"Somos gaúchos diferenciados". É assim que Roberto Ferreira, coordenador da 6ª Região Tradicionalista, define os tradicionalistas de Rio Grande, na região Sul.
Em uma cidade cercada pela água, marcada pelo porto e onde o gaúcho também pesca, a cultura campeira ganhou características próprias. Em setembro, uma rotina que atravessa dias e madrugadas ajuda a materializar essa ligação: a vigília para garantir que a Chama Crioula permaneça acesa na Praça Tamandaré.
A chama percorreu 330 quilômetros a cavalo desde Rio Pardo, no Vale do Rio Pardo, até Rio Grande. A comitiva avançou cerca de 25 quilômetros por dia e levou entre 11 e 12 dias para completar o percurso, enfrentando chuva e serra pelo caminho.
Na Praça Tamandaré, a pira foi acesa pelo vice-prefeito Renatinho Gomes, por Roberto Ferreira e por um representante do Grupo de Cavaleiros Os Centauros. Até 20 de setembro, entidades tradicionalistas se revezam na vigília junto ao Monumento Túmulo de Bento Gonçalves, inclusive durante a madrugada.

A madrugada em torno da chama
O planejamento, no entanto, começou bem antes. Dois meses atrás, integrantes já haviam percorrido de carro o trajeto para definir os locais de parada e organizar a passagem dos cavaleiros.
Entre os guardiões está Sayonara Daniel, atual patroa do CTG Guapos da Querência. Há cerca de 16 anos, ela participa do cuidado com a Chama Crioula.
— A gente fica aqui de vigília mesmo, porque tem as intempéries, a chuva que pode apagar. Acho que ela tem que ficar acesa. Ela fica acesa até o dia 20 de setembro. Cada dia, um CTG fica aqui sendo o guardião dessa chama — explica.
A missão também vira ponto de encontro, com janta, música, declamações e visitantes que passam pelo local. Durante o dia, escolas visitam a praça para conhecer o significado da Chama Crioula e das tradições gaúchas.
— Aqui sempre chega um, sai outro. Esse é o verdadeiro tradicionalismo: a amizade, as pessoas que passam e também não conhecem. A gente explica — conta Sayonara.

História já atravessa gerações
A ligação de Sayonara com o tradicionalismo começou quando os filhos ainda eram pequenos. Hoje, um deles tem 46 anos e os netos também participam do movimento.
Antes de ser patroa do Guapos da Querência, ela ajudou na construção da entidade, que também já teve como patrão o marido, Roberto Ferreira, atual coordenador da 6ª Região Tradicionalista.
Há 10 anos à frente da região, Roberto chegou ao movimento pela relação com o campo e com o cavalo crioulo. Depois, participou da comissão que reabriu o CTG Guapos da Querência, no Cassino, e acabou assumindo como patrão. Mais tarde, foi indicado para coordenar a região.
A função é voluntária e envolve viagens frequentes para acompanhar atividades tradicionalistas pelo Estado.
"Gaúchos da beira da praia"
A geografia ajuda a explicar o que Roberto chama de "gaúchos diferenciados". Em Rio Grande, a figura tradicionalmente associada ao campo convive com a praia, a pesca e o porto.
— Nós somos os gaúchos bicuíras, os gaúchos da beira da praia. Somos os diferenciados do resto, das outras localidades. É uma cultura diferente — afirma.
— Rio Grande, por ser uma cidade marítima, é um pouco mais difícil de se fazer o tradicionalismo. Nós temos que trabalhar dobrado. Aqui, por ter o Porto do Rio Grande, tem várias culturas — completa.
Segundo Roberto, a região costuma figurar entre as cinco melhores do Estado em disputas de prendas e peões e já teve representantes que conquistaram títulos estaduais.
Acampamento tem 28 galpões permanentes
Outro espaço que ganhou força nos últimos anos é o Acampamento Farroupilha do Cassino. A estrutura começou a ser montada a partir de 2020, quando o camping era utilizado como depósito. Com a participação de entidades e colaboradores, foram construídos 28 galpões permanentes.
Fora do período farroupilha, os espaços também podem ser cedidos para escolas e entidades filantrópicas, desde que não sejam utilizados com finalidade lucrativa.
Neste sábado, começa a programação no Acampamento Farroupilha do Cassino. Antes, cerca de 400 mulheres são esperadas para o desfile Elas, Luzes e Patas. Uma centelha retirada da chama da Praça Tamandaré será levada pelo CTG Guapos da Querência e entregue às participantes, que depois levarão o fogo até a pira do acampamento.
Preparativos começam meses antes
Embora setembro concentre as principais atividades, os preparativos para os Festejos Farroupilhas começam cerca de três meses antes. Entre as providências estão a estrutura e a segurança dos desfiles, a definição das datas e a articulação com a Inspetoria de Defesa Agropecuária para a certificação dos cavalos.
Neste ano, o desfile da Vila da Quinta reuniu cerca de 800 cavalarianos. Para a programação de 20 de setembro, no Centro, Roberto estima pelo menos 1,5 mil cavalos. Segundo ele, até a sexta-feira anterior, 1.350 já tinham pedido licença para participar.
O percurso começa na Rua Riachuelo, segue pela Marechal Floriano e termina na região das ruas General Neto e General Vitorino.
Mesmo depois de 20 de setembro, a programação continua. No dia 27, o Cassino recebe o último desfile, com expectativa de mais de mil cavalos.
Confira a programação dos Festejos Farroupilhas
12 de setembro
- 18h — Desfile Elas, Luzes e Patas, na Avenida Rio Grande, no Balneário Cassino. Na sequência, haverá o acendimento da Chama Crioula no Acampamento Farroupilha, no Camping do Cassino.
13 de setembro
- 10h — Desfile Farroupilha no Povo Novo, na Praça Coronel Marcelino
16 de setembro
- 20h — Sessão Magna Pública Cívico-Cultural em homenagem aos Festejos Farroupilhas, a cargo da Loja Maçônica Cavaleiros da Justiça e Fraternidade, no Templo da Loja Maçônica Acácia Rio-Grandense, na Rua Conde de Porto Alegre, 296
19 de setembro
- 8h — Paleteada, no Sindicato Rural do Rio Grande
- 15h — Mateada, no Sindicato Rural do Rio Grande
- 22h — Baile, no Sindicato Rural do Rio Grande
20 de setembro
- 8h45 — Cerimônia Maçônica, no Monumento ao General Bento Gonçalves, na Praça Tamandaré
- 10h — Desfile Militar e Farroupilha, na Rua Marechal Floriano. Na sequência, será realizada a Cerimônia de Encerramento dos Festejos Farroupilhas, no Monumento ao General Bento Gonçalves, na Praça Tamandaré
- 15h — Mateada, no Sindicato Rural do Rio Grande
27 de setembro
- 10h — Desfile Farroupilha no Balneário Cassino


