
Produções gravadas em Rio Grande, no sul do Estado, tiveram papel de destaque na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, de Minas Gerais, um dos principais festivais do cinema brasileiro contemporâneo. Três curtas que passaram pela cidade foram selecionados para a Mostra Foco do evento e dois deles saíram premiados, reforçando a presença do audiovisual produzido fora dos grandes centros no circuito nacional.
Os filmes Grão, Entrevista com Fantasmas e Matanga contaram com apoio técnico do Núcleo de Produção Audiovisual Ofcine/IFRS e foram rodados em diferentes edições da Mostra de Cinema Latino-Americano de Rio Grande, iniciativa que vem se consolidando como espaço de formação, circulação e produção audiovisual na região.
Entre os premiados, Grão recebeu o Prêmio Canal Brasil de Curtas, enquanto Entrevista com Fantasmas venceu o Prêmio do Júri Oficial da Mostra Foco.

Reconhecimento nacional e recepção do público
Dirigido por Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, Grão foi filmado em 2024, durante a 6ª Mostra de Cinema Latino-Americano de Rio Grande, e acompanha a trajetória de Leandro, um jovem que sobrevive recolhendo grãos de soja que caem de caminhões e vagões em áreas industriais da cidade. O filme se constrói a partir da relação entre trabalho precário, masculinidade, desejo e música funk, tendo como cenário o esvaziamento econômico vivido pelo município nos últimos anos.
Segundo Gianluca, a recepção do filme em Tiradentes foi marcante não apenas pela premiação, mas pelo contato com públicos diversos.
— Foi uma sessão muito boa. O filme foi muito bem recebido e tocou pessoas que são do cinema e também quem estava ali como público do festival. A gente ficou feliz porque o filme dialogou com públicos diferentes — relata.
O diretor destaca que, embora o curta seja ambientado em Rio Grande, os temas abordados ampliam o alcance da obra.
— O filme fala sobre masculinidade, sobre uma figura muito associada ao Rio Grande do Sul, que é o gaúcho, mas também sobre desamparo de classe, endividamento e sobrevivência. Independentemente de quem estava assistindo, muita gente conseguiu se identificar com o personagem — afirma.
Além do reconhecimento artístico, o prêmio garante a exibição do curta na programação do Canal Brasil, ampliando a circulação da obra.
— É um prêmio que oferece licenciamento para um canal grande, com muita visibilidade. Para nós, isso é muito importante — acrescenta Gianluca.
Leonardo da Rosa ressalta que o impacto do filme se deu principalmente no diálogo com o público.
— Para além do prêmio, o que mais nos marcou foi a recepção das pessoas depois da sessão. Foi o filme nosso que mais gerou troca com o público em geral, não só com a crítica — diz.
Cinema feito a partir do território
Os diretores destacam que a escolha por filmar em Rio Grande não é casual. A cidade aparece também em outros trabalhos da dupla, formando uma espécie de trilogia com os curtas Madrugada, Cassino e agora Grão.
— Sou natural de Rio Grande e, depois da faculdade, voltei para a cidade para fazer filmes sobre ela. Faz sentido estudar esse lugar através do cinema, principalmente a partir dos personagens — explica Gianluca.
Leonardo amplia a leitura ao lembrar que a equipe reúne profissionais de diferentes cidades do interior do Estado.
— A gente sabe como o extremo sul do Estado muitas vezes é segregado, com tudo muito concentrado na Capital. Nossa equipe é formada por pessoas do interior, e a gente quer gravar nesses lugares de onde a gente pertence, contar essas histórias e tensionar isso através do cinema — afirma.

“Quando damos espaço e apoio, as histórias das periferias podem se encontrar e se fortalecer”
Também filmado em Rio Grande, Entrevista com Fantasmas, dirigido por Lincoln Péricles (LK), foi gravado em 2023, durante a 5ª Mostra de Cinema Latino-Americano. O curta conquistou o Prêmio do Júri Oficial da Mostra Foco e teve a equipe formada, em grande parte, por participantes das oficinas realizadas na cidade por meio do projeto Ofcine.
— Rio Grande, uma cidade no extremo sul do Rio Grande do Sul, foi onde tive a oportunidade de montar a equipe do filme com alunos das oficinas que ministrei. Esse projeto, fortemente apoiado por políticas públicas, mostra o quanto essas políticas são essenciais para a juventude que quer fazer cinema — afirmou o diretor.
LK destacou ainda o significado simbólico da premiação em sua trajetória. Após mais de uma década frequentando a Mostra de Tiradentes, o reconhecimento marca um encontro entre experiências periféricas de diferentes regiões do país.
— Eu faço cinema na quebrada, no Capão Redondo, em São Paulo, e unir o que construí lá com o movimento da juventude de cinema em Rio Grande simboliza a união entre periferias. É a prova de que, quando há espaço e apoio, essas histórias podem se fortalecer e ganhar visibilidade — completou.
Produção local em evidência
Desde 2021, o Núcleo de Produção Audiovisual Ofcine/IFRS, sediado em Rio Grande, já apoiou dezenas de projetos, entre curtas-metragens, videoclipes e videoartes. Para a coordenadora Raquel Ferreira, os resultados em Tiradentes refletem um processo construído ao longo dos anos.
— Conseguimos trazer essa política pública para Rio Grande por causa do histórico do Ofcine, que já realizava oficinas e formações. Isso deu visibilidade e credibilidade para que o Núcleo se consolidasse aqui — afirma.
Matanga, dirigido por Rebeca Francoff, também integrou a Mostra Foco e contou com apoio técnico do Núcleo Ofcine/IFRS.
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