
Por Marcelo Dutra da Silva, ecólogo, doutor em Ciências e professor da Furg
A 30ª Conferência das Partes (COP30), realizada em Belém, chega ao seu final em clima de frustração. O impasse nas negociações não cedeu e impediu o avanço mais esperado desta edição: um roadmap (mapa do caminho) para o abandono programado dos combustíveis fósseis e sua substituição por fontes energéticas limpas e sustentáveis, dentro da chamada transição energética justa. A ideia não atingiu consenso entre as partes interessadas, que também divergiram quanto ao financiamento e às propostas de implementação.
As delegações se dividiram. Parte defendeu a necessidade de programar a substituição das fontes sujas de energia, enquanto outra se opôs firmemente à medida, afirmando que continuará explorando petróleo, mesmo reconhecendo que a descarbonização é um caminho sem volta, de longo prazo e que exige financiamento — segundo esse grupo, os recursos para a transição e para os custos de adaptação devem vir justamente dessa exploração.
Países em desenvolvimento cobram dos mais ricos valores mais claros e ambiciosos para apoiar a adaptação e a transição energética, enquanto negociam os indicadores da Meta Global de Adaptação e criticam barreiras comerciais, como o ajuste de fronteira de carbono europeu, que pode penalizar economias mais vulneráveis. Embora muitos países desenvolvidos defendam um roteiro para a redução global dos combustíveis fósseis, a maioria se exime da responsabilidade de pagar a conta.
Ao mesmo tempo, países cuja economia depende do petróleo e do gás resistem a prazos rígidos, e especialistas consideram as metas nacionais (NDCs, do inglês Nationally Determined Contribution) atuais insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C. O roadmap buscaria resgatar esse alinhamento firmado no Acordo de Paris, assinado em 2015, durante a COP21.
A edição brasileira da COP passou longe de ser a “COP da implementação”, frustrando cientistas e ambientalistas por não produzir acordos para frear os combustíveis fósseis, o desmatamento e o ritmo do aquecimento do planeta. Ainda assim, deixou como legado o Plano Global de Ação Climática para 2025–2030, que estabelece diretrizes para adaptação, mitigação, financiamento e justiça climática, funcionando como um roteiro para governos, empresas e sociedade até o fim da década. Outro avanço relevante foi a centralidade dada à Amazônia e aos povos indígenas, com maior protagonismo político e técnico dessas populações na proteção das florestas e na governança climática, ampliando o papel regional do Brasil como articulador dessas pautas.
A conferência não implementou, mas fortaleceu a agenda de adaptação, que ganhou status semelhante ao da mitigação, abrindo espaço para a definição de métricas e para reivindicações de apoio financeiro e tecnológico pelos países mais vulneráveis. A atualização das metas climáticas nacionais para 2035 representou, sem dúvida, um ganho, ao demonstrar empenho coletivo em manter os compromissos do Acordo de Paris, mesmo com ausências importantes, como a dos EUA, impasses sobre financiamento e pouca disposição de implementar, de imediato, uma agenda global de descarbonização.



