
Quem caminha pelo Centro de Pelotas pode encontrar poesia onde normalmente há anúncios de serviços ou avisos de utilidade pública. Em um percurso de cerca de 30 quadras, postes de iluminação passaram a exibir páginas de um livro, transformando as ruas da cidade em uma espécie de biblioteca a céu aberto.
A intervenção integra o projeto Outonos na Rua, idealizado pelo poeta, designer e artista visual Valder Valeirão. A proposta levou para o espaço público todos os poemas do livro Outonos no Chão, publicado originalmente em 2018.
Ao todo, 93 poemas foram afixados individualmente em postes. O trajeto começa no cruzamento das ruas Dona Mariana e Benjamin Constant, segue pela Rua XV de Novembro, atravessa o Centro Histórico e termina na Avenida Bento Gonçalves.
— Quando publiquei o livro, minha intenção não era ser reconhecido como escritor, mas fazer com que os poemas chegassem às pessoas. Depois percebi que o formato tradicional limita esse alcance. Quando a poesia vai para a rua, ela se democratiza — afirma Valeirão.
Um livro que pode ser lido caminhando

A intervenção foi planejada para oferecer duas experiências diferentes ao leitor.
Quem percorre o trajeto completo, da Rua Benjamin Constant até a Avenida Bento Gonçalves, encontra os poemas na mesma sequência da obra impressa. Já quem cruza o percurso em qualquer outro ponto monta uma narrativa própria, lendo os textos conforme o caminho escolhido.
Outro detalhe chama a atenção: os poemas não trazem QR Code, endereço eletrônico nem identificação do autor.
Segundo Valeirão, a decisão foi proposital para preservar o elemento surpresa e estimular uma descoberta espontânea.
Mesmo expostas ao tempo desde 21 de julho, as páginas permanecem praticamente intactas.
— Não vi nenhum poema arrancado nem coberto por propaganda. O retorno também tem sido muito bonito. Um amigo me enviou uma foto da namorada emocionada, chorando diante de um dos poemas — relata.
Da calçada para a tela: o arquivo vivo no Instagram

O perfil @outonosnarua, no Instagram, funciona como um arquivo digital do projeto, reunindo os 93 poemas acompanhados por mais de 400 fotografias produzidas pelo próprio autor.
Em vez de registrar cartões-postais, Valeirão fotografou detalhes do percurso, como ladrilhos hidráulicos, grades, portões, calçadas de paralelepípedo e fachadas antigas, compondo uma cartografia visual da cidade.
O trabalho acabou registrando também as transformações da paisagem urbana.
— Fiz as primeiras fotografias cerca de um mês antes da instalação dos poemas. Quando voltei para fazer a colagem, algumas casas já tinham mudado de cor e vários detalhes tinham desaparecido. A cidade muda muito rápido — observa.
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