Entre os 28 nomes que vão representar o São Paulo-RG na Terceirona, o de Cauan Emanuel Gomes é um dos que mais chamam a atenção. Não apenas pela qualidade no trato com a bola, mas também pela história de vida, que também carrega na pele.
O jovem é um dos sobreviventes do incêndio no Ninho do Urubu, local dos alojamentos da base do Flamengo, em fevereiro de 2019. Aos 22 anos, ele tenta reconstruir a carreira e, ao mesmo tempo, ajudar o centenário Leão do Parque a reencontrar o caminho das glórias.
No São Paulo, encontrou um ambiente que considera importante para seguir avançando na carreira. E o início dessa nova trajetória não poderia ter sido melhor. Na estreia, Cauan marcou um dos gols da goleada por 6 a 0 sobre o Rio Grande, pela Copa Internacional Cidade do Rio Grande, e dias depois conquistou o primeiro título com a camisa rubro-verde.
— Sempre é bom marcar, principalmente em clássico. [...] Estou muito feliz de estar no São Paulo, um clube que está se reconstruindo. A grandeza que o São Paulo passa para a gente é algo que é inegociável. É só demonstrar dentro dos gramados e colocar o São Paulo no seu devido lugar, que é na primeira divisão — afirma.
A estreia pelo São Paulo foi especial para Cauan. Além de marcar em um dos clássicos mais antigos do país, o Rio-Rita, o atacante teve contato pela primeira vez com a torcida do Leão do Parque.

A boa recepção da torcida nas primeiras partidas ajudou a reforçar uma identificação que Cauan espera construir ao longo da temporada. Dentro de campo, o atacante se define principalmente pela intensidade. Ponta-esquerda, o camisa 7 afirma que o torcedor pode esperar um jogador com "muita raça", disposto a participar das ações ofensivas e também a contribuir defensivamente.
A entrega, segundo ele, é uma característica que não pretende abrir mão durante a caminhada no clube.
— Podem esperar que eu sou um jogador bem agressivo. Se eu tiver que dar a minha vida pelo São Paulo, eu vou dar. Entrega não vai faltar da minha parte, dos meus colegas não vai faltar, de todo o staff do clube também.
A noite que mudou a vida
A história que acompanha Cauan começou na madrugada de 8 de fevereiro de 2019. Aos 14 anos, ele estava no alojamento das categorias de base do Flamengo, onde morava há poucos meses, quando acordou com o fogo já dentro do quarto.
— Eu lembro que estava chovendo bastante e a gente tinha ido dormir muito tarde. Acordei já com a quentura no meu rosto. Procurando alguma saída, vi que não dava para sair pela porta principal. Estava muito quente, o fogo já estava muito acumulado — recorda.
Cauan conseguiu quebrar o vidro e escapar pela janela. Também ajudou outros companheiros a deixar o local. Dez jovens morreram naquela noite. Ele, Francisco Dyogo e Jhonata Ventura tiveram ferimentos e sobreviveram. Outros 13 atletas escaparam sem lesões físicas graves.
— Graças a Deus tive força. Não deixei que o medo me levasse a algo pior e, graças a Deus, consegui quebrar a janela. Salvei meus amigos. Acho que o meu propósito foi feito naquele dia: ter me salvado e ter salvado meus colegas — disse.
Ele ainda mantém contato com alguns dos sobreviventes, sobretudo com Ventura, que sofreu queimaduras em grande parte do corpo e hoje atua como scout do Flamengo.
— Eu tenho um contato ainda com eles. Tenho um contato com o Jhonata, que ficou com 40% do corpo queimado. A gente sempre tenta se falar, sempre tenta conversar, perguntar como está, porque a vida é muito curta — disse.
Os nomes que leva para o campo
A lembrança dos amigos que partiram também está eternizada na pele. Cauan tatuou os nomes dos dez companheiros que morreram no incêndio.
— Me senti na obrigação de registrar todos os nomes dos meus companheiros que faleceram [...] Acho que o meu dever hoje, como ser humano, é jogar por eles, é mostrar para as famílias [das vítimas] que eles fazem parte da minha vida. Eles fizeram parte da minha evolução lá no clube e vai estar sempre registrado, não tenho dúvida disso. Sempre vou lutar por eles, sempre vou jogar por eles — afirma.

