Com 19 anos, Brenda Madruga Freitas é a atleta mais experiente do Remar para o Futuro e uma das principais promessas do remo brasileiro. No projeto desde 2020, ela cresceu nas águas do Arroio Pelotas, se tornou referência para os mais jovens e, neste ano, voltou ao pódio nacional.
Um ano depois do acidente que vitimou sete colegas e o técnico Oguener Tissot, Brenda tenta transformar a dor em propósito. Ela fazia parte da delegação que havia disputado o Campeonato Brasileiro, mas retornou a Pelotas dois dias antes da tragédia com a equipe devido a uma forte crise de ansiedade.
— Eu já vinha enfrentando alguns problemas de saúde mental e, no meio de 2024, fui diagnosticada com depressão profunda. Tinha crises de ansiedade e de pânico — conta.
Brenda explica que o esgotamento começou meses antes, durante o camping do Mundial de Remo, no Canadá, para o qual havia sido convocada.
— Eu tive uma crise e voltei antes, porque eu não estava bem lá — lembra.
No campeonato em São Paulo, as crises voltaram com mais força, e uma conversa com a mãe e com o técnico decidiu o seu retorno.
— Ele (Oguener) disse que a melhor decisão seria eu voltar para Pelotas, porque eu não tinha condição de ficar lá — recorda.
A despedida foi dolorosa:
— Eu lembro de chorar muito no colo do Henry — diz sobre o namorado, também remador.
A volta dois dias antes
Brenda deixou a competição entre lágrimas e abraços. Lembra da amiga Helen, que raramente chorava, com os olhos marejados ao se despedir. Ela resume que a decisão foi uma das mais marcantes na sua vida.
Dois dias depois, o ônibus da equipe se acidentou na BR-376, em Guaratuba, no Paraná, tirando a vida de nove pessoas — entre elas o técnico, o namorado Henry Fontoura e outros seis companheiros de remo.
Por meses, ela conviveu com a culpa e as perguntas que jamais terão resposta.
— Eu pensava que eu tinha que estar naquela van. Achava injusto. Por muito tempo pensei que podia ter feito algo diferente — diz.
O grupo deixaria o local apenas na segunda-feira, mas o técnico decidiu antecipar a viagem:
— O Oguener queria muito ir embora, estava muito estressado e foi no domingo. A gente sempre fica com essas perguntas, mas não tem respostas — lamenta.
O que a consola é a fé e a frase do pai, que se repetiu em sua cabeça inúmeras vezes:
— No meio de toda a desgraça, Deus me deu um sinal de que aqui é a minha proposta na Terra, que eu não estava no ciclo deles.
O sonho
Na noite do acidente, Brenda teve um sonho que até hoje a emociona. Nele, todos os atletas que estavam na viagem remavam juntos em um galpão cheio de remo ergômetros.
— Eu olhei pra trás e vi três separados: eu, o Milga (João Milgarejo) e a minha mãe. Perguntei para o Oguener se a gente podia remar e ele disse que sim. Quando acordei, eu tive a notícia do acidente — conta.
A notícia veio às 7h30min da manhã seguinte. Sem entender a dimensão do ocorrido, Brenda entrou em desespero.
— Eu enlouqueci, mandava mensagem em tudo que é grupo, pedi para as pessoas pararem de postar coisa de luto, porque eu achava que tinha recém acontecido — lembra.
A jovem conta que só no velório a realidade se impôs:
— Quando eu vi os caixões indo, caiu a ficha. Pensei: "agora não tem mais volta, eles não vão mais voltar". E isso me tirou o chão.
O luto

Brenda e Henry estavam juntos havia pouco mais de um ano. Além do namoro, dividiam o amor pelo esporte e a rotina de treinos. Desde então, ela passou a carregar objetos que mantêm o vínculo simbólico com o namorado.
— Eu sempre carrego a corrente dele, que era uma proteção que ele tinha, e a aliança dele. Gosto de sentir que ele tá comigo, me protegendo do jeito que sempre fazia — diz.
Mesmo um ano depois, a saudade ainda é diária.
— Eu sinto muita, muita falta dele. A gente ficou pouco tempo juntos, um ano e quatro meses, mas ele era meu porto seguro — conta.
O retorno ao remo
Nos primeiros dois meses após a tragédia, Brenda se afastou completamente do esporte e do projeto:
— Eu me negava a estar aqui dentro. Pensava que as pessoas que eu queria ver não iam mais estar lá, e isso foi tomando conta da minha cabeça — conta.
Mas o tempo e o apoio da equipe do Remar para o Futuro a convenceram a tentar novamente e, em dezembro, a atleta voltou às águas do Arroio Pelotas:
— Pensei que devia dar uma segunda chance. No Remar eu sempre me senti acolhida e bem.
A medalha da superação
Em 12 de outubro — dia em que Oguener completaria 44 anos — Brenda retornou ao mesmo campeonato que antecedeu a tragédia. Representando o Remar para o Futuro, conquistou a medalha de bronze no 2x Sub-23.
Mais do que o resultado, a prova foi carregada de simbolismo:
— Essa medalha de terceiro lugar eu dedico aos meus pais, a Deus, à minha família e a eles (as vítimas). Mas principalmente a mim, por toda a batalha que tenho passado e por conseguir vencer cada etapa dessa luta.
Com orgulho, ela diz que vai levar o nome do projeto aonde for.
— Vou levar a bandeira do Remar pra todo lugar que eu puder, para as pessoas verem o lugar de onde eu saí e o lugar que sempre vai ficar no meu coração — afirma.
O luto e o legado
Hoje, Brenda se tornou uma referência dentro do projeto, ajudando a acolher os novos atletas. Ainda assim, a ausência dos antigos companheiros é sentida todos os dias:
— Voltar e ter o salão vazio, sem aquela gritaria, as risadas, me impactou muito.
Em todas as competições, Brenda leva junto a memória dos que partiram:
— Pra todo lugar que eu vou, sempre há alguma coisa que me lembra deles.
Ela admite que, às vezes, busca traços dos amigos perdidos nos novos colegas.
— Alguns têm algumas características deles, mas agora são pessoas novas, com a própria individualidade. Então, eu vou me aproximando com um dentro de cada um — conta.
Um ano após o acidente, a atleta que quase desistiu do remo voltou a ser símbolo de superação e carrega em cada remada o amor, a memória e o legado dos amigos que partiram.

