
Hoje reunindo milhares de foliões e atrações nacionais, o Beijo Maldito se consolidou como um dos eventos de carnaval mais conhecidos de Pelotas. Neste ano, os ingressos se esgotaram em apenas 48 horas após o início das vendas.
A origem do bloco, porém, é bem mais simples. Tudo começou como um encontro entre amigos, ligado aos antigos bailes de carnaval do Clube Brilhante.
A história remonta aos anos 1990, quando um grupo de frequentadores do clube costumava se reunir antes dos bailes em uma praça ao lado da Igreja da Luz. O encontro funcionava como um esquenta informal, com pagode e confraternização.
Com o enfraquecimento do carnaval de clubes no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, a reunião deixou de acontecer. O bloco só seria retomado anos depois, já em outro contexto e com organização mais estruturada.
— Em 2007, a gente decidiu reunir de novo aquela turma, sem pretensão nenhuma, só para juntar os amigos. Era um pagode no meio da calçada, literalmente na porta de um bar — relembra Rafael Almeida, um dos fundadores do bloco.
Foi esse retorno, em 2007, que os organizadores adotaram como marco oficial do Beijo Maldito em sua fase atual.

O nome que ficou
O nome que hoje identifica o evento também surgiu de forma espontânea.
Segundo Rafael e Franklin Oliveira, atual CEO do Beijo Maldito, a expressão surgiu a partir de um funcionário do Clube Brilhante, que costumava usar a palavra “maldito” como bordão em diversas situações.
Em uma das primeiras reuniões do grupo, ele teria brincado com o encontro chamando aquilo de “beijo maldito”. A expressão acabou sendo adotada pelo grupo sem planejamento.
— Era uma simples brincadeira de carnaval, mas isso acabou virando uma grande marca — afirma Franklin.

Planejamento que dura o ano inteiro
Se no início o bloco era apenas um encontro entre amigos, hoje a organização funciona em ritmo permanente.
Segundo Franklin, o planejamento de cada edição começa ainda durante a execução do evento anterior.
— A gente termina um evento e já está com o outro na agulha. O Beijo dura o ano inteiro.
Após cada edição, a equipe faz um checklist de acertos, falhas e melhorias, que serve de base para o planejamento seguinte.
Ao longo de quase duas décadas, o evento também consolidou uma rede estável de fornecedores e profissionais.
— A maioria da nossa equipe de produção e fornecedores trabalha com a gente há vários anos. Sempre existe alguma novidade, mas há uma fidelidade muito grande — explica.
Hoje, a estrutura envolve centenas de trabalhadores. Apenas na equipe responsável por acessos, caixas e bares, cerca de 250 pessoas atuam durante o evento.

Crescimento em etapas
De acordo com os organizadores, o crescimento do Beijo Maldito foi gradual e planejado.
Em vez de expandir rapidamente o público e a estrutura, a estratégia foi crescer em etapas.
— A gente sempre preferiu dar passos pequenos, mas sólidos. Não adianta aumentar muito de um ano para o outro se não tiver condição de atender bem — diz Franklin.
Para ele, a principal dificuldade não está apenas na logística do evento.
— A parte operacional é até mais fácil. O mais difícil é corresponder à expectativa de milhares de pessoas, porque a gente conversa com cinco gerações diferentes.
O evento permite entrada a partir dos 16 anos e reúne um público bastante diverso, com adolescentes, adultos, famílias e diferentes gerações no mesmo espaço.

De bloco local a palco de atrações nacionais
Com o passar dos anos, o evento passou a incorporar formatos que depois se tornariam comuns em outros blocos.
Estrutura fixa, palco, camarote, abadá e atrações musicais passaram a fazer parte da festa.
— Quando começamos a fazer isso, ninguém fazia nesse formato. O Beijo Maldito foi pioneiro nesse modelo de bloco parado com palco e camiseta — afirma Rafael.
A partir de 2014, o evento passou a trazer atrações nacionais com mais frequência.
Desde então, artistas como Ferrugem, Mumuzinho, Xande de Pilares, Grupo Revelação, Tatau, Reinaldinho, Bom Gosto, Salgadinho e o grupo É o Tchan já passaram pelo palco do evento.
Neste ano, a principal atração é Thiaguinho.
— Quando a gente visualiza o Thiaguinho no palco do Beijo e lembra de toda essa história, é algo muito significativo — afirma Franklin.
Mesmo com artistas nacionais, os organizadores afirmam que fazem questão de manter músicos locais na programação. Em 2026, por exemplo, o encerramento ficará por conta da Banda da Praia, ligada ao projeto Samba do Rei.

Causas sociais e planos de expansão
Nos últimos anos, o evento também passou a incorporar ações sociais.
Entre elas estão iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher, além de projetos de reciclagem e sustentabilidade.
A organização também adotou medidas de inclusão e acessibilidade. Um jovem com síndrome de Down foi contratado para atuar na recepção e no acompanhamento de pessoas com deficiência no espaço reservado do evento.
— A gente entendeu que crescer também passa por usar a marca em prol de causas relevantes, não apenas aumentar público ou estrutura — afirma Rafael.
Para o futuro, os organizadores falam em expandir a marca para outras cidades, mantendo o modelo criado em Pelotas.
— A gente pensa em levar o Beijo para outros lugares, mas sempre preservando o que o evento representa aqui. Quem participar de uma edição fora precisa sentir como se estivesse em Pelotas — diz Franklin.
Quase 20 anos depois do retorno em 2007, o bloco que começou como um pagode entre amigos na calçada se transformou em um dos principais eventos do carnaval pelotense — sem perder a essência que marcou a sua origem.
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