
O curta-metragem Grão, gravado em Rio Grande, começou uma trajetória bem-sucedida pelos festivais de cinema brasileiros. Em fevereiro, o filme recebeu o Prêmio Canal Brasil de Curtas na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, e no começo de abril venceu o Grande Prêmio da mostra competitiva nacional do 35º Curta Cinema, o Festival Internacional de Curtas-Metragens do Rio de Janeiro. A última conquista qualifica o filme para concorrer a uma indicação ao Oscar 2027 como melhor curta-metragem.
Produzido por uma equipe formada inteiramente por ex-alunos do curso de Cinema da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Grão foi dirigido pela dupla Gianluca Cozza, natural de Rio Grande, e Leonardo da Rosa, natural de Taquari. O roteiro foi escrito pelos diretores em parceria com André Berzagui. O filme conta com um grupo de atores formado por Leandro Gomes, Daniel Guimarães e Anderson Campos. O curta é o terceiro produzido pelo grupo, depois de Madrugada e Cassino, todos rodados em Rio Grande
Segundo Gianluca, Grão é uma alegoria sobre a cidade de Rio Grande. O curta acompanha a história de Tando, interpretado por Leandro Gomes, um jovem que ganha a vida informalmente recolhendo grãos de soja caídos no caminho para o Porto de Rio Grande.
— Eu queria fazer um comentário sobre a cidade, principalmente sobre um símbolo da cidade, que é o navio enterrado (...) As metáforas que têm dentro disso fazem muito sentido com aquilo que tem no hino da cidade, que é essa "areia hostil", que faz as coisas não saírem do lugar na cidade, ficarem enterradas e naufragarem — diz.
O diretor Leonardo Rosa avalia que o filme também traz uma reflexão sobre masculinidade e solidão.
— A ideia do homem gaúcho, seus desejos, seus anseios, suas preocupações, essa ideia de solidão, de um desejo prometido que nunca é alcançado — reflete. — Ele tem essa única coisa que ele se apega muito, a única coisa que resta, de certa forma, é essa ideia de ter o carro como um objeto de liberdade.

Leonardo explica que a trilha sonora — composta por músicas funk — é central no curta.
— O filme se passa numa sequência dessas músicas, desse personagem seguindo pela área portuária até a praia escutando essas músicas com seu som automotivo, que é uma coisa muito cultural da região — argumenta.
Cinema feito em casa
Para o diretor rio-grandino, o principal desafio de se produzir filmes no interior é a falta de recursos financeiros e humanos e de editais de financiamento específicos.
— A gente precisa de pessoas que são formadas e possuem, por exemplo, o conhecimento para operar uma câmera, para operar um software de edição, para fazer funções no set que exigem uma formação específica para isso — explica.
Apesar das dificuldades, Cozza pondera que a facilidade de se acessar equipamentos de gravação faz surgirem cada vez mais cineastas no interior do Brasil
— O Grão, por exemplo, foi feito por uma câmera pessoal, não é uma câmera de cinema utilizada nos filmes que tem recursos para isso — revela.
Para ele, a escolha por produzir filmes em Rio Grande é natural por retratar temas e locais que sempre fizeram parte da sua vida.
— O segundo filme, que se chama Cassino, foi gravado na minha casa, no bairro Querência, na quadra da minha casa, e o filme é uma grande desculpa pra mostrar esse bairro, para mostrar a quadra da minha casa. Acho que é o lugar que eu mais conheço no mundo, Rio Grande e a minha casa — detalha.
O curta-metragem deve continuar passando por festivais e deve ser exibido na TV pelo Canal Brasil no final deste ano. A equipe também planeja fazer uma exibição pública do filme em Rio Grande ainda este ano.
Expectativa para o Oscar
Apesar da trajetória bem-sucedida de Grão até aqui, Gianluca reconhece não ter expectativa de receber uma indicação ao Oscar.
— Isso aconteceu porque a gente ganhou o Curta Cinema, um festival que quem ganha é qualificado para participar do Oscar. Mas de longe isso indica que a gente vai realmente ser indicado ao Oscar. Isso depende de muitos outros fatores que estão fora do nosso alcance — pondera. — Participar do Oscar depende de, por exemplo, fazer uma campanha e de ter recursos milionários para conseguir uma indicação de fato, e a gente não tem essa estrutura e não tem essa grana pra poder fazer essa campanha.
Novos projetos

Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa têm projetos mais ambiciosos. A dupla está desenvolvendo dois longas-metragens. O primeiro, liderado por Cozza, voltará a ser ambientado em Rio Grande e contará com o mesmo grupo de atores.
— É um filme sobre sobre o porto e as histórias periféricas do porto. Estou na fase de escrita desse projeto e tentando financiar o filme.
Outro projeto é o filme Grave, projeto de Leonardo da Rosa escrito pela dupla com André Berzagui e que será rodado em Taquari.
— É um filme sobre som automotivo e ditadura. O Artur da Costa e Silva (presidente do Brasil entre 1967 e 1969, na ditadura militar) é da minha cidade, e a gente vai trabalhar com esses dois universos contrastantes: a imagem da ditadura e o som automotivo, que é muito popular na região — diz Leonardo.
Confira o teaser de Grão
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