
Há mais de quatro décadas, quem chega a Pelotas e pergunta onde comer um bom churrasco costuma ouvir a mesma resposta: Lobão. Localizado junto ao estádio da Boca do Lobo, o estabelecimento, que completa 44 anos nesta terça-feira (17), atravessou gerações, resistiu a crises econômicas e mudanças no setor gastronômico e se consolidou como uma das marcas mais tradicionais da cidade — e uma das churrascarias mais conhecidas do país.
Fundada em 1982 pela família Barbieri, a casa mantém até hoje o mesmo modelo de espeto corrido e uma equipe de funcionários que trabalha no local há décadas. Para muitos clientes, a visita virou parte da rotina de quem mora em Pelotas e também uma parada obrigatória para visitantes que chegam à cidade para fechar negócios, comemorar conquistas ou simplesmente experimentar um churrasco típico.

A história da churrascaria começa com Dorlei Luiz Barbieri, hoje com 69 anos, natural de Nova Bréscia, município do Vale do Taquari conhecido pela tradição de assadores e donos de churrascaria espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Na época em que conheceu Pelotas, ele e os irmãos já trabalhavam no ramo gastronômico em outras cidades e mantinham um estabelecimento em Uruguaiana.
A ligação com Pelotas surgiu quando Dorlei veio visitar o irmão Halei, então goleiro do Esporte Clube Pelotas. A visita acabou mudando os rumos da família.
— Eu vim visitar Pelotas porque o meu irmão era goleiro do Pelotas. Tivemos interesse de comprar essa churrascaria, que já existia, e nós viemos de Uruguaiana para cá — conta.
O restaurante já funcionava antes da chegada da família, e, segundo Dorlei, teria sido instalado ainda nos anos 1970 no estádio da Boca do Lobo, considerado o mais antigo em atividade no país. Ao assumir o negócio, os novos proprietários decidiram mudar o nome. A sugestão de “Lobão” partiu de um conselheiro do clube.
Naquele momento, a palavra ainda não tinha a associação tão forte com o Esporte Clube Pelotas quanto ganharia mais tarde.
— Quando botamos o nome de Lobão, essa palavra não era tão popular como hoje, ligada à torcida ou ao time. Era a churrascaria. Depois passou a se integrar na linguagem do futebol.
Na época, já existiam churrascarias ligadas a clubes e estádios, como a Saci, no Beira-Rio, e a Mosqueteiro, no Olímpico. Em Pelotas, o Lobão acabaria criando sua própria identidade.

Um modelo que muitos duvidavam
Quando a família assumiu o restaurante, o modelo de espeto corrido ainda não era tão comum em estabelecimentos urbanos. Segundo Dorlei, havia quem acreditasse que o formato funcionaria melhor em restaurantes de estrada do que em um endereço no centro da cidade.
— As pessoas comentavam que talvez não desse certo, porque o espeto corrido era mais visto como coisa de beira de estrada, de caminhoneiro. Achavam que no centro de Pelotas não ia vingar — recorda.
A resposta veio rapidamente. A churrascaria abriu em uma quarta-feira. No primeiro domingo, já estava lotada.
— Desde lá nunca mais fechamos. Sempre seguimos em um segmento crescente — celebra.
Ao longo dos anos, o restaurante enfrentou diferentes momentos da economia brasileira, mudanças de moeda, crises no abastecimento de carne e até a pandemia de covid-19.
— Passamos por crises muito grandes, por falta de carne e por problemas econômicos. E, por último, a pior foi a covid. Mas conseguimos lutar e passar por essa também — menciona.

Funcionários que fizeram carreira no salão
A longevidade da churrascaria também se explica pela equipe. Alguns funcionários acompanham praticamente toda a trajetória do restaurante.
É o caso do garçom Clébio Rogério Rosa Ferreira, conhecido como Minhoca, de 59 anos. Ele trabalha no Lobão desde 1982, quando ainda era menor de idade. Antes mesmo da fase da família Barbieri, já circulava pelo local, então chamado Churrascaria Pelotas.
— Eu trabalhava no estacionamento, depois fui para a copa. Quando eles vieram eu já estava aqui. Aos poucos fui me tornando garçom. Construí minha vida aqui, minha família também — detalha.
Para ele, o maior legado de mais de quatro décadas no mesmo lugar são as relações criadas com clientes e colegas.
— O que eu mais me orgulho desse tempo todo são as amizades que fiz aqui. Os clientes, os conhecimentos, o respeito das pessoas. Isso é muito gratificante — comemora.

Outro rosto conhecido do salão é Carlos Roberto Bezerra Campos, o Ceará, de 51 anos, há 26 trabalhando na casa. Natural do Nordeste, ele chegou a Pelotas para atuar no comércio, mas acabou encontrando na churrascaria um novo rumo.
— Eu vim do Ceará para vender cama, mesa e banho. Um dia entrei aqui pedindo serviço para fazer uns extras. Fiz dois finais de semana e depois me convidaram para ficar. Fui muito bem acolhido pela família Lobão — lembra.
Segundo ele, a convivência prolongada transforma a equipe em uma espécie de segunda família.
— Depois de tantos anos juntos, a gente acaba virando família — afirma.

A coreografia do salão
Na Lobão, os garçons não apenas servem as mesas. Muitos também ajudam no controle da churrasqueira e na reposição dos cortes. A dinâmica do salão depende muito de experiência e leitura do movimento.
— Quem está no salão é que vê quantas pessoas estão comendo e diz se precisa botar mais carne ou menos carne — explica Ceará.
Servir os cortes diretamente do espeto, equilibrar bandejas pesadas e circular entre as mesas sem derramar bebidas ou sujar as pessoas com a gordura da carne exige prática, dizem os funcionários.
— É prática. Tem que ter calma para servir e cuidar para não pingar a carne — resume Minhoca.

Reduto de famosos
Com o passar dos anos, a fama do Lobão ultrapassou Pelotas. Presidentes da República, artistas, atletas e músicos já passaram pelo local.
Entre os nomes lembrados pela família estão Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro, Fernando Collor, Zagallo, Parreira, Galvão Bueno, Alcione, Fafá de Belém, Amado Batista, Zeca Pagodinho, Marcelo D2, Martinho da Vila, Bruno & Marrone e Diogo Nogueira, além de grupos como Katinguelê, Os Travessos e É o Tchan.
A casa mantém um livro de assinaturas e um acervo de fotos com parte dessas visitas.
— Quando tem show ou evento grande na cidade, acaba respingando aqui. A churrascaria virou referência — resume Rudi Filho, representante da nova geração da família.
Além de famosos, o restaurante também recebe turistas, empresários, pesquisadores e estrangeiros.

Futuro
Hoje, dos quatro irmãos que trabalharam no negócio, três seguem na operação. A nova geração também começou a assumir funções no restaurante.
— Eu me criei aqui dentro. Lembro de correr pelo salão quando era criança — conta Rudi.
Apesar da força da marca, Dorlei afirma que não pensa em expandir o negócio.
— Expansão não. Pela nossa idade já não. Vamos seguir trabalhando — diz.
Com espeto corrido, fogo forte e um nome incorporado à memória afetiva da cidade, o Lobão atravessou mais de quatro décadas. Em Pelotas, poucos lugares conseguiram permanecer por tanto tempo com a mesma força.
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