Fechado há mais de duas décadas e marcado pelo avanço da deterioração, o antigo Clube Caixeiral, um dos prédios mais emblemáticos do Centro Histórico de Rio Grande, começou a receber as primeiras ações voltadas à sua recuperação. Os trabalhos tiveram início na quarta-feira (26) e representam a etapa inicial de um projeto de restauro que poderá custar entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões, segundo estimativa da prefeitura.
Localizado na Rua Marechal Floriano, o imóvel pertence ao município e é reconhecido como patrimônio histórico e cultural de Rio Grande.
De acordo com a Secretaria de Planejamento, os trabalhos começaram pela limpeza interna e pelo chamado processo de salvamento de elementos originais da edificação, como esquadrias, ornamentos e peças decorativas que poderão ser restauradas ou servir de modelo para futuras reproduções.
Durante a limpeza, os materiais encontrados estão sendo catalogados e separados conforme o estado de conservação e o valor histórico, artístico e cultural. O objetivo é preservar o máximo possível das características originais do prédio.
— Estamos fazendo o serviço de limpeza e salvamento para a posterior estabilização das estruturas. Separamos o que está altamente deteriorado das peças que possuem valor artístico e que poderão ser recuperadas ou reproduzidas — explica o secretário-adjunto de Planejamento, Daniel Cougo.
Embora o imóvel já tenha um projeto completo de restauro, o orçamento elaborado anteriormente está defasado. A expectativa é de que o custo total da recuperação alcance cerca de R$ 10 milhões.
— Os serviços iniciais de limpeza e salvamento estão sendo realizados com recursos, equipamentos e equipes do próprio município. As obras de estabilização e os respectivos custos somente poderão ser definidos após a inspeção completa das estruturas, que também indicará a existência de eventuais riscos de desabamento — afirma Cougo.
Próximas etapas
Após a conclusão da limpeza, a prefeitura pretende avançar para a fase de escoramento e estabilização estrutural.
Paralelamente, técnicos realizam uma inspeção detalhada para avaliar as condições do imóvel. A análise inclui a fachada, onde serão identificados elementos com risco de queda, além da remoção da vegetação que compromete partes da construção.
Segundo o município, ainda não há prazo definido para a conclusão dos trabalhos, já que a recuperação será executada em diferentes etapas.
Símbolo da ascensão dos trabalhadores do comércio
Fundado em 3 de maio de 1895, o Clube Caixeiral foi uma das mais importantes entidades sociais e culturais de Rio Grande. Criada para representar os trabalhadores do comércio, a instituição desempenhou papel relevante na vida econômica e social da cidade durante boa parte do século 20.
Antes da construção da sede própria, o clube funcionou em diferentes endereços da região central.
Conforme pesquisa dos historiadores Gianne Zanella Atallah e João Fernando Igansi Nunes, publicada em 2019 na revista História: Debates e Tendências, da Universidade de Passo Fundo, a pedra fundamental do edifício foi lançada em maio de 1911. A sede foi inaugurada no ano seguinte, em um período de forte expansão comercial e industrial de Rio Grande.
Além da arquitetura imponente, a localização em uma das principais vias do Centro reforçava a influência da entidade na sociedade rio-grandina.
Arquitetura eclética e influência Art Nouveau
O edifício foi construído em estilo eclético, com forte influência da Art Nouveau, movimento artístico que ganhou projeção internacional no início do século 20.
Um dos elementos mais simbólicos da fachada é o medalhão que retrata a cabeça de Mercúrio, deus romano associado ao comércio, posicionada sobre uma roda dentada que representa a indústria. A composição faz referência aos setores econômicos que impulsionavam o desenvolvimento da cidade naquele período.
Ao longo do século passado, o Caixeiral foi palco de bailes, carnavais, reuniões, atividades recreativas e encontros familiares. O prédio contava com salão principal, bar, secretaria, mezanino para músicos e diversos espaços de convivência.
Décadas de abandono
A partir da segunda metade do século 20, a entidade passou a enfrentar dificuldades financeiras e estruturais. Com o encerramento das atividades no início dos anos 2000, o imóvel entrou em um processo acelerado de deterioração.
A situação se agravou em 2014, quando parte do telhado desabou.
O prédio foi incluído no Inventário de Bens Imóveis de Rio Grande em 2004. Em 2018, um decreto municipal reconheceu o antigo Clube Caixeiral como patrimônio histórico e cultural, garantindo proteção à fachada principal.
As intervenções iniciadas nesta semana representam o primeiro passo para recuperar um dos edifícios mais simbólicos do Centro Histórico de Rio Grande e um dos principais marcos da memória urbana do município.
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