
Há um ano, o silêncio tomou conta das águas do Arroio Pelotas. Naquele 20 de outubro de 2024, a van que levava sete integrantes do Remar para o Futuro não completou a viagem de retorno de São Paulo, onde o grupo participou do Campeonato Brasileiro de Remo.
O acidente tirou a vida de sete jovens, do treinador Oguener Tissot e do motorista Ricardo Leal da Cunha, deixando uma cidade inteira em luto e um projeto social que vivia o seu auge com a necessidade de recomeçar.
Hoje, às vésperas de completar 10 anos de existência, o Remar para o Futuro segue de pé com a mesma determinação que sempre o moveu: transformar a vida de jovens por meio do esporte.

Rotina retomada com força e disciplina
De segunda a sábado, cerca de 40 jovens de escolas públicas voltaram a ocupar o espaço do projeto, que funciona em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Prefeitura de Pelotas e o Centro Português 1º de Dezembro, que cede a área às margens do arroio. Os treinos acontecem no turno inverso ao escolar, sob a supervisão do coordenador Fabricio Boscolo e de outros dois treinadores.
Os alunos são divididos em três grupos — aspirantes, pré-equipe e equipe principal. Os aspirantes são os iniciantes, que ainda aprendem o gesto técnico do remo; a pré-equipe é composta por quem já domina parte da técnica e avança no desenvolvimento; e a equipe reúne os jovens mais experientes, que representam o projeto em competições.
O avanço entre as categorias é gradual e depende do amadurecimento individual de cada aluno.
— Em dois anos, alguns já alcançam o nível de equipe oficial. Mas o mais importante não é o tempo. É o comprometimento, o comportamento e o desejo de seguir remando — explica Anelita Michelini, administradora do projeto.

Ano de transição
A temporada de 2025 foi encarada como um ano de reconstrução, conforme define Boscolo. A meta principal foi manter viva a rotina, o vínculo entre os jovens e o sentimento de pertencimento ao projeto.
— Reconstrução porque fomos destruídos, completamente destruídos. Então, 2025 foi um ano no qual nós nos dedicamos a reconstruir nossas relações, nossos processos, nossos cotidianos e nossos vínculos — explica o coordenador.
Mesmo sem cobranças por resultados, os atletas surpreenderam. Em junho, o Remar para o Futuro participou do Regari, um campeonato de remo indoor realizado em Porto Alegre. A competição, disputada em ergômetros, serviu como reintrodução ao ambiente esportivo — leve, segura e em clima de integração.
— Levamos aspirantes, pré-equipe e equipe. Era para ser uma participação simbólica, mas eles ficaram em segundo lugar, por uma medalha de prata. Foi incrível — relembra Anelita.
Meses depois, o grupo encarou um novo desafio: o Campeonato Brasileiro de Barcos Longos, no Rio de Janeiro. Onze jovens, a maioria adolescentes que nunca haviam saído de Pelotas, competiram contra gigantes do remo nacional como Flamengo, Vasco, Botafogo e Grêmio Náutico União.
— Eles foram lá para viver a experiência, não para vencer. E brilharam — conta.
Oito remadores do projeto formaram o barco que era o sonho do técnico Oguener: um "oito" competindo em nível nacional. Após a classificação para decisão pela foto, com diferença de milímetros para o Grêmio Naútico União, a equipe ficou em quarto lugar nacional.
Além do quarto lugar, o resultado foi histórico para o Remar. Brenda Madruga, que também estava na delegação da equipe em 2024, conquistou o bronze no 2x Sub-23, enquanto outros sete ex-atletas do projeto também subiram ao pódio.
Fora da água, a competição foi marcada por uma homenagem à Oguener Tissot — que completaria 44 anos no dia das finais do campeonato nacional, em 12 de outubro. A Federação Brasileira de Remo (FBR) entregou ao projeto uma placa em alusão à memória do treinador.

Realidade do Remar
Apesar das conquistas, o cotidiano do projeto ainda é desafiador. O Remar para o Futuro sobrevive de parcerias e doações, com uma rede de profissionais voluntários que garantem atendimentos médicos, fisioterápicos e nutricionais. A Unimed foi uma das poucas instituições que ofereceram ajuda direta após o acidente, financiando a construção de uma nova rampa de acesso ao arroio — essencial para os treinos — e fornecendo lanches para os atletas.

