
Você já imaginou que cerca de 280 sacolas e sacos plásticos poderiam ser transformados em um pufe? O que antes seria descartado no lixo ganha uma nova função pelas mãos dos artistas visuais Carlo Alves e Valmir Lopes.
Em um ateliê instalado no Praça Shopping, em Rio Grande, os dois transformam plásticos, papelão e outros resíduos em móveis, esculturas e peças de decoração. Um dos resultados mais recentes é o Puff Continente, desenvolvido dentro do projeto Merchan Plastic.
O nome da peça foi escolhido por causa das cores que compõem o revestimento, formado pelas diferentes tonalidades das sacolas e dos sacos plásticos utilizados.
O pufe é revestido por uma espécie de lâmina criada a partir da união dos materiais. Para produzir a superfície, os artistas utilizam um ferro de passar roupa e papel-manteiga, sobrepondo pequenas camadas de plástico até formar um material resistente. Depois, aplicam técnicas de estofaria desenvolvidas ao longo dos anos.
— Hoje a gente não sofre aquela reciclagem, que é quando tu pega o material, derrete e transforma. A gente manipula, a gente ressignifica. A gente usa um ferro de passar roupa, papel manteiga e a gente vai fazendo pequenas camadas até criar uma pele. Depois a gente vem e aplica essa pele com as técnicas de estofaria que nós já viemos adquirindo com o tempo — explica Carlo.
Somente no pufe exposto em uma vitrine do shopping foram empregadas cerca de 200 sacolas plásticas e entre 30 e 40 sacos de lixo. Apesar do grande volume inicial, o material fica bastante fino depois de submetido ao processo.
— Então para desenvolver um móvel pequeno, que é um pufe de pneu, a gente tem em volta ali de 280 peças plásticas que a gente tirou do meio ambiente e transformou nos imobiliários — afirma o artista.
Do descarte à arte
O interesse pelo plástico surgiu a partir da observação dos resíduos gerados diariamente no próprio shopping. Carlo, que também é funcionário administrativo do empreendimento, conta que percebeu que, além das sacolas, uma quantidade significativa de papelão era descartada pelo cinema e pelos estabelecimentos comerciais.
A partir disso, ele decidiu unir o projeto artístico ao trabalho no shopping. Os materiais passaram a servir como matéria-prima para cenários e decorações de campanhas sazonais, como Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais e Natal.
— O shopping tem um grande descarte de materiais como papelão e plásticos. Hoje, pela pesquisa que a gente faz, a gente está sempre pesquisando a respeito do descarte dentro do meio ambiente. Então, o plástico hoje é o mais agressivo e o que demora mais tempo para se degradar — diz Carlo.
Na elaboração das peças tridimensionais, o papelão normalmente é utilizado como estrutura. Depois, recebe revestimentos que escondem a aparência original e dão uma nova identidade ao resíduo.
— Apesar de nós trabalharmos com lixo, que é o nosso carro-chefe, a gente transforma o material e dá uma segunda linguagem para ele — resume.
O processo não envolve apenas criatividade. Como os materiais são aquecidos e manipulados, os artistas também pesquisam a composição química de cada resíduo e os possíveis riscos relacionados à liberação de gases.
— Então, existe, antes de qualquer manipulação, uma pesquisa sobre a composição química e o que afeta no nosso organismo tal material, porque a gente aquece, a gente manipula, a gente trabalha com esses materiais — explica Carlo.
Parceria começou em 2011

Carlo e Valmir trabalham juntos desde 2011. A parceria começou pelo interesse em comum no reaproveitamento de materiais e avançou, gradualmente, da estofaria para a produção de objetos decorativos, cenários e esculturas tridimensionais.
— Começamos lá em 2011, foi quando a gente começou a trabalhar junto. Então foi assim, na verdade foi um amor à primeira vista, por quê? Porque a gente, os dois gostavam, né, das mesmas coisas, assim, de trabalhar com esse material reaproveitado, né, e aí a gente começou a fazer algumas peças, no início muito devagar, assim, não agilizamos muito, mas fomos em frente e foi indo, né, e aí a gente foi, passou da estofaria, passou pra outras peças, depois decoração, em shopping, enfim — conta Valmir.
Atualmente, os dois mantêm o ateliê dentro do Praça Shopping. Além de desenvolver as campanhas publicitárias do empreendimento, recebem diariamente novos resíduos que podem ser pesquisados e incorporados aos projetos.
— É muito gratificante trabalhar no shopping, porque aqui o descarte é diário e todos os dias tem material novo chegando para a gente estudar e compor as peças — destaca Carlo.
O trabalho também é realizado para clientes externos. A dupla já desenvolveu decorações para a Festa da Melancia, no terceiro distrito de Rio Grande, para a Festa da Terneira e para o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), além de outras ações e cenografias.
Projeto pode chegar a São Paulo
A pesquisa com resíduos plásticos também deverá resultar em uma inscrição na Bienal do Lixo, realizada em São Paulo. A intenção é apresentar móveis e peças decorativas desenvolvidos com materiais descartados no Praça Shopping.
— A ideia é transformar essa pesquisa de resíduos polímeros plásticos, em materiais tanto no mobiliário quanto peças decorativas para fazer essa inscrição para a Bienal — afirma Carlo.
Segundo o artista, o objetivo é levar a experiência desenvolvida em Rio Grande para a exposição nacional.
— Então a ideia é levar esse material aqui do Praça Shopping para São Paulo para participar dessa Bienal que é tão importante para nós — finaliza.
O trabalho da dupla pode ser acompanhado pelo perfil Estúdio Carlo Alves, no Instagram. A página reúne produções de cenografia, mascotes, objetos tridimensionais, arte e design de produtos.
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