A paisagem do Pampa gaúcho também pode ser contemplada sobre trilhos. Há quase dois anos, o Trem do Pampa transformou a forma como turistas procuram Santana do Livramento, ao oferecer uma experiência que mistura viagem, degustação de vinhos e apresentações culturais em meio ao cenário da fronteira.
Mais do que um novo atrativo, o passeio se consolidou como um dos principais motores do turismo local, responsável por atrair visitantes e provocar mudanças na dinâmica econômica da cidade.
— O trem colocou Livramento em uma vitrine que a gente não tinha. Muita gente está vindo pela primeira vez por causa dessa experiência — afirma a empresária Vera Reis, da agência Corticeiras, que atua no turismo da cidade há mais de 20 anos.
A proposta vai além do deslocamento. Inspirado em modelos internacionais e adaptado às características da região, o trem aposta em um turismo contemplativo, focado na experiência.
— É um passeio pensado para desacelerar. As pessoas entram no trem para contemplar a paisagem, degustar vinhos e viver a cultura do Pampa — explica Cristiane Tomazini, gerente de marketing da Giordani Turismo, empresa responsável pela operação.

O trajeto percorre cerca de 20 quilômetros de linha férrea entre a Estação Livramento e a Estação Palomas, resgatando uma rota histórica que já conectou o Brasil a países vizinhos, como Uruguai e Argentina.
Durante aproximadamente três horas, os passageiros acompanham a paisagem do bioma a partir de vagões panorâmicos, com degustações e apresentações culturais ao longo do percurso. Um dos destaques é o Cerro Palomas, que domina o horizonte da campanha gaúcha.
— Essa linha foi muito importante na história do Estado. Era por ali que passavam trens que ligavam São Paulo e Rio de Janeiro a Montevidéu e Buenos Aires e agora ganha um novo significado — acrescenta Cristiane.
Crescimento acima do previsto
A operação começou em julho de 2024 com uma proposta inicial modesta: passeios apenas aos sábados à tarde. O cenário mudou rapidamente.
Em menos de um mês, a demanda levou à ampliação para manhãs e domingos. Hoje, o trem opera de sexta a domingo, com quatro horários por dia, e pode ter programação ampliada em períodos de maior movimento.
— A procura foi muito maior do que a gente imaginava. A gente ampliou os dias, os horários e segue avaliando novas expansões conforme a demanda — afirma Cristiane.
O impacto também é percebido fora dos trilhos.
— A própria Vinícola Almadén recebia cerca de 80 visitantes por mês. Hoje, chega a receber 1,2 mil pessoas em um único fim de semana — destaca.
Efeito na economia local
O crescimento do turismo ferroviário tem reflexo direto em outros setores. Restaurantes, hotéis, transporte e comércio passaram a sentir o aumento no fluxo de visitantes. Em feriados e no inverno, a ocupação hoteleira se aproxima do limite.
— O turismo movimenta toda uma cadeia. As pessoas almoçam, jantam, compram, abastecem. É uma engrenagem muito grande — afirma Cristiane.
Na prática, o trem passou a funcionar como porta de entrada para um novo perfil de visitante.
— Antes a gente tinha, às vezes, um grupo por final de semana. Hoje tem finais de semana com três, quatro grupos — relata Vera. — O Trem do Pampa mudou completamente a dinâmica do turismo aqui. Mudou a demanda, o perfil do visitante e a forma como a cidade se organiza para receber.

Perfil de experiência
Diferente do turismo de compras, historicamente predominante na fronteira, o passeio atrai um público que busca vivências ligadas à cultura e à natureza.
— É um turismo de experiência. A pessoa quer viver o destino, entender a história, consumir o que é produzido ali — explica Adriana Munhoz, coordenadora da operação local.
— O turista não vem só para o passeio, ele quer ficar mais tempo e conhecer outras experiências da região — acrescenta Vera.

Da saída em busca de oportunidades ao retorno para conduzir o trem
A trajetória de Adriana ajuda a explicar o momento vivido por Santana do Livramento. Natural da cidade, ela deixou a fronteira ainda jovem, aos 19 anos, em busca de oportunidades no turismo — setor que, na época, ainda era pouco estruturado no município.
Foram mais de duas décadas fora. Adriana construiu carreira em destinos consolidados, como Gramado e cidades do Nordeste, trabalhando com hotelaria e agências de turismo.
— Eu saí porque não tinha oportunidade. Eu queria trabalhar com turismo e aqui ainda não existia esse mercado — relata.
O retorno ganhou força durante a pandemia, quando decidiu se reaproximar da família e passou a acompanhar o desenvolvimento do projeto do Trem do Pampa.
— Eu estou redescobrindo a cidade. É um lugar que eu conhecia, mas que hoje eu vejo com outro olhar, de turismo, de potencial.
Ela voltou definitivamente no fim de 2024 para assumir a coordenação da operação local. No dia a dia, passou a lidar não só com o atendimento ao turista, mas também com aspectos técnicos da ferrovia.
A curiosidade levou Adriana a ir além: buscou formação e se tornou maquinista do próprio trem.
— Eu nunca tinha pensado nisso. Mas, para liderar, eu precisava entender todo o processo. Acabei me apaixonando pela ferrovia.
Hoje, além da gestão, ela também conduz o trem em algumas viagens — algo que costuma surpreender os passageiros.
— Já teve gente que levantou para ver e disse: “É uma mulher que vai conduzir o trem?” — conta.
Para ela, a experiência tem um significado que vai além da trajetória pessoal.
— É sobre honrar a história da ferrovia e mostrar que a cidade pode construir um novo futuro a partir do turismo.
Destino em construção
Apesar do avanço, o turismo de experiência ainda está em fase inicial na região.
— Ainda precisamos apresentar para as pessoas por que escolher Livramento como destino. Muita gente ainda não conhece o que existe aqui — afirma Cristiane.
Outro desafio é estrutural.
— A gente tem quantidade de hotéis, mas precisa melhorar a qualidade. E a gastronomia ainda precisa se preparar para receber grandes grupos — avalia Vera.

Novas experiências no radar
Para os próximos meses, a expectativa é de ampliação das experiências oferecidas aos visitantes.
— A ideia é oferecer um produto diferente, com degustações e uma experiência mais sensorial, aproveitando o pôr do sol do Pampa — antecipa Cristiane.
A estratégia segue a lógica que consolidou o projeto até aqui: transformar a paisagem e a cultura da Campanha gaúcha em protagonistas de uma experiência turística capaz de reposicionar a fronteira no mapa do turismo brasileiro.
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