
Maior produtor de cebola do Rio Grande do Sul, São José do Norte iniciou os trabalhos da safra 2026/2027 em meio à expectativa de recuperação dos preços pagos ao produtor. O município concentra cerca de mil agricultores dedicados à cultura e responde pelo sustento de aproximadamente 1,2 mil famílias. Há décadas, a atividade figura entre as principais bases da economia local.
Segundo a Emater, a área prevista para a próxima safra é de 1.530 hectares, o equivalente a cerca de dois mil campos de futebol. Embora expressiva, a projeção representa uma redução de aproximadamente 5% em relação ao ciclo anterior.
A diminuição reflete as dificuldades enfrentadas pelos produtores nos últimos anos, especialmente após uma temporada marcada por boa produtividade, mas baixa rentabilidade.
Plantio ainda está no início
Neste momento, o plantio segue em fase inicial. Conforme a Emater, cerca de 7% da área prevista já recebeu o transplante das mudas, etapa realizada após a produção das plantas em sementeiras.
— A semeadura é realizada em maio e as mudas são transplantadas para o local definitivo em julho. Agora, a situação ainda é de déficit hídrico. A falta de água foi a principal dificuldade no início da safra, mas o problema está sendo contornado com o uso de irrigação nas sementeiras — explica Pedro Farias, engenheiro agrônomo e chefe do escritório municipal da Emater.
Apesar da preocupação inicial com a escassez de chuva, os produtores avaliam que a situação está sob controle e que o desenvolvimento das mudas ocorre dentro da normalidade.
Tradição que atravessa gerações
O clima da região, influenciado pela proximidade da Lagoa dos Patos e do Oceano Atlântico, favorece o desenvolvimento das lavouras. Somado ao conhecimento acumulado por gerações de agricultores, o cenário ajudou a transformar São José do Norte em uma referência nacional na produção da hortaliça.

— A cultura da cebola tem alta importância para São José do Norte devido à tradição de várias décadas na atividade. Inclusive, o município já foi o principal produtor do país — destaca Farias.
A produção movimenta a economia local e influencia diretamente a renda de centenas de famílias ligadas ao setor.
Safra teve produção elevada, mas baixa rentabilidade
A safra passada foi considerada uma das melhores dos últimos anos em termos produtivos. As lavouras apresentaram elevado rendimento e boa qualidade dos bulbos colhidos.
A produtividade média superou 40 toneladas por hectare, resultando em uma produção total de aproximadamente 64 mil toneladas.
Entretanto, os bons resultados obtidos no campo não se refletiram na renda dos agricultores. O excesso de produção em outras regiões do país ampliou a oferta no mercado e derrubou os preços pagos aos produtores.
O principal problema foi a diferença entre o custo de produção e o valor recebido na comercialização.
— Tivemos uma excelente safra tanto em quantidade quanto em qualidade, mas a rentabilidade foi seriamente comprometida pelos baixos preços recebidos — afirma o agrônomo.
Segundo a Emater, enquanto o custo de produção supera R$ 1,30 por quilo, muitos agricultores comercializaram a cebola por menos de R$ 0,50 por quilo durante a última safra.
Além da instabilidade dos preços, os produtores enfrentam dificuldades relacionadas à armazenagem. A falta de estrutura adequada obriga muitos agricultores a vender a produção logo após a colheita, justamente no período de maior oferta e menor valorização do produto.
— Não adianta colher bem e vender abaixo do custo. Hoje, quem não tem estrutura para armazenar a cebola acaba precisando vender logo após a colheita, justo quando há muita oferta no mercado. Esperamos que nesta safra haja um equilíbrio maior entre produção e demanda, permitindo uma remuneração mais justa para o agricultor — afirma o produtor Ildo Mário.
Custos elevados e falta de mão de obra preocupam produtores
Os custos de produção seguem pressionando a atividade. Atualmente, o investimento necessário para cultivar um hectare de cebola ultrapassa R$ 35 mil, considerando despesas com sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, combustível e mão de obra.
Outro desafio enfrentado pelos agricultores é a escassez de trabalhadores qualificados.
— Há baixa disponibilidade de mão de obra e pouca qualificação. Isso tem levado muitos produtores a investir na mecanização das etapas de semeadura, transplante e colheita — ressalta Farias.
Segundo ele, a mecanização vem sendo adotada como alternativa para reduzir custos e minimizar a dependência de trabalhadores em períodos de maior demanda.
Clima será decisivo
Além das questões econômicas, os produtores acompanham com atenção as previsões climáticas para os próximos meses.
A possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño, tradicionalmente associado ao aumento das chuvas no Sul do Brasil, gera preocupação especialmente para o período da colheita.
— A preocupação é que as chuvas ocorram justamente no período da colheita. Após serem arrancados, os bulbos precisam permanecer na lavoura em dias ensolarados para completar o processo de maturação — comenta Pedro.
Apesar das incertezas climáticas, o cenário de mercado é visto com mais otimismo do que no ciclo anterior. A expectativa é de uma redução na oferta nacional e de uma recuperação dos preços pagos ao produtor.
— A expectativa é que o mercado se equilibre e possibilite valores próximos de R$ 2 por quilo ao produtor — projeta o agrônomo.
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