Quem caminha pela Praça Tamandaré, no Centro Histórico de Rio Grande, costuma se surpreender ao encontrar uma estátua de Napoleão Bonaparte. A presença de um dos personagens mais conhecidos da história francesa no principal cartão-postal da cidade desperta uma dúvida frequente entre moradores e visitantes: afinal, o que o imperador faz ali?
A resposta não passa por qualquer ligação entre Napoleão e o município. A obra percorreu um caminho incomum até chegar ao espaço público. Antes de ser instalada na praça, pertenceu a um jardim particular, foi arrematada em um leilão, passou décadas em uma propriedade rural e só depois foi incorporada ao patrimônio da cidade.

Essa trajetória foi reconstituída pelo historiador Celso Braga, que há mais de uma década pesquisa a origem da peça.
O interesse pelo tema começou ainda na infância. Frequentador de uma propriedade de familiares no bairro Senandes, Braga brincava ao redor da escultura, instalada no pátio de uma residência às margens da estrada para o Cassino.
— A gente brincava em volta da estátua, mas ninguém sabia explicar por que ela estava ali. Quando voltei a morar em Rio Grande, no início da década de 1980, ela já estava na Praça Tamandaré e a dúvida permanecia — recorda.
A curiosidade deu origem a uma investigação iniciada por volta de 2010, que reuniu fotografias, documentos e registros históricos capazes de reconstruir o percurso da obra.
Encomenda para um jardim
Segundo Braga, a estátua foi produzida em Rio Grande pelo escultor italiano Matteo Tonietti, um dos principais artistas que atuaram no município nas primeiras décadas do século 20.
A encomenda partiu de José Manuel Funchal, proprietário de um casarão na Rua General Vitorino, em frente à Praça Tamandaré. O objetivo era completar um jardim onde já existiam esculturas de dois generais alemães.
— O proprietário pediu ao Tonietti que produzisse a peça para ocupar o centro do jardim, formando um conjunto com as demais esculturas — explica o pesquisador.
A instalação ocorreu na década de 1910. Pouco tempo depois, com o início da Primeira Guerra Mundial, todo o conjunto desapareceu do local.
De leilão a espantalho
Durante a pesquisa, Braga encontrou uma fotografia da década de 1930 que mostrava a escultura em um leilão realizado na cidade.
O comprador foi Evaristo Pinheiro Duarte, proprietário de uma área no Senandes. A peça acabou instalada ao lado de uma horta.
— Ele adquiriu a estátua para funcionar como espantalho da plantação que mantinha na propriedade — conta o historiador.
Foi ali que a obra permaneceu por cerca de quatro décadas, tornando-se conhecida por quem seguia pela estrada em direção ao Balneário Cassino.
Após a morte de Duarte, na década de 1970, a família decidiu doar a peça ao município. O então vereador Josino Dutra intermediou a transferência depois de identificar que a autoria era de Matteo Tonietti.
— A família fez a doação para a prefeitura, que instalou a escultura na Praça Tamandaré, onde permanece até hoje — afirma Braga.
Curiosidade que ainda gera dúvidas
Mesmo fazendo parte da paisagem da praça há mais de 40 anos, a origem da escultura continua desconhecida por boa parte da população.
Segundo Braga, há quem sequer identifique a figura representada.
— Muitas pessoas nem reconhecem que se trata de Napoleão. Alguns acreditam que seja outro personagem histórico ou até o próprio Tamandaré — reconhece.
Na avaliação do pesquisador, a ausência de informações no local contribui para a confusão. Desde 2014, ele defende a instalação de uma placa explicativa ao lado da obra.
— Os turistas passam por aqui sem entender por que existe uma estátua de Napoleão em Rio Grande. As escolas também visitam a praça e, muitas vezes, nem os professores conhecem essa história — contextualiza.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Município da Cultura informou que ainda avalia a possibilidade de instalar uma placa informativa junto ao monumento e não respondeu aos demais questionamentos até esta publicação.
Fique informado sobre o que acontece na região sul do Estado! Siga @gzhzonasul no Instagram e no Facebook, e inscreva-se no canal do WhatsApp para receber notícias em seu celular: gzh.rs/canalgzhzs.
