
Cerca de 50 ex-funcionários da antiga rede de Supermercados Pois Pois realizaram uma manifestação, na tarde deste sábado (30), em frente ao prédio que abrigava a matriz da empresa, na Avenida República do Líbano, em Pelotas. Com cartazes e palavras de ordem, o grupo cobrou o pagamento de verbas rescisórias pendentes desde o fechamento abrupto da rede varejista.
A mobilização ocorre logo após reportagem de GZH tornar pública a venda do imóvel pelo Tribanco a um investidor local. O prédio, fechado desde 2016, passa por reformas estruturais nas últimas semanas, o que alertou os antigos trabalhadores.
De acordo com o vice-presidente do Sindicato dos Empregados do Comércio de Pelotas (SECPel), Célio Vieira, as ações na Justiça do Trabalho já foram resolvidas, permitindo a liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do seguro-desemprego na época.
O impasse atual, contudo, tramita em Brasília. Segundo o dirigente, a entidade aguarda o julgamento de um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) envolvendo a disputa do imóvel entre o banco e a massa falida da empresa Irmãos Silva Rocha.
– A gente está pedindo, clamando ao STJ que julgue esse impasse do Banco Tribanco com a massa falida para que o trabalhador possa receber os seus direitos de tantos anos — afirma Vieira.
Se a decisão for favorável à massa falida, os valores devidos podem auxiliar no pagamento aos trabalhadores. Caso o patrimônio seja insuficiente, a assessoria jurídica do sindicato buscará os bens particulares no CPF dos sucessores.
Relatos de uma década de incertezas

Para quem trabalhou na empresa, a espera já dura uma década. A repositora Michele Pereira Cavalheiro, que atuou por quatro anos e meio na filial até o último dia de funcionamento, relata o impacto do fechamento.
— A empresa fechou, faliu, e a gente saiu sem nada, sem direito nenhum. Não recebemos rescisão nem fundo de garantia, saímos com uma mão na frente e outra atrás. Dez anos se passaram, não tivemos nenhum avanço — lamenta Michele.
O cenário é semelhante para Roger Miller, que trabalhou durante 18 anos no Pois Pois, onde começou como empacotador e chegou ao cargo de gerente de compras. Ele relata que a maior parte dos direitos continua retida.
— Queremos alguma resposta. Ficou só os direitos mesmo, os 40% (da multa rescisória) e o que ficou retido. É complicado esperar tanto tempo — resumiu Miller.
Entenda o caso

A dívida trabalhista original é estimada pela administração judicial em mais de R$ 4 milhões, sem contar juro e correção monetária acumulados no período. Até o momento, cerca de 400 ex-funcionários aguardam na fila de credores, tendo recebido apenas 5% do crédito devido com o leilão de outros bens livres da empresa.
O prédio da Avenida República do Líbano foi transferido pela antiga gestão do Pois Pois ao então Banco Triângulo (atual Tribanco) como dação em pagamento para quitar dívidas.
A administração judicial da falência contesta a operação e já obteve decisões favoráveis em primeira e segunda instâncias, que consideraram o imóvel vinculado ao processo de falência. O caso agora aguarda uma decisão definitiva do STJ.
Em nota divulgada nesta semana, o Tribanco confirmou a venda do imóvel para um investidor local, mas alegou obrigações de sigilo e confidencialidade regulatórias para não revelar os valores e as condições comerciais da negociação.
Uma empresa que marcou Pelotas
A trajetória da rede Pois Pois começou em 1969, quando os irmãos Américo, Francisco e Valmir Rocha, com o apoio do pai, Inácio Antônio da Rocha, abriram uma panificadora. O negócio expandiu para minimercados na Cohab Tablada e, em 1980, transformou-se oficialmente no Supermercado Pois Pois.
Nas décadas seguintes, a empresa de administração familiar consolidou-se como uma das principais redes do varejo de Pelotas, expandindo-se com filiais na Cohab Fragata (1981), Guabiroba (1986) e no Centro, na Rua Almirante Barroso (1991). No seu auge, a rede chegou a empregar cerca de 350 funcionários diretos e movimentar uma cadeia de 1,4 mil empregos indiretos na Zona Sul, com forte apelo na compra de hortifrutigranjeiros e carnes de produtores locais.
Os investimentos em modernização seguiram até o final dos anos 2000, incluindo a ampliação da loja da Zona Norte e da Cohab Fragata. A crise financeira que se agravou na década seguinte culminou no encerramento das atividades em 2016, deixando o prédio da República do Líbano vazio.
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