
A proposta do governo dos Estados Unidos de ampliar tarifas sobre produtos importados de dezenas de países, incluindo o Brasil, acendeu um alerta na indústria pesqueira de Rio Grande. O setor avalia que a medida pode comprometer a recuperação das exportações e afetar diretamente um dos principais destinos do pescado produzido no município.
Na terça-feira (2), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) anunciou uma proposta de novas tarifas entre 10% e 12,5% sobre produtos importados de cerca de 60 economias. A justificativa apresentada é ampliar o combate à entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A medida ainda será submetida a consulta pública antes de uma decisão definitiva.
Para as empresas exportadoras da Zona Sul, a possibilidade de uma nova taxação surge em um momento considerado delicado.
Segundo o diretor-presidente da Torquato Pontes Pescados e diretor da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Torquato Pontes Neto, o setor ainda tenta recuperar espaço no mercado norte-americano após as dificuldades enfrentadas no ano passado.
— Estamos em um processo de retomada após o tarifaço do ano passado. Quando você deixa de fornecer para um mercado, os clientes buscam outras alternativas, e a recuperação não acontece automaticamente. Essa possível nova taxação impacta fortemente esse esforço que estamos fazendo para reconquistar espaço — afirma.
Caso a proposta seja aprovada, o pescado brasileiro chegará ao mercado norte-americano com um custo adicional entre 10% e 12,5%.
Mercado americano é considerado estratégico
Para o mercado norte-americano, a Torquato Pontes exporta pescado congelado e eviscerado das espécies corvina e castanha. A operação também inclui o envio, por via aérea, de peixe fresco da espécie peixe-espada.
De acordo com Pontes Neto, os Estados Unidos seguem entre os principais destinos , especialmente diante das restrições enfrentadas em outros mercados internacionais.
— Hoje trabalhamos basicamente com o mercado africano, que possui um valor agregado muito menor. O mercado europeu continua fechado, e os Estados Unidos seguem sendo fundamentais para a atividade — destaca.
A preocupação envolve uma cadeia produtiva relevante para a economia regional. Atualmente, oito indústrias pesqueiras de grande porte operam em Rio Grande e Pelotas, concentrando a maior parte do beneficiamento e das exportações de pescado do Rio Grande do Sul. Juntas, elas empregam cerca de 2,5 mil trabalhadores.
Segundo o empresário, os impactos econômicos podem ser significativos caso a proposta seja confirmada. Dependendo da empresa e do volume exportado, as perdas podem variar entre 30% e 40% do faturamento
O mercado americano é um dos poucos que ainda absorve nossos produtos com valor agregado e em volumes significativos. Qualquer aumento de custo reduz nossa competitividade e pode comprometer contratos já existentes
TORQUATO PONTES NETO
Diretor-presidente da Torquato Pontes Pescados
Em 2025, durante a primeira rodada de tarifas anunciada pelo governo norte-americano, a Torquato Pontes informou que os Estados Unidos representavam cerca de 30% do faturamento total da companhia e aproximadamente 50% das exportações realizadas pela empresa.
Setor aguarda definição
A indústria pesqueira acompanha os desdobramentos da proposta e aguarda uma definição das autoridades norte-americanas sobre a adoção das novas tarifas, prevista para as próximas semanas.
Enquanto isso, empresários avaliam os possíveis reflexos da medida sobre a competitividade do pescado brasileiro no mercado internacional e os impactos para uma cadeia produtiva que tem nas exportações uma de suas principais fontes de receita.
Para o setor, a preocupação vai além das vendas imediatas. A avaliação é de que uma eventual perda de mercado pode gerar efeitos de longo prazo, já que a substituição de fornecedores costuma levar compradores internacionais a buscar novos parceiros comerciais de forma permanente.
— Reconquistar um cliente internacional exige tempo, investimento e confiança. Quando esse espaço é perdido, nem sempre é possível recuperá-lo rapidamente. Por isso, acompanhamos essa discussão com muita preocupação — conclui Pontes Neto.
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