Entre quindins, camafeus, ninhos e pastéis de Santa Clara, a rotina da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas vai muito além da produção e da venda de doces. Criada em 1981, a entidade nasceu da união de mulheres que decidiram transformar uma crise em oportunidade e, mais de quatro décadas depois, segue como exemplo de cooperativismo, geração de renda e preservação de um dos maiores patrimônios culturais da cidade.
Fundada após o fechamento da tradicional Confeitaria Nogueira, a cooperativa permitiu que dezenas de doceiras mantivessem o trabalho e a tradição da confeitaria pelotense. Hoje, cerca de 40 cooperadas continuam produzindo e comercializando os doces tradicionais de Pelotas, reconhecidos como patrimônio cultural e um dos principais atrativos turísticos do município.

Da necessidade nasceu a união
A cooperativa surgiu em um momento de incerteza. Com o encerramento das atividades da confeitaria, aproximadamente 115 mulheres que trabalhavam no local decidiram unir conhecimento, receitas e experiência para seguir produzindo.
Ao longo dos anos, parte das cooperadas deixou a atividade, novas integrantes passaram a fazer parte da entidade e diferentes gerações assumiram o trabalho. O princípio, porém, permaneceu o mesmo: fortalecer o negócio por meio da cooperação.
— Muitas famílias foram sustentadas através desse trabalho. Os doces garantiram estudo para filhos, ajudaram na renda das casas e permitiram que muitas mulheres conquistassem independência financeira — afirma Lígia Maria Ribeiro, cooperada da entidade.

Atualmente, o funcionamento é coletivo. As doceiras produzem os doces em suas cozinhas e os encaminham para comercialização na loja da cooperativa, localizada na Rua do Doce, no Calçadão da Sete de Setembro. Enquanto algumas cooperadas se dedicam exclusivamente à produção, outras trabalham no atendimento ao público.
Trabalho que atravessa gerações
Mais do que organizar a comercialização, o modelo cooperativista ajudou a preservar receitas transmitidas entre gerações.
Mesmo com adaptações às normas sanitárias e às mudanças do mercado, os métodos de preparo seguem baseados na tradição familiar que tornou Pelotas uma referência nacional na produção de doces.
— Não é apenas vender um produto. Cada doce carrega uma história — destaca Lígia.
A permanência desse conhecimento, no entanto, depende do interesse das novas gerações.
A gente espera que as pessoas mais jovens continuem valorizando esse conhecimento. São receitas que não podem se perder
LÍGIA MARIA RIBEIRO
Cooperativa dos Doceiros de Pelotas
Loja virou vitrine da tradição pelotense
A sede da cooperativa também se tornou um ponto de encontro entre turistas e moradores.
Diariamente, visitantes de diferentes regiões do país entram na loja para experimentar os doces ou levar caixas como presente. Muitos conheceram a tradição durante a Fenadoce, enquanto outros chegam por indicação de amigos ou familiares.
Durante a reportagem, a pelotense Lilian Nogueira Medina, que atualmente mora em Florianópolis, escolhia doces para levar a colegas de trabalho do Pará e da Bahia.
— Elas não conhecem esse tipo de doce. Estou levando um pouco de cada para experimentarem — contou.
Segundo Lígia, histórias semelhantes fazem parte da rotina.
— Muita gente leva os doces para presentear familiares e amigos. É uma forma de apresentar Pelotas para quem nunca esteve aqui.
Além da venda, o contato com os visitantes também fortalece a divulgação da cultura local.
— A gente conversa bastante. As pessoas querem saber a origem dos doces, como são feitos e por que são tão tradicionais. Não é só uma venda. Existe uma troca muito grande.
Cooperativa se tornou referência cultural e econômica

Instalada atualmente na Rua do Doce, no Centro de Pelotas, a cooperativa consolidou-se como uma das principais referências para quem deseja conhecer a tradição doceira da cidade.
A localização próxima de hotéis, restaurantes e equipamentos culturais ampliou o fluxo de visitantes e fortaleceu o papel da entidade como espaço de valorização da cultura local.
Entre receitas centenárias, histórias compartilhadas e décadas de trabalho coletivo, a Cooperativa dos Doceiros de Pelotas segue demonstrando como o cooperativismo ajudou a preservar um patrimônio cultural enquanto gera trabalho, renda e autonomia para dezenas de mulheres.
— O doce aproxima as pessoas. E talvez seja isso o mais bonito de tudo — resume Lígia.
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