
O crescimento das compras pela internet vem mudando também a forma como as encomendas chegam aos consumidores. No Rio Grande do Sul, que ocupa a quinta posição entre os estados brasileiros em consumo online, um dos desafios é encontrar alguém disponível para receber os pacotes durante o horário comercial.
Uma alternativa para esse desencontro são os pontos de retirada, estabelecimentos que passaram a receber encomendas, devoluções e até mercadorias de vendedores que comercializam pela internet. Em Pelotas, o modelo já está presente em negócios de diferentes segmentos e foi incorporado à rotina de comerciantes e consumidores.
Para quem passa boa parte do dia fora de casa, a possibilidade de escolher onde retirar o pacote representa mais flexibilidade.
— É porque em casa não dá, não tem porteiro nem nada do tipo, daí fica mais fácil aqui. Eu vim com os horários mais específicos como eu trabalho no setor elétrico é meio um charope de conseguir os horários. Daí eu preciso dessa flexibilidade — conta o técnico de distribuição Natanael Gonçalves.
Movimento para os pequenos negócios
Além da atividade principal, estabelecimentos como uma loja de informática e papelaria e uma oficina de pintura de bicicletas passaram a funcionar como pontos de apoio para consumidores que preferem buscar os produtos em um endereço comercial, em vez de depender da entrega em casa.
O sistema também criou uma nova fonte de receita para os estabelecimentos. A cada encomenda retirada ou devolvida, os pontos recebem remuneração pelo serviço.
Para alguns comerciantes, porém, o principal benefício não está necessariamente no valor pago por pacote. O fluxo de consumidores que passa pelo estabelecimento pode representar uma oportunidade de divulgação do próprio negócio.
— Não é um retorno muito alto, mas o contrapartida nos dá muita visibilidade. Então isso é o que nos interessa, a visibilidade que a gente tem como loja, como a gente trabalha com manutenções e tal. Então isso é o importante para nós, é ter a visibilidade do nosso comércio — afirma o empresário Anderson Pinheiro.
O aumento das compras online tem ampliado esse tipo de operação. Segundo dados citados pelo Mapa da Logística, o recebimento de pacotes de grandes e médias empresas em pontos desse tipo cresceu 53% no país.
Em Pelotas, cinco agências estão cadastradas em plataformas de comércio eletrônico. Em Porto Alegre, são 15.
De atividade complementar a 600 pacotes por dia
Em alguns estabelecimentos, o volume de encomendas deixou de ser complementar e passou a representar uma parcela significativa da movimentação diária.
É o caso do aerografista Marcus Pavulack. O negócio, que antes tinha um movimento mais esporádico, passou a receber consumidores que chegam para retirar ou devolver produtos comprados pela internet.

— O movimento que era esporádico do meu negócio, que é o gênero mesmo que trabalha assim de ser mais esporádico agora aumentou assim tipo cem vezes, entendeu? Porque o pessoal vem aqui pra retirar, pra devolver, pra os vendedores também e aproveitando também a gente já faz muito contato — relata.
O estabelecimento atende diferentes plataformas e atualmente movimenta cerca de 600 pacotes por dia.
A transformação também mudou a própria relação do comerciante com o negócio.
— Hoje o que era um hobby virou uma empresa, agora pode ser que vira um hobby também — brinca Pavulack.
Espaços atendem consumidores e vendedores
A estrutura criada para facilitar a retirada das encomendas passou a desempenhar outras funções na cadeia logística. Além de receber produtos para consumidores e processar devoluções, os estabelecimentos podem servir como pontos de postagem para lojistas que vendem pela internet.
Também funcionam como referência para entregadores que precisam retirar as encomendas e organizar as rotas de trabalho.
Em Pelotas, o entregador Julien Corrêa Costa utiliza os pontos para agilizar o acesso às entregas.
— É mais rápido, a gente chega ali, escaneia o QR Code e aí aparece as rotas pra gente — diz.
O modelo passou a conectar diferentes etapas da operação do comércio eletrônico: o vendedor que precisa enviar o produto, a plataforma responsável pela venda, o entregador e o consumidor que opta por buscar a encomenda em um endereço alternativo.
Ou seja, o que começou como uma solução para evitar entregas frustradas e problemas de horário ganhou novas funções. Para os consumidores, representa uma alternativa à entrega residencial; para os comerciantes, pode significar maior circulação de clientes; e, para a logística, cria novos pontos de apoio em meio ao crescimento das compras pela internet.
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