No remo desde 2022, João Milgarejo enfrentava o momento mais difícil da sua vida há exato um ano. Ele foi o único sobrevivente do acidente que matou nove pessoas do projeto Remar para o Futuro, na BR-376, no Paraná. Desde então, o jovem de 18 anos carrega nas remadas a memória dos amigos que partiram.
— A cada passo que eu dou, eles vão estar comigo — diz o atleta, que voltou a competir e a representar o projeto que o formou no esporte e na vida.
Lembranças do primeiro brasileiro
Antes da tragédia, Milgarejo vivia o auge da preparação para seu primeiro Campeonato Brasileiro. Ele lembra do nervosismo e da pressão por competir pela primeira vez em nível nacional.
— Foi mais tenso, porque foi meu primeiro brasileiro. Foi uma preparação bem pesada, porque eu nunca tinha passado por aquela preparação até aquela época.
Durante os treinos, o atleta se concentrava ao extremo:
— Eu começo a ficar estressado quando estou começando a entrar em modo de competição. Eu começo a me fechar e começo a preparar a cabeça, o corpo, tudo.
Ele destaca que o foco foi uma das virtudes ensinadas pelo treinador Oguener Tissot — uma das vítimas do acidente.
— O Oguener sempre falava: "Foquem no objetivo de vocês, não se distraiam". Então, nas competições eu ficava muito sério e ranzinza e a diversão deles era mexer comigo — conta.
Apesar da tensão, ele lembra com carinho dos colegas de barco e da união do grupo.
— Estar com eles me ajudava muito, principalmente o (João) Kerchiner, que eu sentia que era como um irmão pra mim. Todo mundo ali era uma família — relembra.
O esforço da equipe foi recompensado. O Remar para o Futuro conquistou sete medalhas, inclusive o ouro na categoria four stiff.
— A competição foi bem significativa, tanto que a gente veio com o ouro para cá. Tinham dois do barco que estavam há pouco tempo (no Remar) e a gente conseguiu ganhar o brasileiro com pouco tempo de remo. Isso é uma coisa que poucas pessoas fazem — conta, com orgulho, Milgarejo.
A tragédia e a sobrevivência
A volta para casa, depois da conquista, terminou em tragédia. A van em que a equipe viajava foi atingida por uma carreta na descida da Serra de Guaratuba, no Paraná. O veículo ficou completamente destruído.
Único sobrevivente, Milgarejo conta que as lembranças do acidente ainda o acompanham e que considera um milagre divino ainda estar vivo:
— Eu sinto que foi a minha segunda chance. (...) Quando eu estava lá nos escombros da van, que tava tudo amassado, eu pensei: "Nossa, meu Pai me ajudou agora, ele me protegeu nesse momento".
A imagem do que restou do veículo impressiona o atleta até hoje.
— Se tu vai ver as fotos da van, não tem como alguém sobreviver aquilo. É coisa de Deus, porque a van estava amassada que nem uma lata — conta.
O retorno ao brasileiro
Para honrar as vítimas e ocupar a mente, Milgarejo retornou aos treinamentos semanas após o acidente. Mas voltar à água para competir no mesmo campeonato brasileiro foi mais difícil:
— Sinceramente, eu nem queria ir pra esse brasileiro — confessa.
Contudo, o amigo Piedro Tuchtenhagen, ex-atleta do projeto, o convenceu:
— Ele disse: "Cara, vai nessa competição, vai pelos mais novos, é o primeiro brasileiro deles". E então eu fui por eles.

Na competição, Milgarejo fez parte da primeira equipe do Remar que disputou a categoria 8+ — com oito atletas no barco com um remo cada e timoneiro. A prova era um sonho do treinador Oguener Tissot, que sempre lutou para que o projeto estivesse nesta faixa.
Mesmo na estreia, o Remar conseguiu o quarto lugar na final. Milgarejo conta que a prova foi carregada de emoção:
— Quando eu estava remando e passou dos mil metros, eu comecei a chorar. Comecei a lembrar deles e fiquei ofegante, de felicidade e tristeza, de tudo. Pensei: cara, eu tô aqui de novo, tô aqui agora por eles e por mim também.
O legado e a missão de seguir
Um dos mais experientes da atual equipe, o atleta sente que carrega uma responsabilidade maior do que o próprio remo.
— Eu sinto que eu tenho essa missão aqui de continuar o legado do Oguener, de tudo que ele deixa pra trás — afirma.
Hoje, ele compartilha o que aprendeu com os mais novos do projeto:
— Eu passo minhas experiências pra eles, tudo que o Kerchiner e todo mundo me ensinou. O projeto ainda quer seguir o legado deles. Mesmo nas piores condições, a gente sempre tenta achar um jeito.
Na última competição, Milgarejo prestou uma homenagem aos amigos que se foram.
— Eu fiz uma camisa com o nome deles e escrevi que, mesmo eles estando lá em cima, a memória deles nunca some — conta.
Um ano depois, João Milgarejo segue nas águas com a mesma fé e o mesmo propósito que o mantiveram vivo: honrar a memória dos que se foram e mostrar que o legado deles continua.

