
Primeira mulher a presidir o Conselho Deliberativo do Brasil de Pelotas, Laura Quevedo, é uma das protagonistas da transição do Xavante para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Figura central na condução do processo com conselheiros e sócios ela foi eleita em setembro de 2025 mudando uma realidade até então predominantemente masculina.
— Me senti muito respeitada com o convite das pessoas que estavam envolvidas para que eu fosse a presidente. E, para o clube, sinto como um peso gigantesco, porque um clube centenário nunca teve uma mulher nesse cargo — destaca a presidente.
Segundo ela, a presença feminina na presidência do Conselho reflete uma mudança cultural dentro da instituição:
— Eu sou uma consequência de tudo que várias mulheres trabalharam para que a gente chegasse até esse dia. Tem uma realização pessoal de reconhecimento e respeito pelo que o cargo pede, mas também de uma transformação histórica para o clube.
Da arquibancada à presidência
A relação de Laura com o Brasil começou ainda na adolescência. Sem tradição familiar de frequentar estádios, ela conheceu o clube aos 14 anos e rapidamente se identificou com o ambiente do Bento Freitas.
— A primeira vez que eu entrei na Baixada ouvi a chamada da Garra (torcida organizada), aquelas batidinhas no começo do jogo. Naquele momento meu corpo se arrepiou completamente e eu vi que era ali o meu lugar — relembra.
A aproximação com a gestão do clube aconteceu anos depois, de forma inesperada. Em 2021, Laura foi ao estádio para ajudar em uma ação voluntária de limpeza e acabou convidada para integrar o Conselho Deliberativo.
Na ocasião, atuou na eleição da executiva, o que abriu caminho para novas funções dentro do CD, passando pela secretaria e vice-presidência até receber o convite para liderar uma chapa para a presidência do Conselho.
— Confesso que não queria no começo, mas acabei aceitando pelo que nos move. Todos estão ali para doar um pouco do que têm para o clube — explica.
Papel decisivo na SAF
A presidência coincidiu com a transição para a SAF, um dos momentos mais importantes da história do Brasil. O processo começou anos antes, dentro do próprio Conselho Deliberativo, com a criação de um grupo de trabalho dedicado ao estudo do modelo.
— Esse processo da SAF nasceu no Conselho Deliberativo por meio de um grupo de trabalho que fez estudos, cursos e analisou outras SAFs pelo Brasil. É um processo que vem desde o final de 2021 e foi feito com muito cuidado e respeito a todas as etapas — explica.
De acordo com Laura, o Conselho teve papel central em todas as fases da transformação institucional:
— O Conselho Deliberativo tem um papel decisivo, eu diria até crucial, dentro de toda essa transformação, desde os primeiros estudos até a viabilização dos processos.
Ao assumir a presidência, ela passou a acompanhar de perto as negociações finais com investidores e a conduzir votações importantes dentro do órgão.
— Eu conduzi as votações no Conselho e na assembleia e mergulhei nesse contrato para entender todos os detalhes. As pessoas confiaram muito em mim para ser a porta-voz desse processo e esclarecer as dúvidas dos conselheiros — relata.
A etapa final para a conclusão da operação depende da aprovação da Assembleia Geral de sócios. A reunião ocorre na segunda-feira (9), no Bento Freitas, com a primeira chamada às 19h e a segunda às 19h30min.
— O próximo passo é a assembleia. Se ela referendar o processo, a operação estará concluída e apenas restará a formalização do contrato com a empresa da SAF (Consórcio Xavante) — explica a presidente.
Para Laura, o momento mais marcante de todo o processo ocorreu ainda em outubro do ano passado, quando tinha menos de um mês na presidência. Na ocasião, ela foi a responsável por anunciar oficialmente a aprovação da proposta vinculante para a transformação do clube em SAF:
— Quando eu vi o rosto das pessoas no estádio, a esperança no olhar delas, algumas chorando, algumas me abraçando, foi muito marcante. Teve gente dizendo: ‘meu filho vai ter um Brasil para torcer’. Ver a felicidade e a esperança das pessoas foi o momento mais forte para mim.
Liderança em um ambiente masculino
Para a presidente, conduzir um processo tão delicado exige não apenas conhecimento institucional, mas também preparo para lidar com desafios que ainda marcam a presença feminina no futebol.
— Existe um padrão cultural que ainda reflete um machismo estrutural. A condução de decisões por uma mulher muitas vezes é observada de maneira diferente — afirma.
Mesmo diante desse cenário, Laura afirma sentir apoio dentro do clube e espera que sua passagem pela presidência do Conselho represente um passo importante para ampliar a presença feminina no Xavante.
— Espero que eu não seja a única mulher a ocupar um cargo desses no meu clube. Espero que venham várias outras mulheres — diz.
Para ela, a transformação passa por reconhecer que o futebol também é um espaço feminino.
— O legado que eu espero deixar é de respeito às pessoas e de mostrar que o futebol tem espaço para todas as mulheres, tanto na arquibancada quanto no administrativo. Espero que as meninas que estejam na arquibancada hoje, me vendo lá na frente, percebam que aquele espaço também é delas e que possam chegar a posições de decisão no futebol.
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