O Remar também conta com o apoio do Pró-Esporte, do governo estadual. Neste ano, o aporte do programa foi de R$ 250 mil.
Do governo federal, o projeto recebeu, no primeiro semestre, R$ 753 mil via Ministério do Esporte. O valor garantiu o pagamento dos treinadores até 2026 e custeou uniformes, coletes salva-vidas e pequenas reformas. Mas o montante tem destinação específica e não cobre despesas diárias, como transporte, alimentação, inscrições em campeonatos ou manutenção de equipamentos.
— Continuamos com muitas necessidades básicas, desde produtos de limpeza até recursos para as viagens. A cada competição, fazemos ações para arrecadar o necessário — relata Anelita.
A última ação do projeto para arrecadar recursos foi em setembro, quando foi realizada uma feijoada para custear o transporte até Porto Alegre para pegar o avião rumo ao Campeonato Brasileiro, já que os patrocínios cobriam somente as despesas aéreas.
O que ainda falta
Entre as principais demandas, estão novos barcos e remos ergômetros, equipamentos usados nos treinos.
— Precisamos de pelo menos 15 remos ergômetros Concept, que custam cerca de R$ 16 mil cada. Os nossos estão muito desgastados — explica Anelita.
Grande parte dos barcos são resultados de doações e também necessitam de reparos ou substituição.

O apoio financeiro da prefeitura de Pelotas, que antes era de cerca de R$ 10 mil mensais e estava vinculado à antiga Academia de Oguener Tissot, foi interrompido após a tragédia. A renovação do convênio ainda não foi efetivada por entraves burocráticos.
Mesmo assim, a parceria com a prefeitura se mantém em outras frentes: o município permite a divulgação do projeto nas escolas públicas e oferece passe escolar gratuito aos jovens que participam das atividades.
Dez anos de história
O projeto completa 10 anos em 30 de outubro. A proximidade da data com o aniversário do acidente torna a celebração simbólica e delicada. Mesmo assim, o Remar considera importante marcar o momento, não como uma festa, mas como um gesto de resistência e continuidade:
— Comemorar o Remar para o Futuro é honrar eles, é honrar o Oguener, a pessoa que ele era, o treinador que ele era — diz Anelita.
A administradora reforça que a história do projeto é feita de superação, e chegar à marca de uma década é, por si só, uma vitória. Depois de um ano de reconstrução, o grupo se mantém ativo, revelando novos talentos e preservando a memória dos que partiram.
Futuro do projeto
— O Oguener sempre foi um irmão pra mim — resume Fabricio Boscolo. — O meu propósito no Remar para o Futuro é continuar o legado do Oguener, realizar os sonhos que o Oguener tinha para o Remar para o Futuro.
Para o futuro, a meta é direcionar o projeto para fortalecer a formação dos atletas.
— 2026 tem a perspectiva de direcionamento, realinhamento dos nossos barcos, para que a gente possa ter uma reta muito bem planejada e que possa ser coberta a partir de esforços multilaterais.
Segundo Boscolo, os recursos destinados pelo Ministério do Esporte estão sendo aplicados em reformas, uniformes, equipamentos e a remuneração da equipe.
— Durante todo o ano de 2025 e durante todo o ano de 2026 nós teremos recursos disponíveis para pagar a equipe técnica, o que sempre foi um grande desafio para o Remar para o Futuro.
O coordenador também ressalta a importância da retomada do convênio do Remar para o Futuro com a prefeitura.
— Como o Remar para o Futuro é um projeto que leva o nome da cidade no peito, nós temos o desejo e a expectativa de que este convênio com a prefeitura seja formalizado o mais rápido possível — afirma.
Como foi o acidente
Os atletas estavam retornando para Pelotas após participarem do Campeonato Brasileiro de Remo, em São Paulo. No torneio, a equipe que representou o Clube Centro Português 1º de Dezembro conquistou sete medalhas e ficou em sexto lugar geral entre 30 participantes.
A tragédia ocorreu na BR-376, nas proximidades de Guaratuba, no Paraná. Nove pessoas morreram após um caminhão colidir com a van de turismo onde estava a equipe do projeto Remar para o Futuro na noite do dia 20 de outubro. Sete jovens, com idades entre 17 e 21 anos, perderam a vida, além do motorista do veículo e do treinador.
O acidente vitimou os atletas Angel Souto Vidal, 16 anos, Helen Belony, 20, Henri Fontoura Guimarães, 17, João Pedro Kerchiner da Silva, 17, Nicole da Cruz, 15, Samuel Benites Lopes, 15, Vitor Fernandes Camargo, 17. O treinador Oguener Tissot, 43, e o motorista Ricardo Leal da Cunha, 52, também morreram.
O motorista do caminhão que causou a colisão foi indiciado por homicídio culposo na direção de veículo automotor, conforme o artigo 302 do Código de Trânsito Brasileiro. A pena pode chegar a até quatro anos de prisão, além da suspensão ou proibição de obter a habilitação para dirigir. O proprietário do caminhão também foi indiciado por homicídio culposo.


