marcou muito — recorda Vinícius.
Presente e futuro
A casa segue com fila na porta, como o chef sonhava desde jovem. Ele não pensa em abrir outra unidade, mas planeja diminuir o ritmo no futuro. O filho, Vicente Kuhn, de 12 anos, já demonstra interesse pela cozinha.
— Eu gosto de cozinhar e, às vezes, ajudo o pai na cozinha. Quero seguir nesse caminho quando for mais velho — projeta.
Desde a inauguração no Laranjal, em 2020, Vinícius só deixou de trabalhar duas noites: uma para levar o filho ao estádio e outra para jantar com Galvão Bueno.
O bistrô que começou pequeno em São Lourenço e chegou ao Laranjal se transformou em um dos símbolos da gastronomia pelotense. Cresceu com a mesma simplicidade com que Vinícius conduz o salão e a cozinha, unindo técnica, memória e gentileza. Entre celebridades e famílias anônimas, o que move o restaurante é a história de alguém que se reergueu na vida entre panelas e que fez da gastronomia um gesto cotidiano de acolhimento.