As marcas que ficaram
Depois do incêndio, voltar ao alojamento era impossível. O trauma fez com que Cauan pedisse ao Flamengo que disponibilizasse um apartamento para que pudesse morar com a família. O pedido foi atendido.
No entanto, as lembranças daquela noite seguiram frescas na memória de Cauan, que precisou lidar com as consequências psicológicas da experiência para seguir a carreira. Hoje, mantém acompanhamento com uma psicóloga que já o acompanhava em Fortaleza e que continua auxiliando no processo.
— Hoje tenho um acompanhamento psicológico, com a minha psicóloga que é de Fortaleza. Sou muito grato a ela, vem me ajudando bastante, também dentro dos gramados, a passar mais confiança, a lidar com qualquer tipo de pressão, a lidar com torcida — destacou.
O trabalho tem sido importante para recuperar a confiança e para que o jogador consiga novamente conviver com ambientes que, no passado, estavam associados ao trauma. Morar longe da família, dividir alojamento com outros atletas e passar boa parte do dia dentro de um centro de treinamento são situações que precisaram ser reconstruídas.
— Teve uma época que eu quis abandonar os gramados. Fiquei muito desmotivado, muito traumatizado com tudo. O meu filho é o meu maior combustível de estar aqui hoje — afirma o jovem.
A distância da família ainda pesa. A mais de 4,4 mil quilômetros longe de casa, Cauan conta que sente falta do filho de quatro anos, do pai e das pessoas que considera mais próximas.

— Passa um filme na minha cabeça. Fico até sem palavras de falar, porque é algo que mexe muito comigo. Estar longe da minha família, longe do meu filho, algo que mexe bastante — disse, emocionado.
Um sonho que ainda está sendo escrito
O primeiro capítulo de sua nova história, agora com a camisa rubro-verde, começou com gol e título. Aos 22 anos, depois de tantos recomeços, ele agarra a oportunidade que aparece como uma chance de voltar a projetar a carreira. O objetivo imediato é ajudar o Leão do Parque a conquistar o acesso. O sonho, porém, vai muito além.
— Eu espero ter uma boa projeção aqui no São Paulo, espero subir, fazer uma boa temporada, poder fazer bastantes gols, contribuir com assistência, contribuir na parte defensiva, na parte do ataque e alcançar voos maiores [...] Meu sonho é poder chegar à Europa, ajudar minha família, dar um futuro melhor para o meu filho — destaca.
A temporada do Leão

Um dos clubes mais tradicionais do futebol gaúcho, o São Paulo esteve no Gauchão entre 2014 e 2018, quando foi rebaixado. Em 2022, veio a segunda queda, dessa vez para a Terceirona.
Pelo quarto ano consecutivo, o Leão do Parque vai disputar a última divisão do futebol gaúcho. O Rubro-Verde, comandado por Fábio Recife, estreia na competição no domingo (6), quando recebe o Cruz Alta, no Aldo Dapuzzo.
Antes disso, o São Paulo já garantiu a primeira taça do ano. A equipe venceu os rivais Rio Grande e Riograndense e conquistou o título citadino. Com a conquista, ganhou a vaga na final da Copa Internacional Cidade do Rio Grande, que será disputada contra o Cerro Largo, do Uruguai, ainda em setembro.
Fique informado sobre o que acontece na região sul do Estado! Siga @gzhzonasul no Instagram e no Facebook, e inscreva-se no canal do WhatsApp para receber notícias em seu celular: gzh.rs/canalgzhzs.


