Entre trechos de asfalto e estrada de chão, a cerca de 20 quilômetros do centro de São José do Norte, um restaurante à beira da Lagoa dos Patos transformou o isolamento em atrativo. O Beira da Lagoa, que funciona de novembro a maio, tornou‑se ponto de parada para quem busca frutos do mar frescos, tranquilidade e uma refeição longe do ritmo urbano.
Distante do circuito tradicional de bares e restaurantes, o espaço atrai visitantes de cidades como Rio Grande, Pelotas e até da Serra Gaúcha, muitos guiados pelo conhecido boca a boca.
Para quem sai de Rio Grande, o trajeto inclui a travessia de balsa, cerca de 15 quilômetros pela BR‑101 e mais cinco quilômetros de estrada de chão, até chegar a um pátio cercado por natureza, com redes estendidas sobre a água e mesas espalhadas pelo entorno.
De cozinha improvisada a restaurante concorrido
A história do Beira da Lagoa começou de forma simples, ainda no início dos anos 2000, a partir da cozinha da casa de Zenilda Gautério. Acostumada ao comércio desde jovem, ela passou a preparar refeições para pessoas que iam até a região comprar camarão.
— O pessoal vinha buscar camarão e queria comer. Eu fazia dentro da minha casa — relembra.
O atendimento informal cresceu aos poucos. Primeiro surgiram os bolos e pastéis, depois algumas mesas improvisadas no pátio. Com o aumento da procura, a sociedade com a amiga Cristiane da Silveira Gautério se consolidou, assim como a necessidade de estrutura para atender ao público crescente.
— Comecei lavando louça. Depois fui ajudando na fritura, e quando a gente viu, estava lotado — conta Cristiane.
O espaço físico atual começou a tomar forma em 2011, mas a essência se manteve: comida feita no local, na hora, a partir de receitas que nascem da prática, da observação e da intuição.
"O camarão é a obra-prima"
O camarão é o carro‑chefe do restaurante, mas o cardápio também inclui pratos à base de peixe e siri. A maior parte da matéria‑prima vem da pesca artesanal local, muitas vezes realizada por familiares e pessoas da própria comunidade.
— O camarão é a obra‑prima. Se não tem camarão, não temos nada. Todos os produtos são daqui. A gente compra das gurias que limpam o siri, os maridos delas pescam. É tudo da comunidade — explica Cristiane.
A produção segue artesanal. Dos bolinhos aos espetinhos, cada item passa por preparo manual, sem industrialização.
— Já pensei em usar máquina, mas não fica igual. Muda a massa, muda o sabor — diz Zenilda.
Entre os destaques do cardápio estão o bombom de camarão, empanado com queijo, o espetinho de camarão com queijo, a farofa de siri e a salada de maionese com camarão.
— Eu adoro criar, testar receitas. O bombom de camarão eu criei neste verão e já vai seguir no cardápio — afirma Zenilda.
Preparação começa antes da temporada
O trabalho começa antes mesmo da abertura ao público. A partir de outubro, a equipe inicia a preparação e o congelamento de parte dos alimentos para atender à alta demanda do verão.
— A gente faz bastante bolinho de peixe, croquete de siri, já deixa tudo embalado e congelado para entrar na temporada mais organizada — relata Cristiane.
Distâncias vencidas pelo sabor

Mesmo com acesso que exige disposição, o restaurante recebe visitantes de diferentes partes do Estado e até do exterior. Um dos atrativos é a sequência de camarão, servida por R$ 120, que concentra diferentes preparos do crustáceo.
— Já veio gente da Austrália, da Alemanha, da Argentina. Muita gente da Serra também — conta Cristiane.
No dia da visita da reportagem da GZH Zona Sul, um cliente de Caxias do Sul almoçava no local após receber recomendações de amigos.
— Sou de Caxias do Sul, vim para trabalhar na região e conheci o restaurante por indicação. O tempero é muito bom, tudo fresquinho, com bastante variedade. Pretendo voltar e trazer mais gente — disse Rafael Caramuri.
Segundo as proprietárias, a fama do Beira da Lagoa cresceu principalmente por indicação de clientes. A internet ampliou o alcance, mas o reconhecimento começou bem antes.
— Um traz o outro. É assim que funciona — resume Zenilda.
Em dias de grande movimento, como Carnaval e Sexta‑feira Santa, mais de 200 pessoas já passaram pelo espaço em um único dia.
"É tudo simples, mas feito com carinho"
O Beira da Lagoa funciona do final de novembro até o Dia das Mães, geralmente no primeiro domingo de maio. Depois disso, fecha as portas.
— A gente se doa muito. Fecha para descansar — explica Zenilda.
Mesmo fora de temporada, o trabalho segue nos bastidores, com reorganização da produção e planejamento do próximo verão. Durante o funcionamento, a rotina é intensa: o atendimento ocorre de terça a domingo, das 9h às 17h, com uma equipe que chega a mais de dez pessoas no pico da temporada, a maioria moradores da própria região.
Além da comida, o ambiente ajuda a consolidar a experiência. Redes dentro d’água, balanços e áreas ao ar livre foram criados aos poucos, a partir de ideias das próprias donas.
— A gente vai pensando e fazendo. Quer que o pessoal se sinta bem aqui — afirma Cristiane.
Mesmo transformado em ponto turístico, o espaço mantém o caráter simples que marcou sua origem.
— É tudo simples, mas feito com carinho — resume Zenilda.
Entre receitas, histórias de clientes fiéis e a ligação direta com a comunidade, o Beira da Lagoa segue crescendo sem perder suas raízes: a cozinha de casa, o trabalho manual e a relação direta com a pesca artesanal da Lagoa dos Patos.
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