Fundada em 2013 por um grupo de amigos apaixonados pelo palco, a Companhia de Teatro VSQ se consolidou como uma referência cultural em Pelotas. Ao longo de 13 anos, o coletivo produziu 15 montagens e monólogos, alternando entre obras autorais, dramaturgias clássicas e peças infantis.
Criado pelo diretor e dramaturgo Diego Carvalho como uma atividade de estágio no Instituto Sul-rio-grandense (IFSul), ao lado de Aline Cotrim, Thales Echeverry e Larissa Rosado, o grupo conta hoje com 15 integrantes que se dividem entre a atuação, a escrita e a técnica. Para Carvalho, o foco central é estimular o hábito de ir ao teatro na região.
— A nossa ideia, desde o início, foi não só promover que várias pessoas possam ser atores, mas que várias pessoas possam ser consumidoras. É o que a gente acredita que faz falta justamente na contemporaneidade: pessoas que gostem e queiram assistir, porque a arte é necessária para a vida — relata o diretor.
Apesar do reconhecimento em festivais, a VSQ nunca se apresentou nos principais teatros de Pelotas, dependendo de locais com espaços limitados, como a Bibliotheca Pública Pelotense e a sede própria do grupo.

— O Theatro Guarany tem um preço inacessível para nós, e o Sete de Abril está fechado. Já conseguimos ensaiar nele em alguns momentos, mas apresentar nunca. A gente acaba sempre tendo que improvisar. Essa mácula fica guardada não apenas em nós, mas na cidade — lamenta Carvalho.
Teatro democrático na essência
Originalmente batizada como Você Sabe Quem, a companhia passou por um "rebranding" e abreviou o nome para VSQ. Segundo Diego, a medida simboliza a ideia de que qualquer pessoa pode fazer teatro.
— A gente pensou justamente nesse aspecto pedagógico de que se a gente faz teatro não é só para nós, é para que qualquer pessoa possa ter acesso ao teatro, qualquer pessoa possa fazer teatro, ver teatro, inclusive 'você sabe quem', qualquer pessoa. Então pensamos nessa brincadeira como forma de desmistificar essa ideia de que apenas profissionais, pessoas que estudaram durante quatro anos ou tiveram mil trabalhos, podem ter acesso à cultura — explica.
A organização interna do grupo também reflete essa democratização. Sem uma direção centralizada, a VSQ aposta na rotatividade de lideranças por projetos.

— Essa é a grande magia. O Diego tem uma estética específica dele, ao mesmo tempo que eu tenho a minha, e aí entram essas misturanças — define a cofundadora, diretora e atriz Aline Cotrim.
Peça leva debate sobre fake news às escolas
A produção de peças infantis está na origem da VSQ. A primeira montagem do gênero foi com A Boneca Dorothy, ainda em 2013, realizada em parceria com a Bibliotheca Pública e que circulou por escolas da rede pública e privada.
— A gente fez essa circulação para que as escolas pudessem ter essa acessibilidade, pudessem ter oficinas, pudessem viver um pouco dessa experiência do fazer, do ser e do ver teatro — conta.
Atualmente, a VSQ ensaia a peça Kara Cara a Cara com o Zé, escrita em 2024 por Diego Carvalho, que também dirige e atua. Com financiamento de edital público, a peça está sendo apresentada em escolas da rede municipal de Pelotas e leva o debate sobre fake news para o mundo infantil. A peça conta a história de Kara, que recebe a missão de entregar uma carta ao destinatário e enfrenta o perigoso Zé Murieta.

Em 2025, a peça venceu diversas categorias infantis do festival Santa Rosa em Cena: melhor espetáculo, melhor direção e melhor ator (Diego Carvalho), melhor atriz e melhor figurino (Aline Cotrim) e melhor atriz coadjuvante (Geo Sobrinho).
— O texto está pronto, só que a cada apresentação a gente vai brincando. Como é uma peça sobre fake news, a gente lida muito com a linguagem da internet para as crianças, então a gente brinca com as dancinhas do TikTok para atrair esse público — detalha.
A ideia é provocar as crianças a questionarem o conteúdo que acessam pela internet.
— É justamente essa ideia da fofoca, das fake news. Na verdade, a gente adaptou o termo da fofoca para a rede virtual e virou fake news, mas isso é algo que está com a gente desde que o mundo é mundo — justifica.
Até maio, a peça terá mais cinco apresentações. No dia 24 de abril, passa pelas escolas municipais Francisco Caruccio e Mário Meneghetti. No dia 1º de maio, haverá uma apresentação às 14h no Mercado Central de Pelotas. No dia 8 de maio haverá duas apresentações na escola Saldanha da Gama e no dia 15 de maio haverá uma apresentação na escola Piratinino de Almeida e em outra escola a ser definida.
Próximos passos
O próximo passo da VSQ é a transformação em instituto, com o objetivo de se consolidar como produtora e escola de teatro e facilitar o acesso a financiamento.
— A gente não está fazendo teatro apenas para conseguir dinheiro, é óbvio que a gente precisa de dinheiro para se manter, mas a gente está buscando fazer a diferença. Nosso maior anseio é poder mudar um pouco a realidade — afirma Diego. — Essa diferença de poder produzir arte na cidade de Pelotas é essencial para as nossas vidas e para a própria cidade, que precisa respirar a cultura.
O principal desafio, no entanto, é a insegurança. A sede em que o grupo ensaia e se apresenta há cerca de três anos foi assaltada ao menos sete vezes desde o ano passado. Os criminosos levaram equipamentos e fiação elétrica.

— A cada vez que a gente fica tranquilo com o equipamento, a gente sofre com isso. Aqui é alugado, nas oficinas que a gente ministra e em todas as atividades que a gente faz separamos uma parte para pagar o aluguel e qualificar esse espaço com equipamento — relata.
Para o futuro, a expectativa é levar a companhia para um espaço maior, que comporte apresentações para um público grande.
— Aqui a gente consegue fazer uma oficina para, no máximo, 12, 15 pessoas, porque o espaço é pequeno, então não tem como fazer algo maior. Financeiramente, eu acho que dificulta muito fazer teatro — argumenta.
No começo de julho, a VSQ terá uma programação especial para comemorar os 13 anos de atividade. Dentro das atividades, haverá o lançamento de um livro com três textos originais. Além de Kara Cara a Cara com o Zé, o livro também terá o texto de Dona Frida, escrito por Thalles Echeverry, e A Menina que Guardou o Tempo, texto da atriz Agatha Nery selecionado em concurso.
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